O ritual de ser escolhido pelo boi no Festival Folclórico de Parintins

Dassuem Nogueira analisa a crença de que, no Festival de Parintins, é o boi-bumbá quem escolhe seus torcedores, transformando essa experiência em um ritual de pertencimento.

Garantido e Caprichoso levantam bandeiras da cultura e política à arena do festival

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 11/07/2026 às 14:14 | Atualizado em: 11/07/2026 às 14:14

Com a ampliação do alcance do Festival Folclórico de Parintins nos últimos anos, há um público completamente novo que chega e se depara com apenas dois bois-bumbás para escolher: Garantido e Caprichoso.

Nesse contexto, criou-se e fortaleceu-se, em torno do Festival, a ideia de que os bois “escolhem” os seus; a essas criaturas de pano atribuiu-se um poder de agência espiritual.

Neutralidade

Não há mais espaço para a neutralidade. Em 2011, tentou-se criar uma arquibancada verde bem no centro do Bumbódromo, que contemplaria os Garanchosos ou Capritidos, aqueles que não conseguiam torcer por um boi, que apenas gostam de festejar com os parintinenses. Mas a área teve que ser repintada.

Diferentemente das escolas de samba, dos times de futebol e de outras manifestações culturais em que há mais de uma entidade para torcer, em Parintins só há dois: ou é o preto ou o branco.

Os parintinenses

Nas famílias parintinenses que vivem em torno de Garantido e Caprichoso não há essa questão. Houve um tempo pré-Festival Folclórico em que brincar de boi era coisa malvista, de vadiagem, dos pobres da ilha.

Mas, especialmente após a institucionalização da brincadeira, mais famílias passaram a se empenhar em colocar o boi na quadra, no tablado e, por fim, na arena. Assim, também nelas as cores foram institucionalizadas.

Como membro de uma família da Baixa da Xanda, afirmo que não há um momento em que se escolhe o Garantido. Nascemos em uma família que já tem um boi, em meio a parentes e vizinhos que fazem parte de uma história antiga que não se escolhe, mas se aprende desde muito cedo.

Dissidentes

Há, claro, as exceções. Em famílias azuladas, como os Paulaim, cresceu Israel Paulaim, o apresentador do boi Garantido.

Carlos Paulaim, seu pai, é compositor de um dos hinos do boi Caprichoso, que já no título entrega sua posição: “Ninguém gosta mais desse boi do que eu”.

Chá revelação

Dado que não há espaço para a neutralidade, os que chegam são pressionados a fazer uma escolha.

A cada ano, com um número crescente de blogueiras e influencers digitais por metro quadrado em Parintins, criou-se nas redes sociais o chá revelação de boi-bumbá.

Ao fim de suas coberturas, influencers e blogueiras revelaram qual boi os escolheu.

O “Bumbódromo Seletor”

Sempre se disse que, para escolher um boi, é imprescindível a experiência de ver o espetáculo ao vivo.

Assim, tal como o Chapéu Seletor, personagem da série Harry Potter que escolhe a qual casa de magia pertencem os calouros da escola de bruxaria de Hogwarts, o Bumbódromo de Parintins é o instrumento revelador da alma do torcedor.

Dizem os escolhidos que sentem algo diferente quando o boi os escolhe: um arrepio, uma emoção, um choro, um transe que toma conta.

Escolhidos

Assim, tem-se institucionalizado mais um ritual da Ilha da Magia: o momento em que o boi te escolhe.

Fábio Porchat, ator e apresentador, escolhido pelo Garantido em 2019, disse em diferentes ocasiões que viu primeiro o boi Caprichoso, achou bonito, se alegrou, se empolgou. Mas, quando o Garantido entrou na arena, ele conta que prestou atenção em tudo e foi capturado.

Eden, estadunidense, esposa de Lucas, amazonense, é produtora de conteúdo escolhida pelo público para ir a Parintins pela TV A Crítica neste ano. Lucas é Garantido. No chá revelação de boi-bumbá, Eden revelou que foi escolhida pelo Caprichoso, pois, quando o boi azul e branco entrava na arena, se emocionava.

Lucas Selfie, influencer enviado pelo gshow para a cobertura digital do festival, visitou os dois bois nos bastidores, entrevistou pessoas, conheceu histórias. Mas, no fim da cobertura, no seu chá revelação, deu vermelho e branco.

Os convertidos

Existem ainda casos de torcedores que se apaixonam por um boi por um longo período, mas se convertem para o outro em algum momento de suas vidas.

Ana Cláudia Chaves, manauara, conheceu o boi-bumbá em Manaus, na campanha de sucesso do Caprichoso com o Bar do Boi, evento promovido pelo Movimento Marujada desde a década de 1990.

Foi tão apaixonada pelo boi azul e branco que o convidou para dançar em seu casamento, em 2011.

Mas, pouco tempo depois, o improvável aconteceu. Ao ir pela primeira vez ao Festival Folclórico de Parintins, em 2014, sentiu o famoso sintoma dos que são escolhidos: “Eu me arrepiei quando tocou aquela toada Luzes Rubras e, quando a Batucada entrou, eu senti um arrepio na hora, o pelo subindo, e eu: ‘não, não, não’, mas não teve jeito”, conta Ana Cláudia.

Porém, ela guardou o sintoma em segredo até 2018: “Demorei quatro anos para ‘sair do armário’, é difícil sair de um boi para o outro aqui.

Quando eu conheci a velha guarda do Garantido [na ocasião de uma pesquisa], eles me receberam muito bem, mesmo sabendo que eu era Caprichoso, e contaram a história do boi com o maior gosto, o que representava para eles, a importância das gerações…

E eu nunca ouvi falar disso no Caprichoso, só via o Caprichoso como festa. E isso me tocou muito! E aí depois, mana, foi só encontrar uma turma”, disse Ana Cláudia.

A autora é antropóloga*.

Foto: Divulgação.