Por Rosiene Carvalho, da Redação

 

Último presidente a comandar a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM) por três mandatos, ou seja, seis anos, o deputado estadual Belarmino Lins (PP) declarou, em entrevista exclusiva ao BNC, que a presidência do Poder Legislativo exige isenção, tranquilidade e serenidade.

A avaliação de Belão, como é conhecido, foi feita no dia em que o atual presidente da casa e pré-candidato ao Governo, David Almeida (PSB), esteve à beira de um confronto físico com o líder da maioria, deputado estadual Vicente Lopes (sem partido).

Ao 72 anos e no sétimo mandato consecutivo na ALE-AM, Belão disse que vai procurar o presidente e os deputados da oposição para tentar promover o diálogo. Para o parlamentar, o “clima” que  domina o parlamento estadual no momento é ruim para a imagem da Assembleia e para  a eficácia da atuação do poder.

“Quero ajudar a pacificar  a ALE-AM (…) Acho que haverá uma superação disso para que entremos no processo eleitoral de forma tranquila e serena”, avaliou.

Na entrevista de cerca de 20 minutos no gabinete dele, Belão avaliou com palavras sutis, porém claras, o desempenho dos atuais líderes do governo e insinuou, também em tom sutil, que David Almeida é o responsável pela “mudança na ALE-AM” que ele se questiona se é para melhor ou pior.

O parlamentar mostrou ainda a sua carta de filiação ao PP. A ida dele e do irmão, o deputado federal Átila Lins, esta semana, para o partido de Rebecca Garcia e Francisco Garcia foi o movimento mais claro de afastamento do PP do palanque de David Almeida ao Governo e adesão da sigla ao grupo de Amazonino Mendes.

Essa mexida é uma das responsáveis pelas principais reações de bastidores e públicas desta semana envolvendo as articulações na composição de alianças para a disputa eleitoral em  2018.

David foi o principal cabo eleitoral de Rebecca em 2017, quando o presidente da ALE-AM ocupava interinamente o Governo do Estado.

 

A seguir, leia trechos da entrevista:

BNC: Por que o PP foi a melhor opção neste momento?
Belarmino Lins – Primeiro, na última eleição, nós, por circunstância da divisão do grupo político, acabou que o deputado Átila Lins foi para o PSD, por razões pessoais, e eu continuei no PMDB. Depois com esse desdobramento e ruptura política das lideranças, o Átila ficou com o PSD do senador Omar, que teve como candidato o José Melo e eu com o PMDB, que teve como candidato o Eduardo Braga. Passada as eleições, Melo me formulou um convite para ir para o Pros e ajudá-lo no governo dele. Eu consultei as nossas lideranças políticas e entenderam que nada contra. Ingressei no Pros e ocupei a liderança do partido até o dia 22 deste mês, quando me desfiliei para me preparar para uma próxima filiação partidária. Sempre defendendo que nas eleições que se aproximam os deputados Belarmino e Átila estejam juntos como sempre estiveram.

BNC: Por que o PP?
Belarmino Lins – Notadamente o Partido Progressista tem verdadeiramente uma identidade nacional. É hoje o segundo maior partido do Brasil, em razão dessas mudanças. Só perde para o PT. O primeiro é o PT com 57 deputados federais, o segundo o PP com 52. Depois, o MDB, que teve uma perda significativa, com 47 e depois PSDB com 44. Por outro lado, as ligações: sempre tivemos uma boa relação de amizade com o presidente do partido, Francisco Garcia. A nível nacional, o Átila é amigo pessoal do presidente do partido, o Ciro Nogueira. E as coisas vêm sendo trabalhadas. É um partido que hoje, no Governo Federal, desponta com três grandes ministérios para que possamos ajudar o Amazonas, particularmente os amazonenses do interior: Ministério da Saúde, Cidades e Caixa Econômica. Então, é um vasto campo de atuação para um deputado federal atuar canalizando benefícios para o Amazonas.

BNC: Vocês vão ocupar algum cargo de direção estadual no PP?
Belarmino Lins – Não entramos pensando em ocupar direção do partido. Entramos com o intuito de colaborar e dar uma nova performance. Passei muitos anos no PMDB e nunca pretendi ser membro da direção. A mesma coisa o Átila no PSD. Fiquei no Pros e nunca pretendi ser presidente municipal ou secretário geral. Vamos entrar como operários do partido nas políticas públicas que o partido defender.

BNC: A sua experiência tem sido decisiva em alguns momentos para o Governo na ALE-AM, com essa fragilidade toda da base. A ex-deputada Rebecca Garcia tem colocado que mantém os acordos entre ela e o deputado David Almeida, em 2018. Essa situação é confortável para o senhor? É necessário que em algum momento o senhor suba no palanque do David Almeida?

Belarmino Lins – Não. O processo político se desenrola de acordo com as datas previstas na lei eleitoral. Temos a fase da janela aberta para novas filiações. Continuo na ALE-AM, na condição de 2º vice-presidente, contribuindo com o parlamento e com o governador Amazonino Mendes, na base aliada do governador para dar sustentação política e aprovação de todos os projetos do governo. Quem se arvora em dar saltos acaba contundindo a perna ou abrindo fratura. Não tenho mais tempo nem idade para pular e dar saltos longos. Vou administrando minha vida de acordo com os prazos estabelecidos na lei.

BNC: O senhor e o deputado Átila chegaram a conversar com o governador Amazonino Mendes antes da filiação ao PP?
Belarmino Lins – Conversamos com o governador todos os dias.

O governador Amazonino sabe dos nossos passos no que diz respeito a nossa preferência partidária.

BNC: Soubemos de uma conversa em que participou também Francisco Garcia nesta definição de filiação sua e do deputado Átila.

Belarmino Lin – Quem participou?

BNC: O Francisco Garcia.

Belarmino Lins – Não participei da reunião com o Chiquinho Garcia e o Amazonino. Mas o meu abonador foi o Francisco Garcia, um homem que tenho maior apreço e consideração ao longo da vida pública. Já trabalhei para ele para ser senador da República, lá atrás, quando éramos jovens. Tenho maior apreço pela Rebecca que é uma mulher amazonense com talento político. O governador Amazonino sabe dos nossos passos no que diz respeito a nossa preferência partidária.

O parlamento quando eu presidi nunca foi subserviente, foi parceiro do governo (…) Do doutor Gilberto para cá, eu servi todos os governos com a mesma dedicação. Não me excedi e também não me rebaixei. 

BNC: O que aconteceu aqui hoje na ALE-AM é algo que se possa considerar normal. O presidente da ALE-AM avaliou como uma questão normal diante dos ânimos exaltados.
Belarmino Lins – Eu não assisti. Só que em alguns momentos dizem que a ALE-AM mudou. Em alguns momentos eu acho que… se ela mudou, pode ter mudado para melhor ou para pior? Porque o parlamento… A nação brasileira tem três poderes: executivo, judiciário e legislativo. O parlamento quando eu presidi nunca foi subserviente, foi parceiro do governo. Pelas minhas origens. Ah, o deputado Belarmino nunca foi oposição ao Governo, mas o povo nunca me elegeu para a oposição. Em todas as eleições que eu tenho disputado, estou sempre com o grupo político que ganhou a eleição. Só não ganhou esta última. Mas isso entrou água no caminho e alargou o estreito do rio. Eu servi os dois governos do doutor Amazonino Mendes como deputado. Fui vice-presidente da ALE no governo dele. Ocupei o governo interinamente quando ele foi governador. Do doutor Gilberto para cá, eu servi todos os governos com a mesma dedicação, humildade e responsabilidade e com a mesma serenidade e firmeza. Não tergiversei no exercício do cargo. Não me excedi e também não me rebaixei. Cada um tem um estilo. Acho que na ALE-AM hoje estamos vivendo um momento conflituoso, que não sei se é bom para uma boa convivência democrática.

Não é na força que se legisla e se governa.

BNC: O senhor não sabe se é bom para a população, para a imagem do parlamento ou para a relação com o governo?
Belarmino Lins – Para a imagem e para os resultados que precisa oferecer. Hoje, por exemplo, assisti um deputado falar que a ALE-AM tem que parar tudo que é votação. Falta de equilíbrio. Tem que pedir uma maracujina para quando esses espíritos tiverem elevados, se acalmarem. Porque não é na força que se legisla e se governa. Vejo com preocupação esse momento. Até porque estamos numa fase pré-eleitoral. Mas a legislação não permite você usar a máquina no que a lei veda. Vejo com preocupação. Mas cada um com a responsabilidade da sua função.

 Aquela cadeira de presidente, você senta e passa ser presidente de um poder. Como tal, você tem que exercê-lo com isenção, tranquilidade e serenidade. Como está acontecendo, vai ficar cada vez mais difícil. Acho que haverá uma superação disso para que entremos no processo eleitoral de forma tranquila e serena. E vamos deixar que o povo escolha.

BNC: O senhor tem conhecimento, participou desse grupo que reúne informações para denunciar o David Almeida ao TRE?
Belarmino Lins –Eu acho que a ALE-AM, através do presidente do poder, tem que se reunir e encontrar uma solução de forma conciliadora. Não se pode esticar a corda, o cabo para ir ruindo e quebrar. Isso é ruim para o parlamento e para política amazonense. Principalmente, nas relações institucionais que o parlamento deve ter com os demais poderes. Aquela cadeira de presidente, você senta e passa ser presidente de um poder. Como tal, você tem que exercê-lo com isenção, tranquilidade e serenidade. Fora dali, nas tribunas populares você pode ser o que quiser ser, desde que o povo lhe compreenda como tal. Eu vou sugerir ao presidente, deputado David Almeida, que reúna os colegas deputados para uma conversa interna corporis, visando a superação dessas dificuldades de relacionamento. Porque, como está acontecendo, vai ficar cada vez mais difícil. Acho que haverá uma superação disso para que entremos no processo eleitoral de forma tranquila e serena. E vamos deixar que o povo escolha.

Se alguém lidera é em nome de alguém. O Dermílson é o líder do governo. Lidera em nome do governador. Vicente lidera em nome dos colegas que compõem a base. Esses dois que podem atuar e trabalhar como atores principais no aumento da representatividade política situacionista. O trabalho principal é das lideranças. Senão você perde o controle, fica sem saber quem lidera e quem é liderado.

BNC: O governo consegue voltar a ter uma maioria na ALE na troca-troca  de partidos ou diminui?
Belarmino Lins – Eu diria para você que é uma atuação que deve ser conduzida pelas lideranças. Temos a lideranças do governo, da bancada situacionista. A primeira representada pelo Dermilson (Chagas), outra pelo deputado Vicente (Lopes) e a liderança da bancada oposicionista. Aí, essa questão de articulação não é de cada um. É de quem lidera. Cabe essa função a quem lidera. Se alguém lidera é em nome de alguém. O Dermílson é o líder do governo. Lidera em nome do governador. Vicente lidera em nome dos colegas que compõem a base. Esses dois que podem atuar e trabalhar como atores principais no aumento da representatividade política situacionista. Nós, como coadjuvantes, temos que ajudar na tarefa. Mas o trabalho principal é das lideranças. Senão você perde o controle, fica sem saber quem lidera e quem é liderado.

BNC: Será que não é isso que está ocorrendo com duas lideranças?

Belarmino Lins – São regimentais.

Um não pode falar inglês e o outro português. Eles tem que falar a língua do governo.

BNC: Mas me parece que …
Belarmino Lins – Sim. Tem que ser exercidas em harmonia. Um não pode falar inglês e o outro português. Eles tem que falar a língua do governo. Qual a língua do governo? Realizar. Qual o governo que não quer realizar? Agora, o governo não pode ficar a reboque da oposição. Senão, você inverte: pode a carroça na frente e o boi atrás? Quem puxa a carroça não é o boi? Entao, hoje estamos quem nem numa balança: 12 a 12. Cada um tem que trabalhar para ter 14, 15. Eu sempre trabalhei com muita folga. Não sofri esses estresses. Esses estresses de hoje nunca sofri, graças a Deus. Com todos os colegas aqui tenho boa relação. Com o meu jeitão de ser, é diferente de alimentar qualquer maldade contra A, B ou C. Meus momentos de rebeldia são momentâneos. Mas rapidamente me encontro com a tranquilidade. Com isso, vou vivendo muito bem.

BNC: Obrigada pela entrevista. Uma última  pergunta: afinal, quem é o mais mais antigo, o senhor ou o deputado Serafim (Corrêa)?
Belarmino Lins – Eu sou o mais experiente. Tenho sete mandatos consecutivos. Tem deputado aí que diz que teve sete mandatos, contando com dois de vereador do Careiro, de Autazes. Eu tenho sete de deputado estadual. Não foi comprado, não. Foi conquistado. Consecutivos. Então, o Serafim é o mais velho e está mais acabadinho. Pode observar (risos).

 

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