A hipocrisia de ser um CAC
Entre a legalidade do porte e a realidade da violência, o artigo questiona o paradoxo dos CACs em um país onde armas circulam com facilidade e vidas se perdem com banalidade.
Por Flavio Lauria*
Publicado em: 29/04/2026 às 12:59 | Atualizado em: 29/04/2026 às 12:59
A abreviatura de CAC (caçador, atirador e colecionador) dada pelo Exército Brasileiro, desde que comprove idoneidade, capacidade técnica, laudo psicológico, filiação e clube de tiros, com registro valido por dez anos, não invalida a quem não tem, a portar e utilizar uma arma, e nada acontece se for abordado, é presa a arma, o individuo, paga fiança (as vezes nem fiança paga) e é s
Qualquer cidadão que tenha um aparelho de TV em casa, vê mesmo nos canais abertos, a violência grassando em todos os pontos de Manaus ao Rio Grande do Sul.
Mata-se por muito pouco e morre-se por menos ainda.
Está fácil achar balas e armas e é estúpida a extinção da vida.
Os fabricantes de armas argumentam que as armas sempre existiram e um assassino das cavernas não usava trezoitão mas uma simples pedra.
A diferença é que ele não estava em uma cultura de mídia tão identificada para a afirmação do macho como a de hoje. O que ‘‘não leva desaforo pra casa’’. Sua briga era animal por posse e território sem essa intenção de cena de cinema.
A diferença hoje é que qualquer briguinha entre jovens — cheios de hormônios efervescentes e adrenalina em alta —, que poderia ser ‘‘resolvida’’ pela catarse do tapa ou do braço vira morte pela ampla facilidade com que se encontram armas e munições, isso quando não é assalto mesmo.
Noel Rosa imortalizou em um samba que a malandragem do mais fraco era apertar o gatilho contra o dito mais forte:
‘‘No século do progresso o revólver teve ingresso pra acabar com a valentia’’.
Um tiro é fácil de dar e extremamente irreparável. A arma para o imbecil lhe dá uma aura ridícula de poder que imita a sociedade dos poderosos instituídos também impostos pela força. Seja agressão explícita, seja a sofisticada nos truques das armações políticas e econômicas.
A banalidade com que armas são vendidas, mal fiscalizadas e ocupam o mercado clandestino coloca em cheque toda e qualquer campanha antiviolência. É como cuidar do vazamento sem eliminar a goteira.
As indústrias de armamentos estariam dispostas a discutir o princípio que fundamenta seu negócio?
Fabricam armas para que e para quem?
Para corporações militares, só?
Para que tipo de cidadão exercer que tipo de defesa?
E se os portes forem dados sem o menor rigor — e vai saber quais seriam tais critérios?
Quem avalia as condições emocionais do habilitado?
Quem garante desequilíbrios momentâneos, falhas na guarda que leva crianças a ‘‘brincarem’’ com o perigo até cometerem acidentes trágicos?
A questão moral nesse vulgar arsenal da população é: se eu já parto do princípio que responderei na bala uma suposta agressão à bala, eu já estou reforçando a corrente de que a segurança coletiva do Estado faliu tanto que somente eu posso restaurá-la. Ou como justiceiro em legítima defesa ou vingador.
Geralmente essa classe média belicosa acaba como vítima. E quem tem o porte: o pai ou a família?
O senhor pistoleiro das boas intenções acaba armando o bandido que ataca sua família, objeto da sua pretensa proteção.
A questão será sempre a de perguntarmos em qual tipo de sociedade queremos viver. A que elimina causas ou a que fica chorando eternamente sobre as consequências?
Na verdade, é lutar antes para evitar o luto depois!
A vida seria mais bela sem as estúpidas balas e seus fabricantes.
*O autor é mestre e doutor em administração pública.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
