Por Jacir Venturi*

 

A solidariedade é intrínseca à condição humana, um dever moral que vai além da dimensão religiosa, pois todos somos gregários e frágeis. A bondade é tão relevante que, cinco séculos antes de Cristo, nos limiares da filosofia, o pré-socrático Demócrito de Abdera assim aconselhava: “é preciso ou ser bom ou imitar quem o seja”.

Praticar o bem é um ato nobre e gratificante, sejam quais forem as motivações: espiritualidade, cidadania ou alegria de servir. Conta-se que um grande filantropo americano foi à Índia conhecer as ações de Madre Teresa e, surpreso com tanta misericórdia e dificuldade, teria exclamado: “Irmã, eu não faria esse trabalho por dinheiro algum do mundo”. Ao que ela respondeu: “Eu também não”. Imbuída de elevada religiosidade, ela manifesta a sua escala de valores: “As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam”.

O voluntariado é uma via de mão dupla, pois dá dignidade, supre necessidades básicas e leva tanto quanto possível autossuficiência à comunidade atendida. E a neurociência comprova que agir de modo altruísta, entre outros efeitos positivos, libera o hormônio oxitocina, que promove bem-estar e cuja falta pode ocasionar estresse e depressão. “Voluntarioterapia”, um neologismo que se impõe diante de testemunhos daqueles que esquecem os próprios problemas, pois são pequenos diante da realidade em que estão atuando; ou que abandonaram terapias e remédios contra a tristeza e a depressão – não há voluntário triste quando em ação.

Zilda Arns, uma mártir do voluntariado – pois faleceu em plena atividade comunitária, vítima do terremoto no Haiti em 2010 – se faz oportuna: “quem é voluntário não só dá, recebe muito mais”. Essa transcendentalidade está presente nas palavras de Gibran Khalil Gibran, humanista e escritor libanês: “O trabalho voluntário é para mim uma prece silenciosa. Deveis encontrar uma causa generosa à qual sacrificareis tempo e dinheiro, porque é assim que conhecereis a alegria de dar. Mais do que vossas posses, é quando derdes de vós próprios é que realmente dais”.

Inegavelmente, é a motivação religiosa que prepondera em atividades sociais de benemerência. Os fiéis que frequentam igrejas, sinagogas, mesquitas ou outros templos são mais generosos na doação de seu tempo e nas contribuições pecuniárias. Um estudo realizado nos Estados Unidos pela Charities Aid Foundation aponta que, em média, o americano religioso distribui 7% de sua renda para projetos sociais, correspondendo ao dobro dos 3,5% praticados pela população como um todo, em muito contrastando com os 0,3% da renda que os brasileiros dedicam às doações.

Certamente, não é menor a generosidade dos brasileiros, mas sim baixa a confiança em relação às associações de filantropia (quantas delas merecedoras do adjetivo “pilantrópicas”?). A despeito, há um outro olhar, de enlevo e esperança, quando se convive com o expressivo número de abnegados que dedicam tempo e dinheiro às famílias necessitadas ou entidades assistenciais idôneas, sem que constem em qualquer estatística.

Até mesmo sem vínculos com crenças religiosas, muitos são os atores sociais movidos pelo espírito de cidadania, cujo estímulo advém do prazer de agregar valor à comunidade, ou até pelo desejo de serem reconhecidos. Sim, há aqueles que promovem ações voluntárias em busca de reconhecimento e autopromoção ou para vender uma boa imagem – mesmo assim, não devem ser julgados, pois a entrega traz benefícios. É um narcisismo eficaz, e ser apreciado é próprio da condição humana. Seja qual for a motivação, é sempre relevante a promoção de oportunidades de estudos e trabalho que propiciem autossuficiência e efetiva inclusão social.

Infelizmente, boa parte dos países ainda pratica a “economia da exclusão, que mantém os pobres na marginalidade” – faz-se oportuno o papa Francisco. E o Brasil é uma das nações em que há maior desigualdade social, não por escassez de recursos, e sim por injustiça e improbidade. É de se perguntar: o que choca mais, a pobreza ou a passividade diante dela? A bem da verdade, uma real e duradoura transformação de nosso país virá de uma contribuição muito significativa das ações comunitárias de cada um de nós e, concomitantemente, de uma pressão persistente sobre gestores públicos e melhores escolhas na eleição de nossos dirigentes e legisladores.

 

*O autor é coordenador da Universidade Positivo (UP), foi professor e diretor de escolas públicas e privadas

 

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