Uma chuva na parada
Publicado em: 03/12/2011 às 00:00 | Atualizado em: 03/12/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Era meio-dia, mas o Sol havia acanhado o brilho por causa da nuvem carregada que corria empurrada por um vento agitado que soprava para todos os lados. Olhando o tempo que se formava, calculei que ainda havia tempo de alcançar o abrigo de ônibus antes da chuva. Fui o primeiro a chegar e não se demorou muito para o ponto ficar lotado de gente à espera do busão e gente à espera de o temporal passar.
Dessa gente, lembro-me de uma garota que vestia roupa colegial e que atravessou a rua desafiando os carros, correndo de cabeça baixa e protegida por um caderno que colocara sobre si para se proteger das gotas maduras de águas que começam a molhar o asfalto. Depois dela, apareceram um vendedor de lanche de bicicleta cargueira; um policial militar fardado; um mototaxista que parou ali apressado; e outros de que não sei dar definição.
O corre-corre de pessoas atrás do abrigo se encerrou com a chegada de três mulheres que surgiram correndo com uma criança de colo protegida por elas com pedaços de pano que me fizeram lembrar os antigos cueiros que minha mãe usou para me embrulhar e vestir meus outros sete irmãos.
As três se sentaram e uma delas, sem embaraço consigo e com a plateia, foi logo suspendendo a camisa e puxando o peito para dar de mamar ao filho. Esta, a que amamentava, ficou sentada ao meio às amigas, sendo que, a da esquerda me fez ficar por algum tempo tentando ler o que estava escrito em uma tatuagem que trazia no toco (metacarpo) dos dedos, mas, com muito esforço, consegui decifrar a inscrição: “Rosa Maria”. “Rosa” ela escreveu no lado esquerdo e do outro lado da mão, ocupando todos os dedos, “Maria”.
A terceira delas, que se sentava à direita da mãe e do menino, era bem diferente das demais. Era bem mais alta que as amigas, vestia-se bem menos despojada do que as outras. Aliás, a calça de malha apertadinha que usava modelava-lhe as coxas e as batatas das pernas. Ela era também a mais falante do grupo.
A mulher era tão falante, que abriu espaço para que o mototaxista lhe abordasse com alguma coisa que não entendi. Imaginei que ele havia perguntado alguma coisa sobre a mulher com o filho no colo, porque a assim ela respondeu em alto e nítido som:
– Não, o marido dela está com um ano que morreu.
Com a resposta, quase como reflexo, dobrei a cabeça ligeiramente em direção à criança para supor a idade dela e calculei pelos dentinhos que começam a brotar que o bebê não tinha mais do que seis meses. Ou seja: a criança não chegou a conhecer o pai.
Enquanto eu fazia essas conjecturas, a porta-voz do grupo falou, como se estivesse lendo meu pensamento:
– Mataram o pai dele, né bebê? – disse apertando a bochecha do menino.
Eu pensei que a conversa continuaria nessa direção, mas outra vez o motataxista fez uma pergunta sussurrada e a mulher respondeu:
– Já sofri muito como criança. Agora, meu filho, toda folga tomo minha cervejinha. Passei o feriado todo dormindo. Ah, vida boa!
Como a conversa já dava caldo para uma crônica e tudo ali acontecia desnudado, saquei minha caderneta de passageiro-repórter para anotar os detalhes do papo, quando, outra vez, respondendo às silenciosas perguntas, respondeu:
– Tu tá doido? Mal sair duma entrar noutra? Não!
Desta vez, senti o mototaxista constrangido, mas ele insistiu (e juro que não ouvi nada) e a mulher rebateu:
– Mano, hoje a gente não casa mais por amor, né? Mas nunca se sabe!
Depois disso, a chuva e os nossos ônibus passaram levando o que temporal testemunhara.
*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).
