O corpo como poesia

Lúcio Carril percorre a tradição poética para mostrar como o corpo se transforma em linguagem, liberdade e expressão da alma.

O corpo na poesia e sua dimensão simbólica

Por Lúcio Carril*

Publicado em: 25/06/2026 às 10:19 | Atualizado em: 25/06/2026 às 10:19

A alma não campeia solitária na arte de poemar e o corpo se tornou fonte de inspiração para as mais profundas divagações do espírito poético.

As prisões que submetem o corpo à útil docilidade encontraram na poesia uma forma de fuga e resistência . Vigiar e punir para dominar não inspirou o poeta. Foi na beleza do ser que ele galgou montanhas e passeou entre jardins para expressar os movimentos que encantam.

“Teu corpo claro e perfeito,

Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa… flor de laranjeira…”

Nos presenteou Manuel Bandeira.

Mas o poeta também encontrou no corpo as palavras para sua fina ironia. Quintana ironizou, brincou, filosofou…

“O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…

Nem mudar água pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!”

O corpo está presente na história, nas imolações cruéis da opressão religiosa, nas modelagens das fábricas de montagem, no jugo misógino, mas a poesia foi sua redentora.

Drummond foi profundo e entrelaçou o corpo a alma.

“A metafísica do corpo se entremostra

nas imagens. A alma do corpo

modula em cada fragmento sua música

de esferas e de essências

além da simples carne e simples unhas.

Em cada silêncio do corpo identifica-se

a linha do sentido universal

que à forma breve e transitiva imprime

a solene marca dos deuses

e do sonho.”

Cabelos, mãos, bocas, olhos, movimentos, o andar, a respiração, os mais sensíveis gestos de amor, o poeta observou e fez do corpo uma constelação inspiradora.

Escreveu Fernando Pessoa

“As tuas mãos terminam em segredo.

Os teus olhos são negros e macios

Cristo na cruz os teus seios (?) engulos

E o teu perfil princesa no degredo…”

E foi Arnaldo Antunes que perambulou pela breve anatomia do corpo.

“O corpo existe e pode ser pego.

É suficientemente opaco para que se possa vê-lo.

Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.

O corpo existe porque foi feito.

Por isso tem um buraco no meio.

O corpo existe, dado que exala cheiro.

E em cada extremidade existe um dedo.

O corpo se cortado espirra um líquido vermelho.

O corpo tem alguém como recheio.”

E o corpo feminino deixou de ser objeto e a poesia o descobriu na sua plenitude, sem o desejo que vulgariza, apenas como valor de quem ama e pode ser amada.

Neruda:

“Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,

pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.

O meu corpo de camponês selvagem te escava

e faz com que do fundo salte o filho da terra.”

O poeta libertou o corpo ao lhe dar alma, espírito e vida, sem a docilização amarga que pune e oprime.

O corpo se fez liberdade na poesia.

O autor é sociólogo.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.