A teia de relações de Flávio Bolsonaro tem escândalos, milícias e sabotagem
"O primogênito da família Bolsonaro tenta, mais uma vez, blindar um histórico marcado por conexões perigosas, investigações criminais e reações que beiram a sabotagem contra os interesses econômicos do próprio país".
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 16/05/2026 às 15:25 | Atualizado em: 16/05/2026 às 15:28
A recente troca de farpas públicas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) expõe mais do que uma simples fratura na direita brasileira para as eleições presidenciais.
O estopim do desentendimento — as duras críticas de Zema após o vazamento de áudios em que Flávio cobra dezenas de milhões de reais do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro — joga luz sobre um persistente padrão de comportamento político e financeiro.
Ao tentar desqualificar a reação de Zema classificando-a como um “equívoco” e usando a velha retórica de que seu único objetivo é “tirar o PT do poder”, o primogênito da família Bolsonaro tenta, mais uma vez, blindar um histórico marcado por conexões perigosas, investigações criminais e reações que beiram a sabotagem contra os interesses econômicos do próprio país.
O Master, o escândalo do BRB e as alianças no poder
O envolvimento de Flávio Bolsonaro no caso do banco Master e de seu dono, Daniel Vorcaro, revela a proximidade do parlamentar com o epicentro de uma crise financeira e judicial profunda.
A interlocução direta com Vorcaro — a quem o senador enviava mensagens de apoio irrestrito mesmo em meio a investigações — confunde as fronteiras entre a atuação legislativa e os interesses privados de sua família.
Essa rede de influência estende-se a aliados de primeira ordem que hoje enfrentam graves problemas com a justiça:
Ibaneis Rocha
O ex-governador do Distrito Federal viu sua gestão e o Banco Regional de Brasília (BRB) entrarem em colapso político após a tentativa frustrada de compra do banco Master, uma operação bilionária que resultou em rombos severos e colocou a instituição estatal na mira de auditorias e liquidações.
Cláudio Castro
O governador do Rio de Janeiro, parceiro político histórico de Flávio, enfrenta processos de cassação na Justiça eleitoral e é alvo de investigações contínuas da Polícia Federal sobre desvios e corrupção em programas assistenciais do estado.
O “vice dos sonhos” Ciro Nogueira e o FGC
A promiscuidade entre os interesses do poder público e do mercado financeiro ganha contornos ainda mais nítidos nos planos eleitorais de Flávio Bolsonaro, que já declarou publicamente que o senador Ciro Nogueira e (PP-PI) seria o seu “vice dos sonhos”.
Ciro Nogueira é o autor de uma proposta de emenda apresentada ao Congresso Nacional para aumentar significativamente o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
De acordo com investigações da Polícia Federal, o texto dessa medida legislativa teria contado com a redação direta e o lobby do próprio Daniel Vorcaro, colocando o líder do Progressistas sob a mira da PF por suposta atuação em benefício do banco Master.
O fisiologismo do centrão: o Partido Liberal de Valdemar Costa Neto
Não se pode analisar a trajetória de Flávio Bolsonaro sem examinar a legenda que lhe dá sustentação política.
Como membro destacado do Partido Liberal (PL), Flávio submete-se às diretrizes e à liderança de Valdemar Costa Neto, figura carimbada da política nacional que carrega em sua biografia uma condenação definitiva no escândalo do mensalão.
O PL, agindo em simbiose com o Progressistas (PP), constitui a espinha dorsal do “centrão”, um bloco notório pelo fisiologismo de balcão e pelo sequestro do orçamento federal.
Atualmente, essa estrutura partidária encontra-se sob intensa investigação no Supremo Tribunal Federal (STF).
Sob a condução rigorosa do ministro relator Flávio Dino, o STF e a Polícia Federal miram o escândalo das chamadas emendas pix — repasses bilionários desprovidos de transparência ou rastreabilidade.
As auditorias já identificaram desvios generalizados na destinação desses recursos públicos operados por parlamentares do bloco para irrigar bases eleitorais e fundações aliadas, transformando o orçamento público em um mecanismo de barganha e enriquecimento de grupos políticos privados.
O passado no Rio de Janeiro: rachadinhas, mansões e milícias
A biografia política de Flávio Bolsonaro é indissociável das estruturas mais sombrias da política fluminense.
Foi na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que se estruturou o infame caso das “rachadinhas”, o esquema de desvio de salários de assessores que utilizava transações em dinheiro vivo para irrigar o patrimônio familiar.
É nesse mesmo submundo que emergem as ligações mais perigosas do senador
Adriano da Nóbrega
O ex-capitão do Bope e chefe do “escritório do crime” — uma das milícias mais violentas e letais do Rio de Janeiro, assassinado na Bahia — teve a mãe e a esposa empregadas no gabinete de Flávio na Alerj, além de ter sido homenageado pelo parlamentar com a Medalha Tiradentes.
A mansão de Brasília
O desdobramento financeiro dessa trajetória culminou na nebulosa compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões em uma área nobre de Brasília, uma transação com financiamento bancário sob condições altamente questionáveis e incompatíveis com a renda declarada de um parlamentar.
A sabotagem internacional: Eduardo Bolsonaro e o apoio ao “tarifaço”
Enquanto Flávio articula nos bastidores financeiros domésticos, seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, atua na frente externa de forma ainda mais prejudicial à soberania e ao desenvolvimento nacional. Utilizando-se de forte influência junto a alas da extrema-direita nos Estados Unidos, o clã Bolsonaro não hesitou em endossar e, segundo investigações, articular politicamente para que o governo de Donald Trump impusesse barreiras alfandegárias severas contra os produtos brasileiros.
Ao aplaudir e justificar a imposição de tarifas pesadas que estrangulam o comércio exterior, a indústria e o agronegócio do Brasil, Eduardo operou uma clara campanha de boicote econômico contra o próprio país.
Sob o pretexto de “combater o comunismo” ou retaliar decisões do Judiciário brasileiro, a atuação da família resultou no encarecimento de insumos, na perda de competitividade internacional e no risco real à manutenção de te milhares de empregos e investimentos estrangeiros no território nacional.
É esse o Brasil que querem entregar?
Diante de uma trajetória que costura a lavagem de dinheiro das rachadinhas, a proximidade com milicianos e banqueiros investigados, a articulação legislativa sob encomenda para beneficiar fundos privados, o abrigo partidário sob a tutela de condenados por corrupção e a deliberada atuação internacional para sabotar a economia nacional em nome de interesses dinásticos, a retórica do “combate ao PT” perde qualquer resquício de legitimidade. Transforma-se em uma cortina de fumaça grotesca para acobertar malfeitos.
A biografia pública de Flávio Bolsonaro e as ações coordenadas de seu grupo político impõem uma reflexão urgente e incontornável a toda a sociedade: é esse o padrão de moralidade, de respeito às instituições, de subserviência a interesses de banqueiros, de desvio de emendas públicas e de gestão econômica que eles desejam para o país? É esse o Brasil que eles querem entregar aos brasileiros?
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Vitor Souza/AFP
