22 de julho: a tarifa de Trump e o projeto eleitoral dos Bolsonaro

Ilustração simboliza as tarifas dos EUA contra o Brasil.

Por Plinio Cesar Coêlho*

Publicado em: 22/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 21/07/2026 às 20:25

Nesta quarta-feira, 22 de julho de 2026, entram em vigor as novas sobretaxas de 25% impostas pelo governo de Donald Trump a uma parcela dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.

A data não representa apenas um novo capítulo de uma disputa comercial. Ela chega ao Brasil em pleno processo eleitoral e cercada por uma sucessão de movimentos políticos que envolvem diretamente a família Bolsonaro, integrantes do governo norte-americano e o secretário de Estado Marco Rubio.

O governo Trump apresenta justificativas comerciais para a medida, alegando práticas brasileiras consideradas prejudiciais às empresas norte-americanas. Entretanto, a própria sequência dos acontecimentos permite enxergar uma dimensão política impossível de ignorar.

A tarifa entra em vigor poucos meses antes das eleições presidenciais brasileiras, num ambiente em que o governo dos Estados Unidos acusa Lula, enquanto integrantes da família Bolsonaro mantêm relações privilegiadas com setores da administração Trump.

Marco Rubio não é um observador neutro da política brasileira. Ele possui afinidade política e ideológica com Eduardo Bolsonaro e com o movimento internacional de extrema-direita ao qual a família se vinculou.

Rubio também assumiu publicamente a ofensiva contra o governo brasileiro, atribuindo a Lula a responsabilidade pelo fracasso das negociações. Isso não constitui, isoladamente, uma prova documental de que esteja comandando uma operação para eleger Flávio Bolsonaro. Mas, no contexto atual, seria ingenuidade política tratar sua atuação como completamente separada da disputa presidencial brasileira.

O contexto político das tarifas de Trump

Os fatos tornam essa relação ainda mais grave. Flávio Bolsonaro enviou ao governo dos Estados Unidos uma manifestação formal pedindo que uma decisão sobre as tarifas fosse adiada para depois das eleições brasileiras.

Sua preocupação declarada não estava concentrada apenas nos empregos, nas exportações ou nas empresas atingidas. O argumento apresentado era o de que a aplicação imediata das tarifas poderia oferecer uma vitória política a Lula.

Essa atitude revela muito. Flávio Bolsonaro não questionou apenas a legitimidade de uma potência estrangeira aplicar sanções comerciais contra o Brasil. Tentou negociar o momento mais eleitoralmente conveniente para a punição. Em outras palavras: a tarifa poderia atingir a economia brasileira, desde que não prejudicasse sua candidatura e fosse aplicada depois que os brasileiros votassem.

Não se trata, portanto, de acusação inventada por adversários. Foi o próprio senador quem levou ao governo Trump a preocupação com o efeito eleitoral da medida. Pouco antes, ele havia se reunido em Washington com autoridades norte-americanas.

Posteriormente, voltou aos Estados Unidos alegando que tentaria reverter ou adiar as tarifas. Flávio nega ter provocado a medida, mas a relação entre sua movimentação política e o calendário eleitoral brasileiro está registrada em suas próprias iniciativas.

O papel da família Bolsonaro na crise

Eduardo Bolsonaro foi ainda mais explícito na subordinação dos interesses nacionais aos interesses familiares. Sua atuação nos Estados Unidos esteve associada à busca de pressão contra instituições brasileiras e à defesa de medidas que favorecessem a anistia do pai, Jair Bolsonaro.

Quando um filho do ex-presidente sustenta que a chamada “liberdade” de seu grupo vale mais do que a economia, ele deixa claro qual é a sua ordem de prioridades: primeiro a família, depois o Brasil.

A questão central não é saber se Eduardo e Flávio gostam de Trump ou se Marco Rubio simpatiza com os Bolsonaro. Afinidades políticas internacionais são legítimas. O problema começa quando uma família brasileira procura transformar o poder econômico e diplomático de uma potência estrangeira em instrumento de pressão sobre o próprio país.

Donald Trump não atua para proteger a indústria, o emprego ou a soberania do Brasil. Sua política se chama America First. É o interesse norte-americano colocado acima de qualquer outro. Ao se aproximar desse projeto sem exigir reciprocidade, a família Bolsonaro oferece aos Estados Unidos exatamente o tipo de liderança brasileira que Washington prefere: aquela que confunde alinhamento com submissão.

Entre alinhamento e submissão

Jair Bolsonaro já havia produzido símbolos inequívocos dessa postura. Como presidente da República, bateu continência à bandeira dos Estados Unidos e declarou repetidas vezes sua admiração por Trump. Não foi apenas um gesto protocolar.

Tratava-se da representação visual de uma política externa em que o governante brasileiro parecia mais interessado em demonstrar fidelidade ideológica ao presidente norte-americano do que em sustentar uma relação entre países soberanos.

É esse modelo que seus filhos procuram restaurar. Trump deseja no Palácio do Planalto alguém que não confronte os interesses dos Estados Unidos, que trate as exigências de Washington como ordens e que apresente a dependência política como amizade pessoal.

A família Bolsonaro, por sua vez, espera que a força norte-americana seja utilizada para solucionar seus problemas judiciais e recuperar o poder político no Brasil.

A entrada em vigor das tarifas no dia 22 de julho deixa essa contradição exposta. Enquanto empresas brasileiras calculam prejuízos, trabalhadores temem pelos empregos e o governo procura mercados alternativos, a família Bolsonaro discute se a punição deve ocorrer antes ou depois da eleição.

Soberania nacional em disputa

Não se pede a uma potência estrangeira que escolha a melhor data para castigar o próprio país. Não se negocia o sofrimento econômico nacional conforme sua conveniência eleitoral. Não se oferece a soberania brasileira em troca de anistia, proteção familiar ou apoio a uma candidatura.

A política externa de qualquer governo deve ser orientada pelos interesses permanentes do Brasil. Pode haver diálogo com os Estados Unidos, com a China, com a União Europeia ou com qualquer outra potência. Mas diálogo não é continência. Cooperação não é obediência. Amizade não é submissão.

O dia 22 de julho ficará marcado não apenas pela entrada em vigor de uma sobretaxa norte-americana. Ficará marcado pelo momento em que se tornou ainda mais visível a tentativa de misturar os interesses de Trump, o projeto eleitoral dos Bolsonaro e o destino econômico do Brasil.

A lealdade de quem pretende governar o país precisa estar dirigida à bandeira brasileira. Quem pede ajuda estrangeira para resolver os problemas de sua família ou administrar o calendário de sua candidatura não está colocando o Brasil em primeiro lugar.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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