O ser ou não ser do ensaio

Wilson Nogueira* (Texto e fotos)

 

Encerro a leitura de Doze ensaios sobre o ensaio – antologia Serrote, organizado por Paulo Roberto Pires e publicado pelo Instituto Moreira Sales (IMS), São Paulo, 2018, com a perspectiva de que a melhor definição para o ensaio é não defini-lo.

Essa edição celebra trinta anos da Serrote, vinculada ao IMS, uma das poucas revistas do país dedicadas aos ensaios.

Senti-me diante de uma leitura vigorosa, reflexiva e participativa, no sentido de que é possível travar um diálogo com ensaístas de várias épocas, sejamos nós leigos, iniciados ou especialistas.

Os ensaístas são: Alexandre Eulálio, César Aira, Chisty Wampole, Germán Arciniegas, György Lukács, Jean Starobinski, John Jeremiah Sullivan, Lúcia Miguel Pereira, Max Bense, Paulo Roberto Pires e William Hazlin.

Os doze exercitam uma autorreflexão sobre o gênero literário e seus subgêneros no contexto no contexto da história, para melhor ilustrar os leitores a respeito das controversas discussões a respeito da temática proposta. Suas ideias se espraiam desde o debate etimológico até as mais recentes conceituações ao termo.

O livro de 256 páginas está estruturado em cinco seções: Conceitos, Á inglesa, Teoria, Latitudes e Variações.

Esses blocos, por si, aguçam o interesse de quem quer se aprofundar na origem e desdobramentos do gênero, cujos caminhos até aos dias de hoje são tortuosos e marcados por polêmicas intermináveis.

A partir do reconhecido do festejado pai do ensaio, o francês Michel de Montaigne, tempo e espaço ampliam para além e para aquém desse marco renascentista tardio.

Do outro lado do Canal da Mancha, ingleses como Francis Bacon e John Locke adicionaram outros valores ao gênero, fertilizando-o para o florescimento vigoroso. Assim, seria mais justo dizer que o ensaio surge na França, mas se expandiu para outros continente a partir da Inglaterra.

Porém, acentuam Os doze[…], que os vestígios do ensaio são de longas datas, como os encontrados nos Diálogos de Platão, no século V a.c.

Isso porque entre as características do ensaio estão o livre pensar, a livre escrita, a busca incessante da compreensão do mundo envolvendo as margens do poder. “O grande mérito de Montaigne foi o de ter sido o primeiro a ter coragem de dizer, como autor, o que sentia como homem”, enfatiza William Hazlitt.

Essa afirmativa diz da impossibilidade da separação entre autor e aquilo que ele toca, percebe, pensa e prospecta intelectualmente a respeito das suas inquietações: das mais [aparentemente] sossegadas às mais provocantes. Assim, penso nas ervas daninhas que se espalham no meu quintal, penso também na invasão da América.

O ensaio se presta à iluminação das ideias e ações guiadas pelo estranhamento e entranhamento entre sujeito e objeto de uma questão a ser compreendia pelo ensaísta.

É por isso que, certamente, Gérman Arciniegas acentua que o surgimento da América “é uma novidade insuspeitada que rompe com as ideias tradicionais”, e arremata: “A América, em si, já é um problema, um ensaio de novo mundo, algo que aguça, provoca, desafia a inteligência”.

A América é o novo que se contrapõe ao jeito de pensar, agir e fazer do velho mundo, encharcado de intolerância e preconceito, em razão de não se dar à razão de entender a si mesmo, porque se recusa à revelação do outro. Não é à toa que Os canibais, para uma melhor compreensão do ethos tupiniquim, é o ensaio mais fustigante de Montaigne entre nós.

A abordagem relativista de Montaigne decorre da sua independência, da sua coragem e da sua liberdade em relação aos pensamentos antropocêntrico e eurocêntrico dominantes do seu tempo. É isso: o ensaísta não se vergou aos estilos e formas literárias canônicas. Disso resulta que o ensaio é, também, um desafio permanente às mentes e corações que o cometem.

Entre os doze…, é Alexandre Eulálio quem apresenta um quadro da produção ensaística no Brasil, com foco ente 1800 a 1950. Ele esclarece que os sermões, as cartas, as epístolas, os memoriais, as autobiografias etc. são, ainda que realizados sem essa intenção, ricos e edificantes ensaios que nos ajudam a entender a formação sociocultural do Brasil.

Na lista dos autores citados desse período, estão José Anchieta, Joaquim Nabuco, José de Alencar, Machado de Assis, Carlos Drumonnd de Andrade, Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre… O rol é elástico e eclético, fato que só desperta a atenção dos leitores para a complexa abordagem adotada pelo autor. Seria possível, em questionamento radical, pensar a poesia como ensaio ou o ensaio como poesia?

A única certeza que se tem do ensaio é que esse gênero não enquadra os fenômenos humanos e naturais em normas, regras e valores imutáveis. O ensaio sempre buscará o pensamento claro, rigoroso e o equilíbrio dinâmico das suas abordagens, mas não desconsidera a incerteza e o erro.

No ensaio, parafraseando Chisty Wampole, não existe hierarquia nem finalização de tema, para que, certamente, o autor e os leitores adiem os seus vereditos sobre a vida. Tudo isso porque, como bem adverte Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas: “[…] Viver é um negócio perigoso”.

E eu, em detrimento do “por fim”, finjo que findo com essa sentença estimulante de Wampole: “A ensaificação de tudo significa transformar a vida em si em uma prolongada tentativa”.

 

*O autor é escritor e jornalista