Outras memórias
Publicado em: 12/03/2014 às 00:00 | Atualizado em: 12/03/2014 às 00:00
Ivânia Vieira
Olhando um pouco mais afastada reúno pedaços do que deveria permanecer ligado e o ensino ensinou a separar. Separou tanto até impor a crença da desligação como sinônimo de competência e lucidez científica. A força da crença se revelou tamanha ao ponto de trucidar aqueles e aquelas consideradas uma ameaça à obra erguida. Os protetores do templo são ferozes, dispostos a qualquer ato para impedir o afastamento de uma pedra sequer.
Pretensiosos senhores. Diante da armadura inculcada nas falas dos autorizados, nos livros com permissão de circulação, nos programas empacotados da televisão aberta e fechada e da Internet, os sábios rebeldes caminham. Deixam escapar folhas soltas e elas voam longe, as frases perigosas porque mostram brechas na obra fechada por onde é possível ver que além da pedra tem poeira, tem água, tem vida vivendo mesmo com o peso do fardo sobre as costas obrigando as gentes sem títulos olhar baixo. É um garrote determinando movimentos.
De tanto olhar na horizontal por causa da lei imposta essas gentes fazem descobertas, abrem outros questionamentos para o desespero dos que apostavam no desvio sem volta na coluna vertebral. A perspectiva do olhar horizontal parece harmonizar e exige tecimentos diferentes: tem a rua que não é rua e nela buraco esquecido, sinal de trânsito ignorado, água espalhada, construções avançando nas calçadas, classe média jogando lixo no espaço público, falta árvore, humanos encapam palmeiras com fios de nylon e o canto dos pássaros se dissipa…. quem precisa deles? Tem no computador.
Uma dessas folhas soltas bateu no meu peito nesses dias mais longe. Era Geraldine Brooks traduzida por Marco Malvezzi Leal, em “Memórias do Livro” (2008). Os fragmentos são da conversa de Hanna, a desvendadora do âmago dos livros, e Ozren, o salvador do livro. Ou simplesmente “um homem que ficava sufocado por causa de livros perdidos”. Ela descobriu que há borboletas que dependem das formigas para proteger suas crisálidas; que as borboletas são criaturas do ar livre. Nós, precisamos dos livros, das borboletas e das formigas para nos completarmos como gente sem garrote.
*A autora é jornalista de A Crítica e professora de Comunicação Social da Ufam.
