Amazonas segue líder em território sob seca apesar da redução
Estado continua com a maior área afetada do país. Embora o cenário tenha melhorado, a estiagem ainda ameaça comunidades e pressiona a logística da ZFM.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 21/07/2026 às 09:45 | Atualizado em: 21/07/2026 às 10:09
O Amazonas permanece como o estado brasileiro com a maior extensão territorial atingida pela seca, mesmo após registrar redução da área afetada, segundo o Monitor de Secas.
Embora o levantamento indique melhora em relação aos períodos mais críticos, o mapa revela que a estiagem continua impondo desafios ambientais, sociais e econômicos para a maior floresta tropical do planeta.
Além disso, o novo cenário demonstra que a recuperação ainda é parcial.
Por isso, especialistas defendem que governos e setor produtivo mantenham ações de prevenção diante da possibilidade de novos períodos de estiagem intensa.
Seca amazônica é diferente da nordestina
Apesar de receber o mesmo nome, a seca na Amazônia apresenta características distintas da observada no semiárido brasileiro.
Enquanto no Nordeste o problema está ligado principalmente à falta prolongada de chuvas e à escassez de água para abastecimento e produção agrícola, no Amazonas a principal consequência é a vazante dos rios, que funcionam como as grandes rodovias da região.
Como resultado, comunidades ficam isoladas, embarcações reduzem viagens, o transporte de alimentos e medicamentos torna-se mais difícil e diversos serviços públicos enfrentam limitações.
Em outras palavras, a seca amazônica transforma-se também em uma crise logística e social.
Leia mais
Estiagem de 2026 preocupa e reacende temor da taxa seca no Amazonas
Amazonas enfrenta seca histórica
Confira 42 municípios do Amazonas em emergência climática
Secas históricas mudaram o cenário
O levantamento mostra uma melhora gradual, mas não elimina os efeitos acumulados dos últimos anos.
Em 2023, o Amazonas enfrentou a pior seca desde o início das medições, com rios em níveis históricos e milhares de famílias afetadas.
No ano seguinte, uma nova estiagem severa atingiu praticamente toda a bacia amazônica, reforçando a percepção de que eventos extremos passaram a ocorrer com maior frequência.
Agora, mesmo com a redução da área sob seca, o estado continua liderando esse indicador nacional, evidenciando que o clima amazônico permanece sob forte pressão.
Leia mais
El Niño e a Amazônia: dinâmica, ecologia e impactos socioeconômicos
Indústria da ZFM também sente os efeitos
A estiagem não afeta apenas as populações ribeirinhas. Ela também alcança um dos principais motores da economia regional: o polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM).
Durante as grandes vazantes, os navios precisam reduzir o calado para navegar com segurança.
Consequentemente, transportam menos carga por viagem, elevando os custos operacionais.
É justamente nesse contexto que costuma ser aplicada pelos armadores a chamada taxa de pouca água, um adicional incorporado ao frete marítimo durante períodos de estiagem severa.
Na prática, esse custo aumenta o preço dos insumos importados pelas indústrias e também encarece a exportação da produção fabricada em Manaus, reduzindo a competitividade do polo industrial da ZFM.
Além disso, atrasos logísticos comprometem cronogramas de produção e abastecimento, demonstrando como um fenômeno ambiental pode repercutir diretamente na economia.
Leia mais
ACA cobra transparência das armadoras sobre possível volta da taxa de pouca água
Alerta permanece para os próximos meses
Embora o cenário atual seja mais favorável do que nos anos anteriores, a preocupação continua.
Órgãos de monitoramento climático acompanham a evolução das condições do Oceano Pacífico diante da possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño.
Se esse cenário se confirmar, poderá haver redução das chuvas em parte da Amazônia, favorecendo novas vazantes, aumento do risco de queimadas e dificuldades para a navegação.
Por isso, especialistas defendem planejamento antecipado para reduzir impactos sociais, ambientais e econômicos.
Leia mais
Novo El Niño ameaça Amazônia ainda frágil da última seca
Entenda mais
A permanência do Amazonas na liderança nacional em território sob seca mostra que a mudança do clima já produz efeitos concretos sobre a vida da população.
Ao mesmo tempo em que ameaça comunidades ribeirinhas, pressiona a logística da ZFM e desafia o transporte fluvial, a estiagem exige respostas cada vez mais coordenadas do poder público e da iniciativa privada.
Mais do que um indicador ambiental, o novo levantamento revela que compreender a seca amazônica tornou-se essencial para entender os desafios do desenvolvimento sustentável, da economia regional e da qualidade de vida de milhões de brasileiros que dependem diariamente dos rios da Amazônia.
Foto: Ronaldo Siqueira/especial para o BNC AMAZONAS
