Presidenciáveis ignoram Amazônia e ZFM em debate sobre futuro do Brasil
Agenda da CNI prioriza bioeconomia e sustentabilidade, mas candidatos pouco avançam sobre desafios amazônicos
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 22/06/2026 às 21:23 | Atualizado em: 22/06/2026 às 21:23
Apesar de a Amazônia e a transição para uma economia verde ocuparem posição de destaque na agenda entregue pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) aos presidenciáveis de 2026, os temas ficaram praticamente à margem das apresentações de Romeu Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD).
Ao mesmo tempo, em um encontro voltado à discussão do futuro da indústria brasileira, nem mesmo a Zona Franca de Manaus (ZFM), um dos maiores polos industriais do país e principal motor econômico da Amazônia ocidental sequer foi citada pelos pré-candidatos.
Isso mesmo. A Amazônia, região-vitrine do mundo e seus desafios acabaram ocupando espaço secundário nas apresentações dos pré-candidatos à Presidência da República durante o evento “Construindo o Brasil 2050”, realizado nesta segunda-feira (22 de junho), em Brasília.
Embora a entidade empresarial tenha entregue aos presidenciáveis uma agenda que coloca a bioeconomia amazônica, a descarbonização da economia e a transição energética entre os principais desafios nacionais das próximas décadas.
Mas, os discursos de Romeu Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) concentraram-se majoritariamente em temas como ajuste fiscal, privatizações, redução da burocracia, segurança pública e reforma do Estado.
O contraste chamou atenção justamente porque a própria CNI apresentou a sustentabilidade como um dos pilares centrais de sua proposta para o próximo governo.
No documento entregue aos candidatos, a indústria defende o fortalecimento da economia verde, o aproveitamento sustentável da biodiversidade amazônica, o estímulo à bioeconomia e a criação de políticas capazes de transformar a riqueza natural da região em inovação, industrialização e geração de renda.
Na prática, porém, o debate sobre a Amazônia ficou restrito a poucas referências e quase nenhuma discussão aprofundada sobre desafios concretos da região, como desmatamento, bioeconomia, infraestrutura sustentável, regularização fundiária, mudanças climáticas, desenvolvimento científico ou fortalecimento da ZFM.
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Zema e os “ecoxiitas”
Entre os três presidenciáveis, foi Zema quem abordou a região de forma mais direta ao defender a expansão da matriz hidrelétrica nacional. O ex-governador mineiro criticou grupos ambientalistas, classificados por ele como “ecoextremistas”, que, segundo sua avaliação, impedem a construção de grandes reservatórios na região Norte.
Para Zema, as hidrelétricas funcionam como “baterias de água” e representam uma alternativa mais limpa que as usinas termelétricas. O pré-candidato também utilizou sua experiência com o licenciamento de projetos de exploração de lítio em Minas Gerais para defender a simplificação dos processos ambientais e acelerar investimentos considerados estratégicos.
Apesar de citar o norte do país, a abordagem do presidenciável esteve voltada principalmente para a ampliação da oferta energética e para a flexibilização do licenciamento ambiental, sem apresentar propostas específicas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia ou para o aproveitamento econômico da biodiversidade regional.
Flexibilização de licenças
Já Flávio Bolsonaro mencionou a Amazônia ao defender maior autonomia para povos indígenas e comunidades quilombolas explorarem economicamente suas terras, inclusive para atividades de mineração e aproveitamento do subsolo.
O senador também criticou a atuação de órgãos ambientais federais, afirmando que é necessário reduzir drasticamente a burocracia do Ibama e do ICMBio para estimular investimentos e atividades produtivas na região.
“Vamos devolver autonomia para os povos indígenas, para os povos quilombolas. Eles resolvem o que fazer na sua terra e no seu subsolo também. Ibama e ICMBio vai ser necessário cortar drasticamente essa burocracia”.
Mais uma vez, porém, o debate ficou concentrado na flexibilização regulatória e no aproveitamento de recursos naturais. Temas centrais da agenda ambiental contemporânea, como conservação florestal, mercado de carbono, bioeconomia, adaptação climática ou agregação de valor aos produtos da floresta, não apareceram com destaque em sua exposição.
Caiado e a segurança pública
Caiado, por sua vez, praticamente não tratou da Amazônia. Sua apresentação concentrou-se em segurança pública, planejamento estratégico e defesa das vocações econômicas regionais. Ao abordar energia, limitou-se a defender o aproveitamento das matrizes limpas já disponíveis no país, sem detalhar propostas voltadas especificamente para a região amazônica.
Ele propôs um governo de quatro anos sem reeleição, visando aprovar todas as reformas necessárias nos primeiros 24 meses de mandato. Ele destacou que a segurança pública é um gargalo para a indústria, citando que 83% das empresas já foram vítimas de crimes, o que ele classifica como parte do Custo Brasil.
“Quem vai governar agora tem que ter honestidade intelectual para dizer que não se governa pensando em reeleição. Não serei candidato à reeleição porque não se farão as mudanças necessárias alguém que pense na sua reeleição”, disse o ex-governador goiano. Para ele, governar um país é algo de uma responsabilidade muito grande, mas para isso tem que ter autoridade moral.
Agenda CNI aos presidenciáveis
• Transformar a política industrial em política de Estado permanente;
• Aumentar produtividade, inovação e digitalização da indústria;
• Ampliar acordos comerciais e integração internacional;
• Reduzir o custo Brasil (energia, logística, crédito e burocracia);
• Melhorar o ambiente regulatório e a segurança jurídica;
• Garantir equilíbrio fiscal e redução estrutural dos juros;
• Investir em educação técnica e qualificação profissional;
• Estimular a transição energética e a descarbonização;
• Desenvolver a bioeconomia da Amazônia;
• Aproveitar a matriz energética limpa brasileira para atrair investimentos e fortalecer a competitividade nacional.
Foto: Gilberto Sousa/CNI
