Amazônia volta a ser destino de candidaturas importadas nas eleições

As eleições de 2026 consolidam a migração de lideranças políticas nacionais para estados estratégicos na Amazônia e em outras regiões.

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 17/06/2026 às 16:50 | Atualizado em: 17/06/2026 às 16:50

A decisão do bolsonarismo de lançar o deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ) ao Senado por Roraima reacendeu um velho debate da política brasileira: até que ponto um político pode representar um estado onde nunca construiu sua trajetória eleitoral?

A mudança de domicílio eleitoral do parlamentar fluminense para Boa Vista provocou reação imediata de lideranças do próprio PL em Roraima, que reclamaram de não terem sido consultadas sobre a operação articulada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo senador Flávio Bolsonaro. O objetivo é claro: ampliar a bancada bolsonarista no Senado em 2026.

Mas o caso está longe de ser isolado. As eleições de 2026 estão consolidando uma tendência nacional de transferência de domicílio eleitoral para estados considerados estratégicos pelas principais forças políticas do país.

A movimentação ocorre tanto na direita quanto na esquerda e envolve nomes de projeção nacional.

Entre os exemplos mais conhecidos está o de Carlos Bolsonaro (PL), que deixou a Câmara Municipal do Rio de Janeiro após mais de duas décadas de mandato e transferiu seu título para Santa Catarina, onde disputará uma vaga ao Senado.

A mudança atende à estratégia do clã Bolsonaro de concentrar candidaturas ao Senado em estados considerados favoráveis ao conservadorismo.

No campo governista, a ministra Simone Tebet (PSB) também transferiu seu domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul para São Paulo, tornando-se uma das principais apostas do presidente Lula para a disputa ao Senado pelo maior colégio eleitoral do país.

A própria Marina Silva (PV) já havia feito movimento semelhante em 2022. Após construir toda a sua carreira política no Acre, a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, do terceiro governo Lula, elegeu-se deputada federal por São Paulo, consolidando uma mudança de eixo político territorial, que pode culminar agora em sua candidatura ao Senado paulista.

Norte no centro da discussão

Na região Norte, porém, o fenômeno ganha contornos particulares. A chegada de Hélio Lopes a Roraima recolocou em pauta um histórico de candidaturas importadas para estados amazônicos.

O argumento dos críticos é que a representação política deveria nascer da convivência com os problemas locais e não apenas da viabilidade eleitoral.

Roraima se tornou um dos casos emblemáticos de 2026 porque o estado possui apenas três cadeiras no Senado e oito vagas na Câmara Federal, o que aumenta o peso político de cada eleição.

A resistência demonstrada pelo próprio PL local mostra que a transferência de lideranças nacionais para a Amazônia nem sempre é recebida de forma pacífica.

No Amazonas, chegou-se a cogitar a pré-candidatura do ex-deputado federal Cabo Daciolo, do Rio de Janeiro, ao Senado. No entanto, ele não se alistou na Justiça Eleitoral como novo eleitor amazonense no prazo de 6 de maio de 2026.

Agora, Daciolo diz que será candidato à Presidência da República pelo Mobiliza, antigo Partido da Mobilização Nacional (PMN).

Casos históricos

Desse modo, a migração eleitoral remete a episódios históricos de políticos que construíram carreira fora do estado e posteriormente buscaram representação na região. O caso mais conhecido continua sendo o do ex-presidente da República, José Sarney.

Nascido no Maranhão, Sarney construiu sua trajetória política maranhense, mas transferiu seu domicílio para o então recém-criado estado Amapá em 1990.

Naquele ano, Sarney se elegeu senador pelo estado do Amapá e permanecendo por décadas como uma das principais lideranças da bancada amapaense no Congresso.

O episódio é frequentemente citado por cientistas políticos como um dos exemplos mais bem-sucedidos de migração eleitoral da história recente do país.

Por falar no Amapá, nas eleições de 2022, a senadora Damares Alves, quase se candidatou pelo estado do presidente do Congresso e do Senado, Davi Alcolumbre. No entanto, ela se elegeu pelo Distrito Federal.

Importados no Amazonas

Embora tenham longa vivência e trajetória política no Amazonas, atuais membros da bancada federal no Congresso não são naturais do estado.

Na Câmara dos Deputados temos: Amom Mandel (Recife/PE), Alberto Neto (Fortaleza/CE), Silas Câmara (Rio Branco-Acre) e o seu suplemente atualmente no mandato, João Carlos Mello (Rio de Janeiro/RJ). No Senado, Eduardo Braga (Santarém-PA) e Omar Aziz (Garça-SP).

Além de inúmeros vereadores da Câmara Municipal de Manaus e da Assembleia Legislativa, como os deputados estatuais: Sinésio Campos (Santarém/PA), Abdala Fraxe (Boa Vista/RR), João Luiz (Rio de Janeiro/RJ), Dan Câmara (Rio Branco/AC), Débora Menezes (Taubaté-SP), Mário César Filho (Parnamirim/RN) e Rozenha (Porto Velho-RO).

Em caso recente, o ex-governador do Amazonas (2019-2026), Wilson Lima, natural de Santarém, do estado do Pará.

Estratégia nacional

Especialistas observam que a legislação eleitoral brasileira permite essas mudanças desde que sejam cumpridos os requisitos de domicílio eleitoral estabelecidos pela Justiça Eleitoral.

Na prática, partidos passaram a utilizar a transferência de domicílio como instrumento para ocupar espaços considerados estratégicos, sobretudo no Senado. A disputa de 2026 é vista como decisiva porque renovará dois terços da Casa, abrindo 54 vagas simultaneamente em todo o país.

Para críticos do modelo, esse movimento enfraquece a representação regional. Para seus defensores, a política contemporânea já ultrapassou as fronteiras estaduais e permite que lideranças nacionais representem qualquer unidade da Federação.

Foto-montagem/BNC Amazonas