Ciranda de Manacapuru é vitrine da diversidade amazônica

Festival consolida formato próprio e se afirma como palco de culturas não indígenas da Amazônia.

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 08/09/2025 às 18:56 | Atualizado em: 08/09/2025 às 18:56

Passada uma semana do último Festival de Ciranda de Manacapuru – e da cena lamentável protagonizada pelo presidente da agremiação vice-campeã – podemos reafirmar que o espetáculo realizado por Guerreiros Mura, Flor Matizada e Tradicional nivelou-se com o Festival Folclórico de Parintins, em termos estéticos. Isso em apenas 27 anos de existência.

Próximo a completar três décadas, o Festival de Ciranda de Manacapuru construiu um formato próprio de espetáculo. E, cada vez mais, se torna uma vitrine para a diversidade sociocultural da Amazônia não indígena.

Caminhos abertos

Quando o Festival de Ciranda de Manacapuru foi criado, em 1998, o de Parintins estava em sua 33ª edição.

Os bois-bumbás Garantido e Caprichoso já haviam aberto caminhos em todos os sentidos. Tanto no que diz respeito ao formato de espetáculo de arena, quanto, digamos, o “caminhos das pedras preciosas” do investimento público e privado em festivais folclóricos.

Segundo mostra a pesquisa de Wilson Nogueira sobre festas amazônicas, em 2000, as câmeras da Rede Amazônica de Comunicação se voltaram para o cirandódromo de Manacapuru, logo após perder a concessão da transmissão do Festival Folclórico de Parintins. No mesmo ano em que foi inaugurado o cirandódromo, o parque do Ingá.

Assim, logo na origem, o festival de cirandas contou com uma arena própria e transmissão pela televisão.

A armadilha das três raças

O formato de espetáculo de arena da ciranda manacapuruense se inspira no de Parintins: divas femininas saem “de surpresa” de alegorias em movimento, representando personagens que fazem parte de um enredo maior.

Porém, há uma bela diferença das cirandas sobre o boi-bumbá parintinense: seus itens individuais não são racializados como no formato do boi.

Afinal, o boi bumbá configura o formato de espetáculo de arena como o conhecemos hoje, no final da década de 80, quando o discurso do mito das três raças e da miscigenação predominava como verdade sociológica na explicação sobre a formação da identidade do povo brasileiro.

Assim, em Parintins, foram demarcados espaços de representação racial como o da sinhazinha (representante da matriz branca), da cunhã poranga (da matriz indígena), da rainha do folclore e porta-estandarte emergiram como espaço para as mestiças caboclas. Quase não sobrou espaço para a matriz negra, representados por Pai Francisco e Mãe Catirina, que são itens obrigatórios, mas não pontuam.

Lenda amazônica e figura típica regional figuram como vitrines do universo caboclo, compreendido como o fruto da miscigenação entre brancos e indígenas na região.

Em Manacapuru, não há definição racial para cirandeira bela, princesa cirandeira ou porta-cores. Há para a Mãe Benta.

Desse modo, o formato de espetáculo da ciranda de Manacapuru configurou-se alheia ao mito das três raças e, nesse sentido, suas divas podem ser inseridas em temas mais plurais, atuais e ajustados à diversidade social, cultural e étnica da Amazônia.

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Uma comunidade amazônica

Personagens típicos da ciranda de Tefé, como Seu Honorato (um sacaca/curador homônimo de uma cobra grande encantada), Seu Manelinho (um pescador boêmio), Mãe Benta (quituteira baiana), Galo Bonito (um bailarino sedutor), Caçador e o pássaro Carão, são arquétipos de muitas comunidades amazônicas.
Eles convivem em harmonia com os personagens remanescentes da ciranda portuguesa, como Constância (a mais bela) e Cupido (o anjo).

Tais personagens são expressões da diversidade social e cultural da Amazônia não indígena, vide Mãe Benta, uma mulher negra, baiana, que trabalha como quituteira para se sustentar.

Indiscutivelmente, a Amazônia deve tudo o que é aos povos indígenas. Mas, junto deles, estão outros, dos quais fazem parte os nordestinos, como Mãe Benta, que para cá foram trazidos.

Entre o tradicional e o novo

No formato de espetáculo das cirandas de Manacapuru há um nó difícil de desatar.

Na transformação da ciranda de Tefé em ciranda de Manacapuru há uma tensão entre personagens tradicionais (Seu Honorato, Seu Manelinho, Mãe Benta, Galo Bonito etc) e as personagens novas (cirandeira bela, princesa cirandeira e porta-cores).

Isso porque, no compromisso de não se perderem de suas raízes, as cirandas têm como item de obrigatoriedade apresentar os personagens tradicionais incorporados aos temas. Mas, eles não são itens de competição.

É perceptível o desencaixe dos personagens tradicionais, que, não raro, ora faltam ora sobram nos enredos dos espetáculos. Como apenas os itens femininos disputam pontos, é comum que sejam priorizados nos espetáculos.

O passo da Tradicional

Nesse sentido, no festival deste ano, a ciranda Tradicional apresentou um formato de espetáculo que transformou o nó entre personagens tradicionais e novos em trança.

A agremiação fugiu ao padrão e não apresentou uma narrativa única que tenta dar conta de todo o tema.

A vermelho, dourado e branco fez passos (atos musicais) independentes que versaram sobre o tema e, desse modo, integrou os personagens tradicionais harmoniosamente.

Não à toa sagrou-se campeã. E deu um passo à frente no amadurecimento dos enredos, deixou o seu espetáculo mais sofisticado e atual.

A vitrine dos não indígenas

Não há no formato de espetáculo das cirandas um lugar definido para os povos indígenas. Embora, muitas vezes, sejam colocados nas narrativas de alguns espetáculos, eles não aparecem como referência estética central.

O que não impede que eles sejam incorporados. A ciranda Guerreiros Mura, por definição, sempre se reporta aos seus homenageados.

A ciranda manacapuruense escapa à armadilha do mito das três raças em sua estrutura, tornando-se mais livre e ampla.

Assim como o carnaval é um discurso estético que parte da, sobre e para a negritude brasileira, o boi-bumbá de Parintins se constituiu como uma vitrine e, mais recentemente, plataforma para os povos indígenas.

No mesmo sentido, as cirandas de Manacapuru têm se configurado, cada vez mais, como vitrine das culturas, pautas e lutas dos povos tradicionais amazônicos não indígenas, como os ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e demais categorias sociais pelos quais são representados.

*A autora é doutora em antropologia.

Fotos: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas