Lula melhora em Manaus, mas desafio agora é transferir votos
Monitoramentos internos de diferentes campanhas identificam recuperação do presidente na capital amazonense; incógnita da eleição é saber se esse avanço chegará aos candidatos locais da esquerda.
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 22/07/2026 às 05:28 | Atualizado em: 22/07/2026 às 05:28
Os bastidores da disputa pelo Governo do Amazonas começam a revelar um movimento que chama atenção das campanhas. Monitoramentos internos realizados por diferentes grupos políticos, sem relação entre si, passaram a identificar um mesmo fenômeno: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresenta sinais de recuperação de desempenho em Manaus, principal colégio eleitoral do estado.
Não se trata apenas de uma melhora na avaliação do presidente. O que começa a se desenhar é a possibilidade de Lula voltar a disputar com maior competitividade um território que a esquerda perdeu a partir de 2018, quando Jair Bolsonaro rompeu uma longa hegemonia petista na capital amazonense.
Historicamente, Manaus foi decisiva para as vitórias presidenciais do PT entre 2002 e 2014. A mudança ocorreu em 2018. Naquele ano, Bolsonaro venceu Fernando Haddad na capital, inaugurando um novo ciclo político que também impulsionou candidaturas locais identificadas com a direita e com o discurso de renovação. Em 2022, o cenário se repetiu: Bolsonaro voltou a vencer em Manaus, enquanto Lula conquistou o Amazonas graças ao desempenho obtido no interior do estado.
Essa distinção é estratégica. Hoje, Manaus reúne cerca de 52,5% do eleitorado amazonense. Ganhar ou diminuir a diferença na capital pode ser decisivo para definir a eleição estadual.
O que explica esse movimento
Nos bastidores, a leitura é que Lula chega à campanha em situação mais favorável do que há quatro anos na capital.
Além da manutenção de programas sociais como Bolsa Família, Seguro Defeso, Pé-de-Meia e Desenrola, o governo federal passou a investir em pautas diretamente ligadas ao Amazonas. A BR-319 tornou-se uma delas. A rodovia ganhou protagonismo na agenda presidencial durante a visita de Lula a Manaus, no fim de maio, quando permaneceu dois dias na cidade anunciando ações e vistoriando obras.
O governo petista também fortaleceu a indústria da Zona Franca de Manaus (ZFM). Nos últimos anos, o modelo vive sem ameaças de Brasília e no seu melhor momento de emprego e faturamento.
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Comunicação regional
As campanhas também observam uma mudança na estratégia de comunicação do governo federal, que passou a utilizar linguagem, personagens e conteúdos regionalizados para divulgar suas ações no Amazonas.
O contraste com o governo Jair Bolsonaro também faz parte dessa avaliação. Embora tenha consolidado ampla base eleitoral no estado, Bolsonaro encerrou seu mandato sem inaugurar obras estruturantes no Amazonas.
A única obra de Bolsonaro no Estado, a pinguela de São Gabriel da Cachoeira, acabou virando uma referência constrangedora para seu aliados.
O verdadeiro teste
Mas o principal desafio de Lula talvez não seja vencer novamente a eleição presidencial no Amazonas.
A questão central é saber se conseguirá repetir, em sentido inverso, o fenômeno político protagonizado por Bolsonaro em 2018.
Naquele ano, além da vitória sobre Fernando Haddad em Manaus, Bolsonaro impulsionou candidaturas ao Congresso Nacional, à Assembleia Legislativa e favoreceu o ambiente político que levou Wilson Lima ao Governo do Amazonas.
Agora, o desafio será transformar uma eventual recuperação presidencial em votos para governador, Senado e Câmara.
O efeito sobre Omar Aziz
Nesse cenário, o principal beneficiário tende a ser Omar Aziz (PSD), candidato ao Governo do Amazonas apoiado pela Federação Brasil da Esperança.
O próprio BNC Amazonas já mostrou, com base em levantamentos divulgados anteriormente, que o crescimento da aprovação de Lula favorece sua candidatura.
Existe, porém, um detalhe importante.
Manaus nunca foi o terreno eleitoral mais confortável para Omar. Em 2018, quando disputou o governo, teve desempenho modesto na capital e ficou fora do segundo turno. Em 2022, ao disputar o Senado, construiu sua vitória principalmente no interior, enquanto encontrou maior resistência entre os eleitores manauaras.
Se Lula realmente estiver recuperando espaço em Manaus, como apontam os monitoramentos das campanhas, a eleição de 2026 poderá recolocar a esquerda em disputa no maior colégio eleitoral do estado. A dúvida que permanece é se essa recuperação ficará restrita ao presidente ou se alcançará também seus candidatos locais.
Foi justamente esse efeito de transferência de votos que mudou o mapa político amazonense em 2018. A eleição deste ano mostrará se o movimento pode ocorrer na direção oposta.
Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real/divulgação
