Tragédias anunciadas

Publicado em: 20/05/2009 às 00:00 | Atualizado em: 20/05/2009 às 00:00


Wilson Nogueira*

Em 2005, a seca foi implacável com a Amazônia. Um cenário de queimadas incontroláveis, rios, lagos e lagoas entupidos de peixes mortos, e muitos quilômetros quadros de terras ressequidas. Agora é a vez da cheia. Os mananciais das áreas mais baixas transbordam e formam um imenso mundo de águas. Ambos os fenômenos condenam milhares de pessoas ao flagelo. O poder público e a sociedade precisam agir para enfrentar problemas desse porte com mais eficácia, afinal, tratam-se de situações comuns do provável aquecimento global.

Não há, ao menos por aqui, cidades que suportem demandas sociais urgentes. Deficitárias em infraestrutura, serviços e equipamentos públicos, a tendência é que elas acumulem mais problemas. Há situações em que as próprias cidades ficam debaixo d’água até em chuvas um pouco mais longas. A água em excesso mata as plantações, impede a criação de animais, espalha os peixes e dissemina doenças. Vilas e vilarejos ribeirinhos são os mais prejudicados. Os efeitos da estiagem não são menos desastrosos. Viver num desses cenários é muito mais perigoso. Para a imensa maioria, a única saída é migrar para “mudar de vida” nas cidades.

Os retirantes somam-se, então, aos demais que disputam a sobrevivência na indigência, no subemprego e no emprego assalariado. Muitos não retornam mais à vida rural. Os ciclos se repetem a cada ano, embora sejam mais intensos nos períodos das grandes enchentes e das grandes estiagens. Os relatórios das instituições multilaterais que monitoram o aquecimento global sugerem que as mudanças climáticas serão cada vez mais fora dos padrões aos quais estamos acostumados.

Os especialistas sustentam, também, que a floresta amazônica controla parte do clima mundial e também é influenciada por ele. É possível, portanto, que a seca de 2005 e a cheia deste ano na Amazônia sejam as consequências de um problema global do qual a região participa com as queimadas e derrubadas de árvores.

A floresta em pé sequestra gases emitidos pela queima de combustíveis fósseis que causam o efeito de estufa. Mas, em vez disso, as árvores somem nas queimadas para criação de gado e monoculturas, como a da soja, e na ação da indústria madeireira ilegal. Mais de 17% da floresta amazônica foram derrubados, e 74% do que o Brasil emite de dióxido de carbono decorrem das queimadas. Os efeitos da seca e da cheia, como se vê, são apenas a ponta de um problema que precisa de melhor e mais ampla compreensão para ser resolvido.

Não haveria melhor solução senão a da mudança no estilo de vida da população mundial. Isso implicaria em uma nova ética, na qual produtores e consumidores agiriam para reduzir a queima de combustíveis fósseis e para criar opções energéticas renováveis. Mas isso só será possível com o reconhecimento de que a terra tem recursos finitos. No momento, há mais divergência que convergência para um juízo favorável à salvação do Planeta.

Enquanto isso, o Poder Público e a sociedade necessitam de mecanismos permanentes de monitoramento dos impactos das mudanças climáticas em escalas local e global, para que as soluções se antecipem aos problemas anunciados. Não dá mais para justificar a negligência ao sofrimento alheio. E o mundo sabe disso: os pobres são os que mais sofrem e os que mais sofrerão com as catástrofes climáticas.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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