Festival de Parintins: é preciso aperfeiçoar o julgamento

Aldenor Ferreira analisa as fragilidades estruturais do julgamento do Festival de Parintins e propõe mudanças para ampliar a imparcialidade e a transparência do processo.

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Publicado em: 29/06/2026 às 20:06 | Atualizado em: 29/06/2026 às 20:06

O Festival de Parintins terminou, mais uma vez, consagrando a força de uma das maiores manifestações culturais do Brasil.

O espetáculo continua grandioso, tecnicamente impressionante e emocionalmente avassalador.

Mas, como ocorre com frequência, o resultado final deixou um rastro de controvérsias, especialmente em relação a notas atribuídas a itens cuja performance, para muitos, parecia incompatível com a pontuação recebida. Isso reacende o debate sobre o julgamento do Festival de Parintins.

O debate sobre as notas

É importante dizer com clareza: questionar notas não significa acusar fraude. Nem significa desrespeitar jurados ou deslegitimar o campeão.

O problema central talvez esteja em outro lugar: na própria estrutura do julgamento.

O Festival de Parintins cresceu. Tornou-se mais sofisticado, mais complexo e mais profissional. No entanto, seu modelo de avaliação e julgamento continuam carregando fragilidades que já não combinam com a dimensão que o espetáculo alcançou.

As falhas do modelo

Atualmente, o julgamento é dividido em três blocos: o Bloco A, que reúne os itens comuns e musicais; o Bloco B, voltado aos aspectos cênico-coreográficos; e o Bloco C, responsável pelos elementos artísticos. Em tese, a divisão faz sentido. Organiza o olhar técnico e distribui competências.

O problema é que o julgamento do Festival de Parintins, no formato atual, expõe fragilidades que afetam a percepção de justiça do resultado.

O problema não está nos blocos. Está no fato de que os mesmos jurados avaliam as três noites.

O peso da subjetividade

Esse detalhe, aparentemente simples, produz um efeito profundo: a perda da condição de ineditismo. E isso importa. O julgamento artístico nunca é neutro.

Noutras palavras, não existe neutralidade axiológica quando se avaliam performances carregadas de emoção, estética, narrativa e impacto simbólico. Todo jurado carrega impressões, expectativas, comparações e referências acumuladas.

Isso é humano. Isso é inevitável. E justamente por ser inevitável, o sistema deveria ser desenhado para reduzir esse efeito.

Nesse âmbito, quando o mesmo jurado acompanha a primeira, a segunda e a terceira noite, ele inevitavelmente estabelece escalas internas de comparação.

A apresentação de hoje não é julgada apenas pelo que foi hoje, mas também pelo que foi ontem. E isso cria um problema de contaminação subjetiva.

Uma alegoria que surpreendeu na primeira noite pode perder força na terceira, não porque seja inferior, mas porque o impacto inicial já produziu um parâmetro mental.

Um levantador, uma sinhazinha ou um amo do boi pode ser avaliado sob o peso de uma expectativa acumulada. A régua muda. E quando a régua muda, a justiça estética fica comprometida.

Uma mudança necessária

Por isso, talvez seja hora de discutir uma mudança simples, mas estrutural: jurados diferentes para cada noite, mantendo a especialização por blocos.

Assim, o Bloco A da primeira noite teria um conjunto próprio de avaliadores. O mesmo ocorreria na segunda e na terceira noites, assim como nos blocos B e C, cada um com jurados diferentes nas três noites.

O ganho seria enorme.

Primeiro, porque cada noite recuperaria seu caráter de estreia diante de quem julga. Tudo voltaria a ser visto pela primeira vez. Segundo, porque isso reduziria significativamente a contaminação subjetiva entre apresentações. E terceiro, porque ampliaria a segurança institucional do processo.

É claro que alguém poderia argumentar que isso elevaria os custos do festival. E elevaria. Mas esse não pode ser o argumento decisivo. O Festival de Parintins não é uma festa qualquer. É um dos maiores espetáculos culturais do Brasil e uma das maiores manifestações folclóricas do mundo.

Sua grandiosidade movimenta milhões, atrai investimentos públicos e privados, impulsiona o turismo e projeta a Amazônia internacionalmente. Diante disso, investir mais na qualidade e na credibilidade do julgamento não deve ser visto como gasto, mas como proteção institucional de um patrimônio cultural gigantesco.

Transparência e isolamento

Mas há outro ponto igualmente importante e pouco discutido: o isolamento dos jurados. Hoje, os jurados permanecem hospedados juntos na mesma residência durante o período do festival.

Isso, por si só, cria um ambiente inadequado para um processo que deveria prezar pela máxima independência entre avaliadores.

Não se trata de afirmar que haja combinação de votos ou qualquer irregularidade. Trata-se de reconhecer que, se o modelo permite espaços de convivência prolongada, também permite zonas de influência recíproca que simplesmente não deveriam existir.

Em um julgamento dessa dimensão, a integridade do processo não depende apenas da honestidade individual, mas também da qualidade das barreiras institucionais que impedem articulações indevidas.

E aqui vale uma pergunta simples: como saber que não há combinação, se o próprio sistema permite proximidade permanente entre os julgadores?

É urgente outro protocolo

Por isso, o mais adequado seria outro protocolo: jurados separados, sem convivência coletiva, chegando à cidade no dia de sua atuação e retornando imediatamente após o encerramento da noite em que participaram.

Isso reduziria contatos, preservaria autonomia de avaliação e reforçaria a credibilidade do resultado.

Num sistema assim, qualquer tentativa de interferência indevida se tornaria muito mais difícil, simplesmente porque envolveria um número muito maior de pessoas, distribuídas em diferentes momentos, blocos e sem convivência direta entre si.

Não se trata de suspeitar de ninguém. Trata-se de aperfeiçoar o sistema justamente para proteger sua credibilidade.

Considerações finais

Parintins já é gigante demais para conviver, ano após ano, com as mesmas dúvidas. Se o espetáculo evoluiu, o julgamento do Festival também precisa evoluir.

Porque, no fim das contas, a grandeza de um festival não depende apenas da beleza que entra na arena, mas da confiança que sai dela.

Tenho dito!

O autor é sociólogo*.

Foto: Janailton Falcão/Secom.