Progresso que nos aflige

Texto critica o avanço material sem consciência ambiental e lamenta a perda da relação harmoniosa entre homem e natureza

Barreira ecológica em igarapé de Manaus apara de PET a cadáver humano

Por Flávio Lauria*

Publicado em: 14/05/2026 às 15:35 | Atualizado em: 14/05/2026 às 15:35

Que as necessidades da vida não são tantas? Que os prazeres mais simples são os melhores? E não eram, antigamente, sem rádio, sem tevês, sem nada? Quando as crianças, ainda sem as guloseimas industriais e brinquedos eletrônicos, brincavam de roda e comiam de tudo, não pareciam, como se diz, mais felizes? Que todo esse progresso material acelerado, sem o paralelo do espiritualismo, nos aflige e oprime? Enfim, que o homem não é e nunca será um demiurgo superior à Natureza?

Senão, aqui mesmo, o Mindu, antes navegável, em toda a sua limpidez, é agora um pobre ribeirão minguado e fétido.

Muito embora se incluam nesse mundo (que) se fez sensível às nossas necessidades, ou pelo que forjamos de planos fantasiosos e de um reino tecnológico que dependerá de nossas ordens, e construídas ainda no império, foram abandonadas, sem investimentos e outros zelos, e substituídas por onerosas carrocerias de caminhões…

Erros e mais erros!

Sim, meu leitor, nada disso tem origem na fúria divina… O caos em torno de nós é um chamamento à ética, ao bom senso, à redescoberta de nós mesmos. Pois o mundo fala. Nele, as catástrofes bradam discursos eloquentes, apenas inaudíveis aos ouvidos moucos.

Não, meu caro leitor, não considere as tolices que acabo de jogar no papel. O escriba é tão-só um aldeão desarvorado e sem caminho, ao rebrilho da metrópole. Há muito, perdera a noção de posse e hoje, mais que nunca, cultiva o espírito de pobre.

Ele se imagina ainda no mundo ingênuo e evoca a Mãe Terra, a que era antes de tudo; a mais antiga das divindades.

E o pior: insiste em vê-la de novo coroada de flores, tendo em roda o esplendor da natureza e sentada no altar da paz…

*O autor é mestre e doutor em administração pública.

Foto: divulgação