Fala o rôto do esfarrapado
Flávio Lauria analisa a crise moral na política brasileira, criticando a impunidade, o uso político das instituições e a normalização de práticas corruptas.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 19/06/2026 às 16:10 | Atualizado em: 19/06/2026 às 16:10
Fala o rôto do esfarrapado e o sujo do mal lavado era o que se dizia quando uma pessoa implicada em uma irregularidade se achava com o direito de denunciar os demais envolvidos na “maracutaia”.
Não há exemplo mais claro e objetivo do que o que se apresenta no Congresso Nacional e no Poder Executivo nos dias atuais. O senador Flavio Bolsonaro, comprovadamente pedindo dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, e que até agora não apresentou nenhum contrato para o financiamento de um filme, de dedo em riste, com os dois braços abertos, acusa o senador Jacques Wagner de ter recebido vantagens do banqueiro.
Claro que o senador baiano tem que responder por esse ato, mas parece que o seu telhado não é de vidro, desde as rachadinhas, e compra de imóveis, e lavagem de dinheiro de sua loja de chocolate. Mas seria a hora do senador candidato a Presidência dizer: eu pratiquei a desonestidade e quem de vossas excelências não praticou?”, porque desde Ciro Nogueira até os Presidentes da Câmara e do Senado, estão envolvidos com o banqueiro.
Hipocrisia e acusações cruzadas na política
Quando o filho de Bolsonaro, acusa o senador baiano, poderia até se dizer que um odor acre emanou das consciências apodrecidas daqueles parlamentares em meio a atitudes censuráveis, mas não se ouviu protesto, por menor e mais tímido que fosse, contra o denunciante ou suas palavras. Quem cala consente.
A taciturnidade do momento já implicava a confirmação do asco que se estendeu por todo este imenso País, em todas as suas instâncias de poder. O que se constata agora, é que a quase totalidade dos acusadores e julgadores das patifarias apontam as irregularidades com os dedos sujos e as consciências corroídas por atitudes censuráveis.
O mar de lama se espraiou pelo Brasil afora. Parece que a elite quer se locupletar da falta de penitenciárias, como já fazem os traficantes e sequestradores. Já que não se tem onde prender, manda-se que cada um forneça uma cesta básica a uma instituição de caridade e, tudo bem, liberdade e direito a voltar ao poder.
Não é possível continuar desse jeito. É necessário que se acabe de imediato esta imunidade absurda que protege parlamentares corruptos, assassinos e delinquentes. É necessário que se promova uma fiscalização mais eficiente nas ações do Poder Judiciário. E também que se faça uma reforma política que dificulte as reeleições ou, ao menos, impeça o uso da máquina do governo em benefício próprio.
Reforma política e o fim dos privilégios
E ainda, que não permita a nomeação de pessoas estranhas aos quadros das instituições públicas com a desculpa de que são cargos de confiança. Não conheço instituição que não tenha em seu quadro pessoas honestas e capazes de ocupar com eficiência qualquer função em sua área. Há ainda a necessidade de que se faça um orçamento real e objetivo em todas as esferas do poder, para se cumprir, sem que se precise cortejar.
Deputados e senadores vivem de “chorar aos pés” do Poder Executivo para que sejam liberadas as verbas que, por direito, já estão com o seu destino determinado, de modo a evitar que sejam criadas dificuldades apenas para se vender facilidade ou barganhar algum prestígio.
É de matar de vergonha saber-se que o presidente da República, mesmo tendo conhecimento da repulsa que causou à toda sociedade os procedimentos vergonhosos como os mensalões, mensalinhos, cuecões e etc., oferecer financiamentos equivalentes a seiscentos milhões de reais e até cargo de ministro para subverter os votos dos deputados pobres de caráter.
É o fim. Deus salve o Brasil.
O autor é doutor em Administração Pública.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
