Desaparecidos podem tornar tragédia na Venezuela das maiores do século

A verdadeira dimensão da tragédia ainda pode estar soterrada sob os escombros. Enquanto o balanço oficial supera 3,3 mil mortos, dezenas de milhares continuam desaparecidas.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 06/07/2026 às 10:40 | Atualizado em: 06/07/2026 às 10:42

Quantas pessoas morreram nos terremotos que devastaram a Venezuela?

A resposta talvez ainda esteja escondida sob milhares de toneladas de concreto.

O balanço oficial contabiliza 3.342 mortos, mais de 16,4 mil feridos e cerca de 17 mil desabrigados. Mas o dado que mais inquieta autoridades, equipes de resgate e organismos internacionais não é o número de vítimas já identificadas, e sim o contingente de pessoas cujo paradeiro permanece desconhecido.

Estimativas divulgadas por organismos internacionais apontam que dezenas de milhares de venezuelanos continuam desaparecidos (número pode ser de mais de 40 mil), enquanto familiares percorrem hospitais, abrigos e centros de identificação em busca de notícias.

Mais do que uma estatística, esse vazio mantém aberta a possibilidade de que o saldo humano da tragédia ainda cresça de forma significativa.

Se uma parcela expressiva dos desaparecidos vier a ser localizada sem vida nas próximas semanas ou meses, a catástrofe poderá assumir proporções ainda maiores, aproximando-se das maiores tragédias naturais do século 21.

O número que ainda assombra

Em grandes terremotos, a contagem de vítimas raramente termina nos primeiros dias.

À medida que máquinas removem toneladas de concreto e aço, equipes de resgate encerram as buscas por sobreviventes e iniciam uma longa etapa de recuperação e identificação de corpos. Esse processo pode durar semanas ou até meses.

Na Venezuela, essa fase apenas começou.

Por isso, especialistas evitam tratar o número oficial de mortos como definitivo. A verdadeira dimensão da tragédia ainda pode permanecer soterrada sob os escombros.

Tragédia encontra um país já fragilizado

O desastre natural atingiu uma Venezuela que atravessava uma das fases mais delicadas de sua história contemporânea.

Depois de anos de crise econômica, êxodo populacional, deterioração da infraestrutura e forte polarização política, o país ainda buscava reorganizar suas instituições após o sequestro e a deposição de Nicolás Maduro, ocorrida durante a intervenção liderada pelos Estados Unidos no início deste ano.

A emergência provocada pelos terremotos encontrou serviços públicos fragilizados, hospitais já sobrecarregados e uma população que ainda convivia com os efeitos sociais de anos de instabilidade.

O resultado foi a sobreposição de duas crises: uma política, que já havia alterado profundamente a vida nacional, e outra humanitária, desencadeada pela força da natureza.

Em diversas regiões atingidas, comunidades inteiras dependem de ajuda internacional para alimentação, atendimento médico, água potável, medicamentos e abrigo.

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Brasil e China agiram rapidamente

A mobilização internacional começou ainda nas primeiras horas após os terremotos.

O Brasil colocou em operação uma ponte aérea humanitária com aeronaves da Força Aérea Brasileira, enviando bombeiros especializados em busca e salvamento, equipes médicas, medicamentos, vacinas, insumos hospitalares e toneladas de ajuda para as áreas mais atingidas.

A China também respondeu rapidamente ao desastre, mobilizando equipes de resgate, equipamentos especializados, hospitais de campanha, materiais de emergência e um pacote inicial de assistência equivalente a cerca de 100 milhões de yuans para socorro e reconstrução.

Somente posteriormente os Estados Unidos ampliaram sua participação, anunciando recursos financeiros e apoio logístico às operações internacionais de resgate.

Independentemente das disputas geopolíticas que cercam a Venezuela, a tragédia acabou produzindo uma rara convergência internacional em torno da assistência humanitária.

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Tragédia pode subir no ranking histórico

Embora ainda distante dos maiores desastres naturais da história recente, a tragédia venezuelana pode ganhar outra dimensão caso parte significativa dos desaparecidos seja confirmada entre as vítimas fatais.

As maiores tragédias naturais do século 21

  • 2004 – Oceano Índico: terremoto e tsunami – cerca de 227.900 mortos.
  • 2010 – Haiti: terremoto – estimativas entre 220 mil e 316 mil mortos.
  • 2008 – Myanmar: ciclone Nargis – aproximadamente 138 mil mortos.
  • 2008 – China: terremoto de Sichuan – cerca de 87 mil mortos.
  • 2023 – Turquia e Síria: terremotos – mais de 59 mil mortos.
  • 2026 – Venezuela: dois terremotos – 3.342 mortos oficialmente, com dezenas de milhares de desaparecidos.

A posição da Venezuela nesse ranking ainda poderá mudar conforme avançarem as operações de busca, recuperação e identificação das vítimas.

Muito além dos números

Toda tragédia produz estatísticas.

Mas algumas produzem também uma dolorosa espera.

Enquanto milhares de famílias continuam procurando pais, mães, filhos, irmãos e amigos, a Venezuela vive uma realidade em que o maior drama talvez ainda não tenha sido totalmente revelado.

Antes de reconstruir cidades, estradas e hospitais, o país precisará encontrar seus desaparecidos.

Porque há tragédias que terminam quando cessam os tremores.

Outras só terminam quando a última família descobre o destino de quem ficou sob os escombros.

Foto: Rolda Alfredo Silva/reprodução/Agência Pública