Beto Nicolau e o mecenato amazonense

O sociólogo Aldenor Ferreira analisa o papel de Beto Nicolau no apoio ao Festival de Parintins e destaca a importância do mecenato para a cultura popular.

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Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 21/06/2026 às 07:00 | Atualizado em: 20/06/2026 às 20:59

A palavra “mecenato” nasce na Roma Antiga. O termo remete a Caio Mecenas, conselheiro do imperador Augusto e célebre por apoiar financeiramente artistas e poetas como Virgílio e Horácio.

Séculos depois, no Renascimento, famílias como os Medici transformaram essa prática em um dos pilares da grande produção artística europeia.

Em comum, havia uma compreensão simples, mas poderosa: a cultura precisa de quem a sustente.

O vazio brasileiro e amazônico

No Brasil, porém, essa tradição nunca se consolidou de forma ampla. Embora o país tenha produzido algumas experiências importantes de patrocínio cultural, a regra geral sempre foi outra: o investimento privado tende a se orientar mais pelo retorno econômico imediato do que pelo fortalecimento duradouro da vida cultural.

Na Amazônia, esse quadro se torna ainda mais evidente. Apesar da riqueza simbólica, estética e popular da região, raramente a cultura encontrou no empresariado local um apoio contínuo e estruturado.

Nesse contexto, algumas iniciativas passam a merecer atenção, sobretudo quando ultrapassam a lógica estrita do mercado e assumem um compromisso mais duradouro com a cultura. Entre elas, destaca-se a atuação de Beto Nicolau, presidente do Grupo Samel.

Quando o apoio se transforma em legado

Ao direcionar o apoio da Samel aos bois de Parintins, Beto Nicolau reafirma uma postura que destoa da média do empresariado local e revela uma relação mais duradoura com a cultura popular.

O gesto ganha relevância porque a Samel atua no setor de saúde privada e se consolidou como uma das maiores redes hospitalares do estado do Amazonas, distante, portanto, do universo do entretenimento ou da economia criativa.

Mas essa relação com o boi-bumbá não começou com o patrocínio institucional da empresa. Antes disso, ela já se manifestava no plano pessoal.

Em 2020, quando a Cidade Garantido foi levada a leilão por causa de dívidas trabalhistas, Beto Nicolau tomou a iniciativa de entrar no processo, arrematar o espaço e devolver o patrimônio ao próprio boi, sem exigir qualquer compensação financeira.

Tratou-se de uma iniciativa pessoal de Beto Nicolau, anterior ao apoio hoje realizado pela Samel, mas decisiva para preservar um pedaço importante da memória cultural de Parintins.

Mecanismos de sustentabilidade cultural

A atuação de Beto Nicolau se estende para além do período do festival, por meio do fomento contínuo a ensaios, encontros e à valorização de músicos, levantadores de toadas e artesãos na capital, movimentando a economia criativa ao longo de todo o ano.

É justamente aí que esse modelo se aproxima da tradição clássica do mecenato: não apenas financiar um evento específico, mas sustentar uma rede cultural inteira, garantindo permanência, circulação e reconhecimento. E esse talvez seja o ponto mais importante.

O exemplo dessa postura deveria servir de referência para outros grandes empresários de Manaus. Afinal, uma sociedade madura não depende apenas do Estado para preservar sua cultura. Ela também exige que sua elite econômica compreenda o valor estratégico e simbólico daquilo que produz identidade coletiva.

Se mais empresas amazonenses adotassem essa postura, o impacto seria profundo. A cultura ganharia estabilidade, os artistas teriam maior valorização e o próprio setor privado fortaleceria seus vínculos com a sociedade.

Considerações finais

Não conheço pessoalmente o Beto Nicolau, tampouco falo em seu nome ou represento interesses corporativos. Mas, diante de gestos concretos em favor da cultura da minha terra, analisar criticamente esse papel é, antes de tudo, um exercício de honestidade intelectual.

Num tempo em que o apoio efetivo à cultura se torna cada vez mais raro, quem assume esse compromisso ajuda não apenas a manter viva uma tradição, mas também a fortalecer a identidade coletiva de um povo.

Por isso, destacar esse caso concreto não significa partidarizar uma trajetória individual. Significa, acima de tudo, usar um exemplo prático para reafirmar uma convicção: a de que o mecenato ainda pode cumprir um papel decisivo no futuro cultural do Amazonas.

O autor é sociólogo*.

Foto: Divulgação.