Entre o boi de Parintins e o Master: Alcolumbre é cercado de cobranças
Em busca de apoio de Omar Aziz, presidente do Senado até alugou casa para acompanhar o festival de Garantido e Caprichoso.
Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 22/06/2026 às 11:11 | Atualizado em: 22/06/2026 às 11:13
A informação de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já alugou uma casa para acompanhar a 59ª edição do Festival Folclórico de Parintins, marcada para os dias 26, 27 e 28 de junho, reacendeu lembranças de um capítulo recente dos bastidores políticos da ilha.
A movimentação foi revelada neste dia 22 pelo programa “Manhã de Notícias”, apresentado pelo jornalista Ronaldo Tiradentes, que recordou a passagem de Alcolumbre por Parintins em 2024, quando o senador ainda articulava sua volta ao comando do Senado.
Naquele ano, o parlamentar circulou pelos camarotes e corredores do bumbódromo ao lado do senador Omar Aziz (PSD-AM).
Em diferentes momentos, Aziz chegou a apresentá-lo como “presidente do Senado”, mesmo antes da eleição que ocorreria meses depois. A cena foi interpretada nos bastidores como uma demonstração pública de apoio à candidatura do amapaense.
A aposta se confirmou. Em fevereiro de 2025, Alcolumbre foi eleito presidente do Senado em primeiro turno, com 73 votos, para um mandato até fevereiro de 2027. Foi a segunda vez que assumiu o comando da casa, cargo que já havia ocupado entre 2019 e 2021.
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Alianças que atravessam a Amazônia
A relação política entre Alcolumbre e Aziz vem de anos.
Em 2019, o amazonense esteve entre os principais articuladores da candidatura que levou o senador do Amapá pela primeira vez à presidência do Senado. Na ocasião, Alcolumbre derrotou nomes tradicionais da política nacional, consolidando-se como uma das principais lideranças do Congresso.
Aziz, por sua vez, ampliou sua influência nacional ao longo dos últimos anos. Em 2024, apareceu pela quinta vez na lista dos “Cabeças do Congresso”, levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que reúne os parlamentares mais influentes do país.
Em 2021, ganhou projeção nacional ao presidir a CPI da covid, tornando-se um dos principais críticos da condução do governo Bolsonaro durante a pandemia.
Agora, porém, o tabuleiro político envolve também outro personagem de peso do Amazonas: o senador Eduardo Braga (MDB). Candidato à reeleição, Braga integra o campo político aliado ao presidente Lula da Silva e mantém interlocução estratégica tanto com Aziz quanto com Alcolumbre.
Nos bastidores, a visita do presidente do Senado a Parintins é vista também como oportunidade para estreitar relações com lideranças que estarão no centro da disputa eleitoral do próximo ano.
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A sombra do caso Master
Se em 2024 Alcolumbre desembarcou em Parintins em busca de apoio para retornar ao topo do Senado, agora o contexto político é bem diferente.
O senador volta à ilha como uma das figuras mais poderosas da República, mas também cercado pelas repercussões do caso Master, investigação que alcançou setores do mercado financeiro, fundos de previdência e agentes políticos.
Nos últimos meses, parlamentares de diferentes correntes passaram a defender a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para aprofundar as apurações.
A iniciativa reúne apoiadores tanto entre oposicionistas quanto em setores alinhados ao governo federal, mas enfrenta dificuldades para avançar no Congresso.
Críticos apontam que a resistência à instalação da CPI ocorre justamente em um momento em que crescem os questionamentos sobre a destinação de recursos públicos e privados relacionados ao grupo financeiro controlado por Daniel Vorcaro.
Reportagens da imprensa nacional também trouxeram à tona relatos atribuídos ao banqueiro sobre supostos repasses milionários destinados a lideranças políticas com influência institucional, entre os quais o próprio Alcolumbre.
As informações integram o ambiente de investigações e controvérsias em torno do caso. Os envolvidos negam irregularidades.
O elo com o Amapá
As pressões políticas sobre Alcolumbre ganharam intensidade especialmente por causa de sua influência no Amapá.
O presidente do Senado é apontado por adversários como padrinho político de integrantes de estruturas estratégicas da administração estadual, entre elas a Amprev, responsável pela previdência dos servidores públicos amapaenses.
A instituição entrou no radar do debate político após a divulgação de operações financeiras que teriam direcionado pelo menos R$ 400 milhões para aplicações ligadas ao grupo econômico de Vorcaro.
Embora não exista acusação formal contra Alcolumbre relacionada a essas operações, opositores e defensores da CPI sustentam que o episódio reforça a necessidade de investigações mais aprofundadas para esclarecer responsabilidades e a movimentação dos recursos.
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Congresso sob pressão
O desgaste ocorre em um momento no qual Alcolumbre também enfrenta críticas pela condução de pautas consideradas prioritárias por amplos setores da sociedade.
Além da CPI do Master, propostas como o fim da escala 6×1 e outros projetos de forte apelo popular encontram dificuldades para avançar no Congresso.
Nas redes sociais, grupos políticos passaram a associar a presidência do Senado à imagem de um parlamento distante das demandas da população, ganhando muita força a hastag “Congresso inimigo do povo”.
Nesse cenário, a visita a Parintins deixa de ser apenas um compromisso social ou cultural.
Mais uma vez, a ilha transforma-se em palco de articulações que extrapolam a rivalidade entre Caprichoso e Garantido.
Se em 2024 o festival serviu de cenário para a construção do retorno de Alcolumbre ao comando do Senado, em 2026 ele recebe um político consolidado no poder, mas que chega acompanhado por cobranças cada vez maiores sobre sua atuação diante de um dos casos mais sensíveis da política e do sistema financeiro brasileiros.
Foto: reprodução/redes sociais
