No bumbódromo, mas sem protagonismo!
Aldenor Ferreira e Dassuem Nogueira discutem os limites da presença indígena no Bumbódromo quando ela não se traduz em voz, função estética ou protagonismo.
Por Aldenor Ferreira* e Dassuem Nogueira**
Publicado em: 28/06/2026 às 17:03 | Atualizado em: 28/06/2026 às 17:03
O Festival Folclórico de Parintins se consolidou como uma das maiores expressões culturais do Brasil. Sua força estética impressiona. Sua capacidade narrativa emociona. Nesse contexto, a presença de lideranças indígenas no Bumbódromo passou a ocupar um lugar central na construção simbólica do espetáculo, tornando-se um dos principais marcadores de sua identidade estética.
Os bois de Parintins construíram, ao longo das últimas décadas, uma sofisticada gramática visual e cênica baseada em matrizes indígenas. Grafismos, rituais, mitologias, cosmologias e lideranças passaram a ocupar posição central na narrativa do espetáculo.
Isso produziu algo importante: tornou visível uma dimensão histórica e cultural da Amazônia que, por muito tempo, permaneceu invisibilizada. No entanto, nem toda visibilidade é sinônimo de reconhecimento.
Uma questão incômoda
É justamente aqui que emerge uma questão incômoda, mas necessária: o que acontece quando lideranças indígenas entram na arena sem função narrativa clara, sem contextualização e sem voz própria?
É preciso reconhecer que tanto o Caprichoso quanto o Garantido têm demonstrado, nos últimos anos, uma preocupação crescente em incorporar os povos indígenas como sujeitos e não apenas como referências simbólicas.
Isso é visível nas coletivas de imprensa, na participação em comissões e conselhos de arte e na valorização pública do diálogo com lideranças e representantes dos povos originários. Esse esforço é importante e merece reconhecimento.
Em tempos em que a representação vazia já não encontra mais legitimidade, os bois parecem compreender que não basta falar sobre os povos indígenas; é preciso falar com eles e, sobretudo, ouvi-los. Mas os indígenas no Bumbódromo nem sempre aparecem de forma coerente com esse avanço.
Não foi a primeira vez
No Festival de 2026, isso ficou evidente com a presença de lideranças dos povos Sateré-Mawé e Asurini, no ritual Watamã e no Ritual Maraká, do boi Caprichoso, e de lideranças do povo Kamarayana/ Hexkaryana, na lenda de Kamara, a Onça-Mãe, do boi Garantido.
Em todos os casos, a presença indígena carregava forte valor simbólico, mas sua função estética permaneceu difusa. E essa não é a primeira vez.
Em 2022, o Caprichoso levou à arena o cacique Raoni, uma das maiores lideranças indígenas do mundo. O gesto foi grandioso em termos simbólicos. Mas a cena também expôs um desconforto: em idade avançada, Raoni foi conduzido numa dinâmica cênica que exigia agilidade física incompatível com sua condição.
Em 2023, foi a vez de Davi Kopenawa, liderança histórica do povo Yanomami, entrar no Bumbódromo antes da execução do ritual Motokari. Mais uma vez, a arena o apresentou, celebrou sua presença e o retirou sem que houvesse uma função dramática ou narrativa que o integrasse organicamente ao espetáculo.
Signo visual da exotização
A questão aqui não é a presença. É o enquadramento. O espetáculo opera, por definição, pela lógica da imagem. Tudo precisa comunicar rápido, impactar e emocionar.
Porém, nessa “velocidade estética”, existe um risco permanente: transformar sujeitos históricos em objetos de contemplação.
Ainda que, nos bastidores, exista um esforço legítimo de aproximação e aliança política, na arena essa relação pode escorregar para outra lógica. Quando isso acontece, o indígena deixa de ser sujeito político e se converte em signo visual.
Nesse contexto, mais do que representação, temos exotização.
Instrumentalização simbólica
O problema, portanto, não está na presença de lideranças indígenas no Bumbódromo. Ao contrário: isso pode ser um gesto potente de reconhecimento.
Mas isso depende das condições dessa presença. Se participam como protagonistas de uma narrativa construída em diálogo com seus povos, suas histórias e suas lutas, há ali um gesto político.
Entretanto, se essa presença serve apenas para reforçar a autenticidade do espetáculo, o que temos é outra coisa. Temos instrumentalização simbólica. E isso é particularmente sensível em Parintins.
Afinal, o Festival deve muito de sua singularidade à riqueza cultural dos povos indígenas. Esse talvez seja seu maior diferencial em relação a outras grandes festas populares brasileiras.
Enquanto o carnaval encontra sua matriz principal na cultura afro-brasileira, Parintins construiu sua identidade justamente na incorporação estética das cosmologias indígenas amazônicas. Essa herança é sua força. Mas também sua responsabilidade.
O próximo passo da arena
Por isso, os bois precisam avançar para que essa aproximação não pareça uma busca de legitimação simbólica, como se a presença das lideranças servisse apenas para validar o Festival como porta-voz ou vitrine dos povos indígenas.
Talvez uma solução esteja justamente no protagonismo artístico indígena. Não apenas lideranças, mas atores, cantores, performers, dramaturgos e músicos indígenas poderiam ocupar esse espaço de forma mais orgânica, contribuindo com maior densidade estética e política para o espetáculo.
A imagem do indígena na arena sem função estética precisa ser superada.
Se a cultura indígena é fundamento da beleza do Festival de Parintins, parece justo que os próprios indígenas possam ocupar esse espaço não apenas como imagem, mas como autores, intérpretes e sujeitos plenos de fala.
Esse talvez seja o próximo passo da arena. Menos vitrine. Mais protagonismo.
Sociólogo.*
Antropóloga.**
Arte: Gilmal.
