Travessia feminista*
Publicado em: 24/10/2009 às 00:00 | Atualizado em: 24/10/2009 às 00:00
Ivânia Vieira**
O movimento das águas traduz, em parte, pensamentos e decisões da maioria das mulheres reunidas em Manaus, no 1° Encontro de Mulheres da Floresta, cujo encerramento ocorrerá no final da tarde de hoje, no ICHL/Ufam. Nos dois primeiros dias de conversação, um dado comum na fala das mulheres do interior amazônico são os efeitos da enchente e da seca na vida delas e das famílias desses lugares.
Em pouco tempo, viram casas e pequenas plantações invadidas pelas águas, destruindo anos de trabalho, a pequena base de sobrevivência construída e sonhos desenhados. As marcas da enchente estão lá, ainda fortes, e a seca já instala outros sinais, impondo mais perdas. No lugar do lago tem a terra rachada, a plantação de quintal sucumbe, os animais estão morrendo e acesso à água exige, hoje, percorrer muitos quilômetros.
A venda de doces, das frutas, de pé-de-moleque, dos bombons, produzidos pelas mulheres (que são um importante suporte na renda familiar), tornou-se mais difícil. Para muitas delas, impossível, com relataram as moradoras da Ilha do Baixio (AM), na tarde da última segunda-feira.
O efeito desses fenômenos somado a inexistência de um plano que inclua de fato as famílias por eles atingidas é devastador. Recai nas costas dessas mulheres um fardo enorme. São elas que juntam a terra partida, a água escassa e as raízes ressecadas para apostar no dia seguinte como um campo capaz de produzir vida.
Nesses dias de Emflor muitas pautas envolvendo mulheres, crianças, água, pesca, sustentabilidade estão postas para os meios de comunicação e aos pesquisadores. Quais são, por exemplo, os impactos da enchente e da seca na agricultura familiar do Amazonas? Em que nível e circunstância se dá a presença governamental? Sobre os grandes e médios projetos/programas os números das perdas são apresentados, o prejuízo é fartamente visibilizado e influenciam nos acordos para reduzir perdas. No caso dos pequenos agricultores a invisibilidade demarca a existência deles.
O encontro de mulheres da floresta será concluído com algumas decisões em defesa de políticas públicas, reposicionando-se para fazer valer o documento final, mas acima de tudo, assegurar voz e vez a essas mulheres protagonistas de uma história ainda não revelada.
*Publicado na quarta-feira, dia 21, no jornal A Crítica.
**Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
Ilustração: Arte-Gusmão-Jornal A Crítica.
