Amazônia: setor de transportes critica recuo das concessões de hidrovias
Lula suspende concessões hidroviárias sob pressão indígena, gerando críticas de especialistas sobre prejuízos à navegação e economia regional.
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 24/02/2026 às 20:12 | Atualizado em: 24/02/2026 às 20:12
A decisão do presidente Lula da Silva de barrar a dragagem e a privatização dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins gerou repercussão e críticas por parte de especialistas e figuras políticas do estado do Amazonas.
A medida, que atendeu a pautas indígenas, foi vista por alguns como um retrocesso para o desenvolvimento das hidrovias na região.
Desse modo, na avaliação do setor de transportes, a sinaliza que, em ano eleitoral, a gestão petista tende a colocar a pauta das hidrovias em segundo plano.
Ainda na opinião dos especialistas, ouvidos pela Agência iNFRA (https://agenciainfra.com/blog/category/infratransporte/), a situação cria um ambiente de insegurança para essa frente de concessões, que lida com uma série de resistências, não somente ambientais, para sair do papel.
Leia mais
No Amazonas, um desses críticos é o vice-presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani), Dodó Carvalho. Em suas análises, critica a derrubada do decreto que permitia a concessão das hidrovias.
Ele argumenta que a questão da dragagem é mais ampla do que se pensa, e que o decreto apenas permitia a concessão das hidrovias, algo que já é feito há mais de 15 anos nos rios Madeira e Tapajós.
“A interpretação do decreto foi equivocada. A sociedade é a maior beneficiária da dragagem, pois ela proporciona um ordenamento melhor do rio, navegação e transporte mais seguros, e um maior volume de carga por embarcação, o que impacta positivamente o custo da carga local e do agronegócio exportado pelo Brasil”, declarou.
Papel ambiental da navegação
O vice-presidente da Abani, também enfatiza o papel ambiental da navegação, sendo o modal mais ecologicamente correto devido ao transporte de grandes volumes de carga com baixa queima de combustível.
“A natureza dotou a Amazônia de rios maravilhosos para esse transporte, mas é preciso intervenção de engenharia, como sinalização e dragagem pontual, onde há necessidade, e não uma dragagem indiscriminada. Ela deve ser contínua e permanente, essencial para a navegação, especialmente em secas extremas, como ocorreu em 2024”, lembra Dodó Carvalho.
Mas, para isso, segundo ele, é necessária uma flexibilização da lei ambiental, pois a janela hidrológica na Amazônia é muito rápida e a burocracia das licenças ambientais inviabiliza a agilidade necessária.
Politização do problema
Por sua vez, o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), o economista Serafim Corrêa, classificou a decisão como uma “politização da questão”.
Ele argumenta que realizar a concessão do rio não significa privatizá-lo, mas sim contratar serviços especializados para mantê-lo trafegável o ano inteiro, algo comum em diversas partes do mundo e no Brasil em relação às rodovias.
Recuo é decisão correta
Serafim Corrêa entende que a decisão de recuar foi política e que o erro inicial foi não discutir o assunto de forma mais ampla, o que gerou desinformação. Para ele, o governo agiu certo em recuar para fazer o dever de casa no esclarecimento do que seria feito antes de seguir em frente.
Leia mais
“A decisão do governo, do ponto de vista político, está correta em recuar. Porque antes foi cometido um erro, que foi o de não discutir mais amplamente o assunto. Então, a parte política, como não foi feita anteriormente, tem que ser feita agora. E, por essa razão, eu entendo que o governo agiu certo em recuar, em fazer o dever de casa para esclarecer o que vai ser feito e depois seguir em frente”, disse o secretário da Sedecti.
Foto: Divulgação
