A URSS morreu, o comunismo não!

Plínio Coêlho discute, a partir do materialismo histórico-dialético e da falseabilidade de Karl Popper, por que o colapso da URSS não significa o fim do comunismo.

URSS e comunismo como possibilidade histórica

Por Plinio Cesar Coêlho*

Publicado em: 15/06/2026 às 13:33 | Atualizado em: 15/06/2026 às 13:33

O que a história nos ensina?

Quando examinamos a história da humanidade sob a lente do materialismo histórico-dialético – como fez Marx, e como depois desenvolveram pensadores como Mészáros – encontramos uma sucessão de modos de produção:

· Modo de produção primitivo: sociedade sem classes, sem Estado, com baixíssimo desenvolvimento das forças produtivas.

· Modo de produção feudal: surgimento de classes (senhores e servos), Estado incipiente.

· Modo de produção capitalista: consolidação das classes (burguesia e proletariado), Estado a serviço da acumulação privada.

O que essa sucessão nos mostra? Mostra que a história não parou. Cada modo de produção gerou suas contradições internas, suas crises, e foi sendo superado por outro. O capitalismo, por sua vez, gera contradições cada vez mais agudas: concentração de riqueza, crises periódicas, destruição ambiental, miséria em meio à abundância.

Portanto, dizer que jamais haverá um novo modo de produção – uma sociedade sem classes e sem Estado – é negar a própria história. É supor que o capitalismo seria o fim da linha, o paraíso final. Isso é teologia burguesa, não ciência histórica.

O que realmente morreu em 1991

Morreu um experimento histórico concreto: a União Soviética. Morreu uma tentativa de transição ao comunismo sob condições adversas – isolamento internacional, guerra civil, atraso técnico, cerco capitalista, burocratização interna. A URSS foi um experimento real de subordinação dos interesses privados aos interesses públicos, ainda que contraditório, imperfeito, frequentemente traído por sua própria burocracia.

Mas o fracasso dessa tentativa específica não implica a impossibilidade lógica ou histórica de outras tentativas futuras. Uma tentativa falha não invalida uma teoria.

O problema popperiano da falseabilidade

Karl Popper nos ensina que uma proposição só é científica se puder ser falseada, se existir uma experiência possível que a contradiga. Pois bem, tomemos duas proposições:

· Proposição A: “Nunca haverá um modo de produção comunista (sociedade sem classes e sem Estado).”

· Proposição B: “Haverá, necessariamente, um modo de produção comunista no futuro.”

Ambas não são falseáveis. Para falsear a proposição A, seria necessário percorrer todo o futuro infinito, impossível. Para falsear a proposição B, bastaria que o capitalismo se perpetuasse para sempre ou que a humanidade fosse extinta antes do comunismo, mas isso não é um experimento controlável.

Portanto, do ponto de vista estritamente popperiano, não posso provar que o comunismo virá, nem posso provar que ele jamais virá. Ambas as afirmações pertencem ao campo das hipóteses metafísicas, das crenças, do achismo.

A analogia incômoda: Deus e o comunismo

Agora, façamos um exercício de honestidade intelectual. Os mesmos que decretam com segurança “o comunismo nunca mais existirá” são, muito frequentemente, os mesmos que acreditam em Deus ou, quando não acreditam, também não conseguem provar sua inexistência.

Pois bem: do ponto de vista popperiano, a afirmação “Deus existe” não é falseável. Não há experimento que possa provar que Deus não existe. Da mesma forma, a afirmação “Deus não existe” também não é falseável, não se pode percorrer todo o universo e toda a história para garantir que nenhuma divindade jamais se manifestou ou se manifestará.

Portanto, crer que Deus existe ou crer que Deus não existe está no mesmo campo lógico que crer que o comunismo jamais virá ou crer que ele virá necessariamente. São todos enunciados metafísicos, não científicos. São achismos, crenças respeitáveis como opinião pessoal, mas não como verdade demonstrável.

A hipocrisia histórica das igrejas

E aqui cabe um parêntese necessário. Os mesmos que frequentemente negam o comunismo com unhas e dentes são cristãos declarados. Frequentam igrejas. Dizem crer em um Deus bondoso, onipotente, que acompanha a história humana.

Pergunta-se: onde estava esse Deus quando as igrejas cristãs abençoaram guerras? Onde estava quando cruzados massacraram judeus e muçulmanos? Onde estava quando a Inquisição torturou e queimou hereges? Onde estava quando bispos alemães saudaram Hitler? Onde estava quando a Igreja Católica acobertou padres pedófilos? Onde estava quando as igrejas evangélicas no Brasil financiam políticos que cortam direitos dos pobres?

O mundo continua caótico, miserável, cheio de guerras mesquinhas. As igrejas não impediram nenhuma delas. Muitas vezes, as legitimaram. E ainda assim, o cristão continua crendo em Deus. Nenhum fato histórico – por mais brutal que seja – abala sua fé. E está no seu direito. Porque a existência de Deus não é falseável por fatos históricos.

Pois bem: do mesmo modo, nenhum fato histórico – nem mesmo o colapso da URSS – pode falsear a possibilidade futura do comunismo. Se o cristão pode continuar crendo em Deus após dois mil anos de guerras, massacres e hipocrisia eclesiástica, então o marxista pode continuar considerando o comunismo como uma hipótese em aberto após o fracasso de um único experimento histórico.

A simetria da humildade

Ou se adota o critério popperiano com rigor para todos – e então se reconhece que tanto Deus quanto o comunismo futuro são enunciados não falseáveis, portanto fora do domínio da certeza científica – ou se abandona o critério e se assume que se está no campo da fé, não da ciência.

O que não se pode fazer é o que a ideologia burguesa tenta: usar o critério popperiano para negar o comunismo (como se fosse “cientificamente comprovado” que ele é impossível) e, ao mesmo tempo, suspender o mesmo critério quando se trata de Deus ou do capitalismo eterno.

Isso é trapaça epistemológica.

Conclusão

A União Soviética morreu. Mas o comunismo como possibilidade histórica – uma sociedade sem classes, sem Estado, onde os interesses privados se subordinam aos interesses públicos – continua de pé como hipótese não falseada. Nem provada, nem refutada.

Quem decreta sua impossibilidade eterna está negando a própria lógica da história. Quem decreta sua vinda inevitável está saindo do terreno da ciência para o da profecia.

E, por fim, quem é cristão e nega o comunismo deveria ao menos ter a honestidade de reconhecer: sua negação do comunismo tem o mesmo status lógico da sua crença em Deus. Nenhuma das duas pode ser provada. Ambas são atos de fé, uma na eternidade do capitalismo, outra na existência do divino.

A posição cientificamente honesta – para um materialista dialético que também respeite o critério popperiano – é esta: não posso provar que o comunismo virá, mas também ninguém pode provar que ele jamais virá.

E essa incerteza não é fraqueza. É, justamente, o espaço da luta de classes, da política, da história em movimento. O mesmo espaço onde os cristãos depositam sua fé em um Deus que, até hoje, não impediu uma só guerra.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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