Quando o sistema gira, boi voa na política do Amazonas

Às vésperas das convenções partidárias, a correlação de forças volta a pressionar candidaturas e mostra que, na reta final das eleições, nem sempre prevalece a vontade dos pré-candidatos.

O sistema faz boi voar

Neuton Corrêa, Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 14/07/2026 às 06:57 | Atualizado em: 14/07/2026 às 07:16

Na política amazonense, existe uma velha expressão repetida sempre que se aproxima o período das convenções partidárias: “boi voa”.

Não se trata apenas de uma metáfora bem-humorada. A frase resume um fenômeno recorrente da política local. Quando o calendário eleitoral entra na fase decisiva, projetos considerados consolidados desaparecem de uma hora para outra, candidaturas são substituídas e alianças mudam de direção.

À primeira vista, parece improviso. Mas, olhando mais de perto, quase sempre há um elemento comum por trás dessas mudanças: o sistema político em movimento.

É quando a correlação de forças fala mais alto que os projetos pessoais.

Foi assim em diferentes momentos da história recente do Amazonas.

Em 2002, o então deputado José Melo chegou à convenção de Eduardo Braga cercado de familiares e aliados convencido de que seria anunciado candidato a vice-governador. No momento decisivo, o escolhido foi Omar Aziz, que anos depois chegaria ao Governo do Amazonas.

Em 2016, Wilson Lima era o nome cotado para ser vice na chapa de Marcelo Ramos à Prefeitura de Manaus. Na reta final, acabou substituído por Josué Neto.

Dois anos depois, em 2018, Omar Aziz precisou reconstruir sua chapa ao Senado. O primeiro escolhido era Pauderney Avelino, que desistiu. Depois convidou Marcos Rotta, que recusou. A solução acabou sendo Plínio Valério, eleito naquele ano como o senador mais votado do Amazonas.

Situação semelhante ocorreu em 2012. Rebecca Garcia era tratada como candidata natural do grupo liderado por Omar Aziz e Eduardo Braga à Prefeitura de Manaus. Na última noite antes do prazo de homologação, o grupo optou por Vanessa Grazziotin (PCdoB). Arthur Neto venceu aquela eleição e ficou oito anos o cargo.

Os episódios mostram que, na política amazonense, o boi não voa sozinho. Alguém sempre lhe coloca asas.

O sistema volta a girar

A poucos dias do início das convenções, sinais semelhantes aparecem nas três principais chapas da eleição deste ano.

A pressão sobre Maria do Carmo

No PL, a empresária Maria do Carmo enfrenta hoje um cenário bem diferente daquele vivido meses atrás.

Sua pré-campanha perdeu força dentro do próprio grupo político. Cresceram as divergências internas, surgiram resistências entre dirigentes estaduais e parlamentares, enquanto o apoio da direção nacional do partido já não demonstra o mesmo entusiasmo do início da pré-campanha.

Esse enfraquecimento abriu espaço para uma operação conduzida pelo União Brasil.

O grupo liderado pelo ex-governador Wilson Lima trabalha para desmontar o palanque adversário, atraindo o deputado federal Capitão Alberto Neto para compor como vice de Roberto Cidade.

Caso consiga, o movimento produziria dois efeitos políticos.

Primeiro, entregaria ao governador um vice identificado com o eleitorado de direita, fortalecendo a disputa ideológica contra Omar Aziz.

Segundo, concentraria o campo conservador em torno de uma única candidatura ao Senado: Wilson Lima.

A força utilizada nessa articulação não nasce apenas da negociação partidária. Ela parte da estrutura do governo estadual, da influência política construída nos últimos anos e da capacidade de reunir aliados em torno desse projeto.

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A vice que virou debate

Na chapa de Omar Aziz, o primeiro ponto de tensão envolve justamente a vaga de vice.

A deputada estadual Alessandra Campêlo foi escolhida num contexto completamente diferente do atual.

Seu nome surgiu quando ainda existia a possibilidade de aproximação entre Omar Aziz e o grupo político que governava o Estado antes da renúncia conjunta de Wilson Lima e Tadeu de Souza.

O cenário mudou.

Hoje, deputados estaduais que aderiram à candidatura de Omar passaram a defender reservadamente outra composição.

A discussão não gira em torno apenas do nome de Alessandra, mas da conveniência política da escolha diante do novo equilíbrio de forças.

Mais uma vez, não é a vontade individual que determina o desfecho, mas a capacidade de articulação dos grupos que cercam o candidato.

O sistema de Brasília

O segundo movimento ocorre na disputa pelas vagas ao Senado.

Eduardo Braga trabalha para permanecer como único candidato do campo liderado por Omar Aziz.

Sua convenção já foi marcada sem a participação da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, evidenciando o desconforto da esquerda com a composição.

Nesse caso, o sistema opera em outra escala.

Braga não utiliza apenas sua influência regional.

Ele chega à negociação respaldado pelo peso nacional do MDB, uma das maiores bancadas do Congresso, com dezenas de deputados federais e senadores, além de ocupar posições estratégicas em comissões importantes e manter interlocução direta com líderes históricos da legenda.

Esse capital político amplia seu poder de negociação para defender um objetivo claro: disputar o terceiro mandato consecutivo no Senado sem concorrência dentro do próprio grupo.

Enquanto isso, PT e PCdoB passaram a discutir outro caminho, aproximando-se do pré-candidato Ismael Munduruku, da Rede Sustentabilidade, o que indica que a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode chegar dividida às convenções.

O velho fenômeno continua

Toda eleição produz seus “bois voadores”.

Alguns decolam.

Outros sequer saem do chão.

Mas a história recente da política amazonense mostra que essas mudanças raramente acontecem por acaso.

Por trás delas existe quase sempre uma força maior: a capacidade de articulação dos grupos políticos, o peso das máquinas partidárias, a influência institucional e a correlação de forças construída muito antes da campanha começar.

Nas próximas semanas, quando as convenções definirem oficialmente as chapas, o eleitor descobrirá quais bois apenas ensaiaram levantar voo. Descobrirá ainda quais, mais uma vez, ganharam asas porque o sistema resolveu girar.

Convenções

A convenção da chapa de Omar Aziz está marcada para o dia 25 de julho; a chapa de David Almeida (Avante) vai realizar sua convenção ainda em julho. A ideia é não esperar o prazo final, 4 de agosto. Prazo final quem escolheu foi Roberto Cidade, que fará sua convenção no dia 4. Maria do Carmo, do PL, ainda não divulgou sobre sua convenção.

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Foto: Imagem produzida pelo GPT