Ameaças da política ‘trumpista’ são também à Amazônia

A intervenção dos EUA na Venezuela e a saída do Acordo de Paris geram incertezas sobre a proteção ambiental da Amazônia.

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Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 29/01/2026 às 16:04 | Atualizado em: 29/01/2026 às 16:04

Caso vingue plano de expansionismo territorial do governo Donald Trump, com inclusão da Venezuela, os Estados Unidos terão o controle de 458.345 Km² dos 8,5 milhões de Km² da Amazônia internacional.

O Ministério das Relações Exteriores foi instado a comentar essa possibilidade, mas se limitou a repetir medidas diplomáticas e militares já adotadas para proteger a fronteira brasileira com a Venezuela, parte dela na floresta amazônica.

A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), formada pelos países da Pan-Amazônia não reagiu, até o momento, a uma consulta deste BNC Amazonas a respeito do tema.

A Amazônia venezuelana situa-se ao sul do rio Orinoco e ocupa a totalidade do estado do Amazonas e grande parte do estado de Bolívar.

Uma pequena porção do estado de Delta Amacuro também faz parte da região amazônica do país vizinho.

Desde anunciada a invasão dos EUA à Venezuela, o Brasil mantém 10 mil soldados e equipamentos de guerra em Roraima, com base no município de Pacaraima.

Transição 

O presidente norte-americano anunciou, logo após o sequestro do presidente Nicólas Maduro, em Caracas, no dia 3 de janeiro, que Washington (capital dos Estados Unidos) governará a Venezuela até que se conclua uma transição “adequada e justa” seja estabelecida.

A retórica reitera-se a cada entrevista de Trump sobre “a necessidade” de controle dos países da América do Sul, para não caírem nas mãos de seus inimigos na economia e na ideologia dos Estados Unidos, no caso Rússia e China.

E na prática, os Estados Unidos já sequestraram o presidente Maduro e explodiram barcos com supostos traficantes saídos da Venezuela e da Colômbia, no mar do Caribe e no Pacífico.

Fora do Acordo de Paris

Neste dia 26, Trump retirou-se, oficialmente, do Acordo de Paris, com a justificativa de que a pauta ambiental prejudica o desenvolvimento dos EUA, baseado na queima de combustíveis fósseis, responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa que destroem a camada de ozônio que protege a atmosfera terrestre dos excessos de raios ultravioletas.

Esse é mais um sinal de que a interferência dos Estados Unidos no Governo da Venezuela pode desestruturar as políticas de proteção das florestas tropicais dos países amazônicos, coordenadas pelo Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

A OTCA, criada em 1978, tem como objetivo “promover o desenvolvimento sustentável, proteger a floresta e os recursos hídricos, e garantir o bem-estar dos povos locais diante dos desafios climáticos e do desmatamento”.

Ainda nesta terça-feira, um relatório da Environmental Investigation Agency (EIA) aponta que madeiras usadas na construção de hotéis de luxo dos Estados Unidos e da Europa podem ter saído da floresta paraense com documentos “esquentados” por quadrilhas internacionais.

Ao menos 25 mil metros cúbicos de ipê e cumaru, madeiras de alto valor no mercado internacional, foram compradas por empresas norte-americanas e europeias, nos anos de 2024 e 2025, com indícios de “lavagem” documental, segundo a EIA.

Efeito estufa

Fora do Acordo de Paris, os Estados Unidos estão desobrigados de cumprir metas que visam proteger o meio ambiente, como as do desmatamento florestal, para reduzir os efeitos e os avanços da crise climática global.

 O Acordo de Paris tem como meta não ultrapassar 1,5ºC da temperatura registrada no período pré-industrial.

Analistas em desenvolvimento sustentável acreditam que os acordos multilaterais fortalecem as políticas de sustentabilidade do planeta e condenam o desenvolvimento a qualquer custo. Rússia e Irã também não estão no Acordo de Paris. 

Fronteiras

 A fronteira amazônica do Brasil com a Venezuela se estende por 2,2 mil quilômetros, desde o Amazonas até Roraima.

Os dois lados, ricos em biodiversidade e minerais, principalmente ouro e cassiterita, são alvos permanente de desmatamento e garimpagem ilegal.

Os povos originários que têm essa região como território comum, entre os quais os ianomâmis, têm seus territórios invadidos por garimpeiros com bases logísticas na selva contígua aos dois países.

Isso tem dificultado, inclusive, o combate da polícia brasileira a quadrilhas do crime organizado com atuação nos dois países.

 Quando são reprimidos na selva brasileira, os bandidos se transferem para a selva venezuelana, onde possuem base logística com aeroportos clandestinos.

Preocupação

Diante desse quadro, a preocupação de organismos multilaterais envolvidos com o desenvolvimento com sustentabilidade ambiental, é se os Estados Unidos se fixarão na usurpação do petróleo venezuelano ou se expandirão seus negócios a outras riquezas?

O certo é que, com Trump, tudo é imprevisível, menos a sua arrogância e a disposição para permanecer na história como o presidente que estendeu territorialmente os Estados Unidos, ainda que pelo medo causado pela força das armas de destruição em massa e do dinheiro.

E isso acontece em pleno século 21.

Rolê na história

Fundado em 4 de junho de 1776, os Estados Unidos não tiveram presença na colonização da região hoje denominada de Amazônia.

Suriname, capital Paramaribo, por exemplo, foi colonizado, inicialmente, por ingleses e trocado com os holandeses por Nova York, em 1997.

Tornou-se independente em 25 de novembro de 1975.

A Guiana, ex-colônia inglesa, conquistou a sua independência em 1966.

O país, cuja capital é Georgetown, é o único da América do Sul a adotar o inglês como língua oficial.

A Guiana Francesa, capital CaIena, por sua vez, é o único território ultramarino da França do período pós-colonial.

A área abriga o Centro Espacial de Kourou, base de lançamento de foguetes.

Foto: reprodução/YouTube CNN