O país do futebol mudou de endereço!

Neuton Corrêa analisa como a Argentina transformou a paixão pelo futebol em parte de sua identidade nacional e discute se o título de "país do futebol" mudou de endereço.

Neuton Corrêa na Argentina

Por Neuton Corrêa*

Publicado em: 15/07/2026 às 18:15 | Atualizado em: 15/07/2026 às 18:15

Há países que escolhem um símbolo para contar quem são.

Uns elegem montanhas. Outros, rios. Há quem se reconheça nas catedrais, nos desertos ou nas revoluções. A Argentina escolheu um estádio.

Não um estádio qualquer. Todos eles.

Ali, o futebol não começa quando o árbitro apita. Nasce muito antes, na calçada onde um pai compra a primeira camisa do filho. Nasce no bar, onde a escalação ocupa mais espaço que a política. No muro pintado com as cores do bairro, na estátua de um ídolo. Por fim, nasce na bandeira desbotada que atravessa gerações sem jamais descer do mastro.

O visitante demora pouco para perceber.

Buenos Aires não abriga clubes. Os clubes é que abrigam Buenos Aires.

A cidade pulsa no compasso das arquibancadas.

A cidade onde o futebol respira

Há um momento em que as arquibancadas do Estudiantes parecem desafiar a engenharia. Não importa o placar. O concreto balança como se tivesse aprendido a dançar. Lembra o velho Bumbódromo de 1988, quando Fred Góes fez uma multidão inteira descobrir que um refrão também podia mover uma cidade.

Depois vem a Bombonera. Ali, o jogo parece um detalhe.

A torcida canta de costas para o gramado, como quem já conhece o roteiro e prefere conversar diretamente com a alma do clube. O espetáculo acontece acima da bola, acima do placar, acima da lógica.

Há qualquer coisa de religião naquele ritual.

Já em Núñez, o Monumental ensina outra lição. Grandeza não se mede apenas em concreto. Mede-se em memória. O estádio virou museu da própria paixão. As visitas guiadas contam histórias que nenhum livro escolar ousou registrar.

Mais ao norte, por sua vez, existe Rosário.

Poucas cidades pertencem tanto a um homem quanto Rosário pertence a Lionel Messi.

Ou talvez seja o contrário.

Talvez Messi pertença à cidade.

Porque há lugares capazes de produzir um jogador. Mas há lugares capazes de produzir uma cultura.

Essa é a diferença.

Quando a paixão muda de endereço

Durante décadas, o Brasil repetiu, como quem recita um verso sagrado, que era o país do futebol.

A frase atravessou Copas do Mundo, governos, gerações e propagandas. Sobreviveu até o tempo em que um tricampeonato serviu para esconder a face mais cruel da ditadura.

Mas frases também envelhecem.

Continuamos donos da camisa mais famosa do planeta, donos de cinco estrelas e donos de uma história que ninguém apaga.

Mas a paixão…

A paixão parece ter encontrado outro endereço. Hoje ela mora nas ruas de Buenos Aires.

Nos bairros de La Boca. Nas esquinas de Rosário.

Nos cantos que nunca se calam, mesmo quando o time perde.

É por isso que a Argentina atravessa esta Copa como quem não disputa apenas um campeonato.

Defende uma maneira de existir.

Cada dividida parece envolver um bairro inteiro.

O gol pertence a uma cidade.

Por isso, toda vitória é celebrada como um patrimônio nacional.

Talvez seja cedo para dizer que o Brasil deixou de ser o país do futebol.

No entanto, já não parece exagero admitir que existe outro país vivendo esse título com muito mais convicção.

Os troféus continuam brasileiros.

A alma do futebol, por enquanto, veste azul e branco.

O autor é jornalista*.

Foto: Arquivo pessoal.