Por uma nova conquista
Publicado em: 28/05/2009 às 00:00 | Atualizado em: 28/05/2009 às 00:00
Wilson Nogueira*
Quem não se imagina em um mundo estável? O conforto é bem melhor. Não há dúvida sobre isso. O problema é que o mundo se tece nas contradições e, por isso, os lugares e momentos de conforto tornam-se raros, principalmente para os que vivem muito aquém das ilhas de riqueza ao redor do Planeta. Os ciclos das crises no capitalismo desnudam essa realidade que se esconde nas épocas de pseudo-estabilidade. Pronto! O mundo está em crise novamente, e o que fazer agora?
Nunca os governos mundiais agiram tão sincronizados e imediatamente para reanimar a circulação de dinheiro no mercado e retomar a produção. Os resultados dessa ação tendem a evitar que o mundo vá até ao fundo do poço, como nas crises anteriores. Lembremo-nos, por favor, dos dois filhotes da crise de 1929: o nazismo e o fascismo, cuja ambição de controle global desaguou na segunda guerra mundial. É possível observar por esse ângulo que as crises no capitalismo não dizem respeito apenas à paralisia do dinheiro.
A provável solução para a crise atual, portanto, não se encerra com a desobstrução do mercado financeiro. Há, nesse momento, uma questão maior a considerar: o que fazer para evitar o colapso do Planeta em razão da exaustão que lhe impõe o modo de produção vigente? O mundo tem hoje 6,6 bilhões de pessoas. Todas – ou praticamente todas – estimuladas para o consumo sem controle. Afinal, é dessa lógica que sobrevive o capitalismo.
Impõe-se necessária e urgente uma nova realidade para o mundo fora do capitalismo que se conhece hoje. A crise, além de expor facetas do capitalismo, precisa agitar a inteligência na busca de novos padrões de sobrevivência, de convivência e de conhecimento. Há pouca margem para se pensar em ajustes duradouros para um sistema que, historicamente, degrada a vida e reduz os recursos naturais em escala planetária. Cálculos matemáticos simples demonstram que o mundo estará insuportável daqui a 20 anos em razão dos impactos do aquecimento global. Os cenários vislumbrados, a partir daí, são cada vez mais apocalípticos: conflitos generalizados pela disputa de água e alimentos.
A amortização desses impactos depende da redução do consumo de energia gerada por combustíveis fósseis, das novas descobertas e do uso ampliado das atuais fontes renováveis de energia, e, sobretudo, da renúncia ao consumismo. Para se livrar da catástrofe, a sociedade mundial terá que se assentar em um novo padrão de vida e convivência ainda não experimentado plenamente. Não é difícil imaginarmos uma sociedade na qual a compra de objetos e produtos materiais e culturais se destinem, unicamente, à qualidade da vida material e espiritual. Difícil será construí-la.
Essa tarefa não pode mais ser protelada. Nunca o planejamento das micro e macro estruturas esteve dependente de um futuro tão visível. Por isso, planejar e administrar sem levar em consideração a situação em que viverá a humanidade nos próximo 50 anos é um crime. Nesse sentido, há governos, empresas e muita gente cometendo crimes por aí, apressando o desconforto das novas gerações. Assim, fica difícil sonharmos com um mudo melhor, mais confortável.
* Sociólogo, jornalista e escritor.
