“Régua de Marfim”: a colonialidade do saber no julgamento do Festival de Parintins

Gabriel Ferreira discute como a escolha de jurados externos reproduz a colonialidade do saber no Festival de Parintins.

Começa junho, melhor, mas menos produtivo do calendário amazonense

Por Gabriel Ferreira*

Publicado em: 04/07/2026 às 18:01 | Atualizado em: 04/07/2026 às 18:01

Antes de iniciar o tensionamento sobre a famigerada escolha política na ultrapassada escola de jurados do Festival Folclórico de Parintins, esclareço que a “régua de marfim”, expressão que dá título a este texto, remete a uma metáfora visual e histórica usada para representar o eurocentrismo, a erudição acadêmica tradicional e o distanciamento elitista em relação à cultura popular, como será discutido a seguir.

Um dos pontos principais ao se avaliar e medir o festival sobre essa régua de marfim, trazida há anos pelos jurados “de fora da região” por obrigatoriedade do regulamento, é compreender que o marfim é um material de luxo associado à riqueza, ao poder e às elites ocidentais.

Na literatura, por exemplo, a expressão “viver em uma torre de marfim” faz alusão ao isolamento do mundo real, da sabedoria popular e das práticas cotidianas, restringindo-se ao campo das ideias puras e da academia intelectual.

A régua de marfim

Ou seja, quando escrevo que os jurados usam uma “régua de marfim”, é porque estes ainda julgam Parintins a partir de um isolamento intelectual e de teorias distantes, sem pisar no chão de terra ou compreender a vivência dos povos daqui.

E é a partir disso que compreendemos como a ideia de colonialidade do saber prevalece no julgamento do Festival de Parintins, realizado oficialmente no Bumbódromo, em formato de duelo, desde o ano de 1988, após construção do espaço no governo de Amazonino Mendes.

Essa disputa centenária entre Caprichoso e Garantido, move multidões. Anualmente mais de 120 mil pessoas vão até a “Ilha da Magia” brincar de boi-bumbá. Como não se encantar com o maior espetáculo a céu aberto do planeta?

O que ocorre na arena é mais do que mera disputa por pontos sob a vista de uma comissão de jurados “técnicos” e “experientes”. Deslocar o debate só para isso seria tolice de minha parte, ou como dizem: choro de perdedor. Não! É mais do que isso, pois essa festa evoca ancestralidades e desafia os limites da cenografia e da performance.

Quando as luzes do Bumbódromo se apagam e o vazio toma conta de novo daquele lugar, e as notas dos jurados passam a ser lidas de forma pública pelo presidente da comissão avaliadora, aqui vem à tona um fantasma que talvez muita gente cega pelo fanatismo (que é legítimo) nunca vai enxergar:  é a colonialidade do saber.

Isso é reflexo do regulamento da disputa que dispõe sobre uma suposta isenção técnica, com a escolha de avaliadores vindos de outras regiões do Brasil, sobretudo do eixo Sul-Sudeste.

Quem julga Parintins?

Neste ano, os dez jurados do Festival de Parintins refletem esse pensamento aqui tensionado. Por exemplo, Giana Cervi, de Santa Catarina; Giovani Alves Loner, de São Paulo, José Alexandre Carvalho, de Campinas/SP. Esses são apenas três que julgaram o bloco musical deste ano. A lista completa está disponível aqui.

Divididos em três blocos, Musical, Cênico/Coreográfico e Artístico, essa comissão teve a missão de avaliar aspectos de técnica, criatividade, interpretação e apresentação dos bois. Apesar da experiência comprovada de cada um para julgar, quais as suas referências? O que eles conhecem sobre o contexto histórico, social e político do Festival? O que sabem sobre a cultura popular amazônica? Já leram, pelo menos, alguma das diversas obras sobre os bois de Parintins.

Caso contrário, fica a recomendação para os próximos: Boi Bumbá Evolução do jornalista, pesquisador e professor universitário Allan Rodrigues; e as obras Festas amazônicas: boi-bumbá, ciranda e sairé,⁠ ⁠⁠Boi-Bumbá: imaginário e espetáculo na Amazônia, do jornalista, sociólogo, e escritor parintinense, Wilson Nogueira. Isso seria só para começar o processo de letramento dessa gente.

Colonialidade do saber

Diante dessa ideia, penso no seguinte paradoxo: a grandiosidade da cosmologia amazônica é submetida ao crivo de quem carece de letramento cultural para decifrá-la. Nem 50 anos de experiência em “cultura”, vivendo em outro lugar distante daqui, poderia condicionar esses sujeitos que detêm uma visão reducionista e conservadora romântica sobre a Amazônia, como avaliadores de suas festas populares como o Festival de Parintins.

Isso tudo é o que o sociólogo peruano Aníbal Quijano denominou de “colonialidade do poder”, explicitado até aqui. De acordo com ele, seria para explicar como, mesmo após o fim do colonialismo político, as hierarquias de dominação cultural, racial e epistêmica continuam operando.

Aplicamos isso ao contexto de Parintins, em que a importação sistemática de supostos intelectuais, antropólogos, musicistas, professores universitários (de teatro, música, dança, etc) ou coreógrafos de fora da Região Norte para ditar o vencedor do festival é o reflexo perfeito dessa estrutura colonial do saber.

E aqui a situação é diferente do intercâmbio artístico dos bois, de pessoas de outras regiões que vêm somar o Festival. Eles estão construindo a arte e ajudando o boi a acontecer. É diferente dos jurados que “avaliam”.

O mito da neutralidade

A premissa implícita colonial é de que o Norte não possui distanciamento crítico ou maturidade acadêmica para avaliar a própria arte. Tudo porque todos os que organizam o festival, acreditam que só existem cegos fanáticos pelos bois, ou que todo mundo se conhece.

Uma grande tolice. Quer dizer, o olhar de fora, por extensão, o olhar moldado pela erudição europeia é vendido como o único capaz de atingir a “universalidade” e a “neutralidade”.

É preciso dizer: a neutralidade é um mito ocidental. E o que chamamos de técnica, muitas vezes, é apenas o eurocentrismo fantasiado de critério.

Nesse processo, afirmo que há claramente uma violência conceitual quando um jurado, alfabetizado no balé clássico, nas diversas orquestras, nos carnavais e festivais Brasil afora e mundo afora, tenta avaliar a evolução dos itens individuais como o Pajé, a Cunhã Poranga, a Porta-Estandarte, o bailado da Sinhazinha.

Ao tentar enquadrar o transe, a catarse cabocla e os rituais indígenas na métrica rígida do espetáculo ocidental, o júri não está exercendo rigor técnico. Eles estão operando em um estado de analfabetismo cultural.

Além de questões técnicas com som e iluminação dentro da arena, o sacrifício do item 19, Galera, que vira o dia debaixo de sol e chuva, o ritmo e harmonia das toadas executadas por duas grandes orquestras amazônicas, de Caprichoso e Garantido, não podem ser medidos com a mesma régua de marfim que mede outras academias, agremiações e associações do país.

Descolonizar o julgamento

Faço aqui um alerta: o risco dessa dependência da validação externa é a pasteurização do próprio festival. É o exemplo da colonialidade do saber.

Na vontade de agradar um corpo de jurados com uma visão e formação social eurocêntricas, os bois correm o risco de trocar o suor, a organicidade e o “improviso” sagrado da floresta por um padrão friamente calculado para exportação que sufoca a identidade em nome da nota dez.

O Festival de Parintins é soberano e monumental por direito próprio. Nasceu no meio do povo, de forma orgânica e reflete o encanto do lugar onde surgiu. Não precisa pedir licença para ser considerado alta cultura.

E deixo claro aqui que, enquanto o festival insistir nessa ideia de buscar chancela de fora para julgar, seguirá acorrentado a uma lógica subordinada. Temos que descolonizar o Festival de Parintins quanto a quem o julga.

A régua que mede esse grande espetáculo na Amazônia precisa ser esculpida pela madeira da própria terra. Tem que ser manejada por quem compreende que ali não se julga apenas um show de alegorias, mas o pulsar de um povo.

O autor é jornalista, pesquisador e professor universitário. Doutorando em Ciências da Comunicação (UFPA), Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), Bacharel em Jornalismo (Icsez-Ufam).*

Foto: Divulgação//Prefeitura de Parintins.