A coroação do herdeiro: a fraude dinástica que desmonta a República
'Ato configura uma ameaça de golpe institucional disfarçado de sucessão'
Por Plínio César Coelho
Publicado em: 06/12/2025 às 10:20 | Atualizado em: 06/12/2025 às 10:23
A estratégia política de Jair Bolsonaro, ao designar seu filho e senador Flávio Bolsonaro para “disputar eleições em seu nome”, transcende a mera disputa eleitoral.
É um ato que configura uma ameaça de golpe institucional disfarçado de sucessão.
Esse movimento não é apenas um retrocesso à lógica dinástica do império, mas sim uma fraude direta à democracia, onde o voto é instrumentalizado para fins de blindagem jurídica e familiar.
Essa manobra ecoa o mais profundo e perigoso dos retrocessos, como se o Brasil tivesse voltado à era de dom Pedro I a dom Pedro II.
O retrocesso histórico: de cidadão a súdito
O cerne da crítica reside na absoluta negação dos princípios republicanos, transformando o pleito em um negócio de família:
✓ Negação da meritocracia: a república exige que o cidadão ascenda por mérito e aprovação popular, não por laços de sangue. Transformar a eleição em uma disputa vicária onde o pai, interditado pela Justiça eleitoral, utiliza o filho como prolongamento de seu mandato é um ataque direto a este princípio.
✓ A substituição da res publica pela res privata: o ato de designar um “herdeiro” político transforma a coisa pública em coisa privada do clã. A política deixa de ser um debate de ideias para se tornar uma gestão de sobrevivência familiar, onde o principal critério de escolha é a lealdade filial, e não a capacidade de servir à nação.
✓ A figura da “marionete”: a crítica de que Flávio seria um “manipulado” ou uma “marionete” é pertinente. Um candidato eleito sob essa égide não defenderia os interesses da população, mas sim a pauta pessoal, jurídica e política do clã. O voto, em vez de legitimar um novo projeto, apenas revalidaria o projeto anterior, mantendo o eleitor refém de uma dinâmica de poder familiar, marcada pela perseguição a jornalistas, parlamentares e o descaso com crises sanitárias, como foi assistido durante o período da covid-19.
O paralelo com a era imperial e o poder moderador oculto
O temor de um retorno à lógica imperial serve como um forte alerta cívico contra a subversão institucional:
✓ Hereditariedade do poder mimetizada: a manobra de designar o filho mimetiza a lógica sucessória imperial, onde o poder é ligado à linhagem. O eleitor é chamado não a escolher um líder, mas a confirmar a linha dinástica do clã.
✓ O poder moderador extraconstitucional: no império, o poder moderador permitia ao imperador intervir nos demais poderes. Na “república da marionete”, o pai (o ex-presidente) assume o papel de um poder moderador informal e extraconstitucional. O filho no cargo representa a garantia de que a “vontade do pai” — com sua retórica de ameaças a instituições e sua visão de mundo antidemocrática — continuaria a ser o veto final sobre as políticas públicas.
O indulto do herdeiro: como a democracia vira cartório da família real
A estratégia política em curso, no entanto, tem um objetivo que é a essência da ironia e do retrocesso: a blindagem jurídica e a reentrada política do pai.
A ironia central: a candidatura de Flávio Bolsonaro não é um projeto de governo para o povo, mas uma procuração eleitoral com uma única e vital cláusula: o indulto paterno. A subversão é tamanha que a própria república é rebaixada a um balcão de serviços do clã, onde o filho é eleito não para legislar ou governar, mas sim para ter a caneta necessária para assinar a anistia do pai, neutralizando suas pendências legais e pavimentando o seu retorno ao cenário político com ares de mártir.
O voto, neste cenário, é um atestado de submissão à lógica imperial e um endosso à ideia de que a lei pode ser contornada por laços de sangue.
O eleitor é chamado a participar da coroação do herdeiro apenas para garantir a imunidade do rei afastado, fazendo o Brasil eleger, indiretamente, o indultado e voltando à era de ameaças e desrespeito às instituições que marcou o período anterior.
Um absurdo inaceitável
A escolha de um parente próximo apenas para garantir a impunidade, a continuidade da agenda pessoal e o retorno à cena pública do líder anterior não é política; é nepotismo político em sua forma mais perversa e destrutiva.
Em uma república madura, a democracia exige alternância real, pluralidade de ideias e candidaturas independentes que prestem contas à nação.
Aceitar essa imposição é um retrocesso histórico que apequena o Brasil ao nível de uma monarquia bananeira disfarçada de república, onde a lealdade ao clã substitui a lealdade à Constituição e ao povo.
O Brasil não precisa de um regente para continuar uma dinastia; precisa de um cidadão para construir uma república justa.
A história não deve ser repetida como farsa familiar.
O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Lula Marques/Agência Brasil
