Gabigol, liberdade e o adeus

Você entrou em casa para dar sorte; juntos, conquistamos a Libertadores de 2019. Adeus, amigo!

Neuton Corrêa e Gabigol

Neuton Corrêa, Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 27/04/2026 às 16:47 | Atualizado em: 27/04/2026 às 16:47

Sempre que eu lembrar de você, meu amigo, pensarei em liberdade. Para você, a vida só tinha sentido se fosse vivida em liberdade. Liberdade plena, de escolhas plenas.

Eu, por exemplo, não queria ser seu amigo, mas você me escolheu para ser seu companheiro nos momentos em que o silêncio fala alto.

Insistentemente, você bateu à minha porta por uns três dias. Eu entrava e saía por aquele portãozinho da cozinha de casa para não vê-lo. No entanto, ali você montou guarda e pôs pressão sobre mim até que meu coração amolecesse. E amoleceu. Afinal, você me escolheu.

A água que lhe servi parecia a primeira que você estava bebendo após atravessar um deserto. A refeição parecia lhe saciar a fome, mas o enchia de prazer por ter aberto uma brechinha para uma convivência de seis anos e meio.

Depois da água e da comida, você entendeu que havia sido convidado a entrar, ainda que não tivesse. Botei você para fora várias vezes.

Porém, sua estratégia de entrar em casa no primeiro jogo das semifinais da Copa Libertadores, no dia 2 de outubro de 2019 (Grêmio 1-1 Flamengo), deu certo.

A gente estava empolgado com a campanha rubro-negra. O Gabigol, Gabriel Barbosa, era o artilheiro da temporada. E, assim que você entrou ali, com a casa lotada para a corrente flamenguista, virou o mascote da noite e já foi batizado também de Gabriel.

Era o nosso amuleto. Jogo do Flamengo tinha que ter Gabigol por perto. E era folgado e expansivo. Ele não abria mão de seu lugar cativo: a minha poltrona, que viraria sua cama até sua despedida.

O Gabigol sentia necessidade de ser percebido por mim. Quando eu esquecia de lhe dar atenção, ele subia à minha mesa e andava sobre o teclado do meu computador. Anos e anos, ele dormia atrás de mim, mesmo estando eu sentando ali.

Suas manias ficarão: comida só fresquinha; nada de sobra de um dia para o outro; água também tinha que ser fresca e, se possível, gelada. Aliás, demorei muito a entender que ele curtia água gelada. Um dia parei para ver por que ele não bebia a água que eu lhe servia. Ele acabava de comer e ia para um balde que eu coloco para aparar a água de um ar-condicionado de casa. 

Um dia fui tentar entender a razão dessa mania. A temperatura: a água que desce do ar é bem geladinha. Então, passei a lhe dar também água gelada.

Gabigol, meu amigo, devo lhe confidenciar uma coisa: desde que você chegou em casa, todos os veterinários me recomendavam interná-lo para que não fosse para a rua aumentar suas famílias.

“Se ele não for castrado, vai continuar chegando assim, todo ferido”. Mas eu sabia que você gostava disso. Afinal, meu amigo, você nasceu para ser livre. Essa foi uma escolha sua, que eu respeitei até vê-lo hoje sofrendo.

Quando o portãozinho se abriu na manhã desta segunda-feira, dia 27 de abril, você não desejou ver o Sol nascer. Permaneceu como estava, rogando o direito de partir para curtir a liberdade plena, mas eterna.

Amigo querido, sentirei muito sua falta. 

A voz que rompia o silêncio do dia, todas as madrugadas, não falará mais, a não ser pela saudade que você deixa.

Agora, meu amigo, descanse em paz. Valeu pela companhia.

Nota: Gabigol morreu na tarde desta segunda-feira, dia 27/04/2026, após travar uma intensa luta contra um câncer agressivo diagnosticado há um mês.