O espelho de Gilead

Rosimeire D’Avila da Cruz analisa como Michelle Bolsonaro se tornou símbolo de uma liderança feminina que reforça o machismo estrutural e legitima projetos políticos conservadores.

Mulheres, poder e submissão

Por Rosimeire D’Avila da Cruz*

Publicado em: 01/07/2026 às 12:21 | Atualizado em: 01/07/2026 às 12:21

Acompanhar os rumos da política contemporânea e assistir à aclamada série distópica O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) deixou de ser um exercício de imaginação para se tornar um incômodo processo de reconhecimento.

A maior força da obra de Margaret Atwood não reside na violência física escancarada exercida por seus comandantes masculinos, mas na doçura calculada das mulheres que ajudam a construir os alicerces do próprio cativeiro.

No cenário político brasileiro atual, a figura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro personifica com precisão cirúrgica essa engrenagem: a liderança feminina que floresce não para libertar suas semelhantes, mas para chancelar o sistema que as subordina.

Assim como a personagem fictícia Serena Joy, Michelle Bolsonaro atua como a face esteticamente perfeita e moralmente inquestionável de um projeto de poder profundamente patriarcal e excludente. Sob o manto da “maternidade sagrada”, da submissão religiosa, do voluntariado e da caridade institucionalizada, ela opera uma das retóricas mais eficazes do conservadorismo: a transformação da perda de direitos civis em “proteção divina”.

O perigo intrínseco desse modelo de liderança reside no fato de que ele desarma a resistência social. Afinal, torna-se muito mais complexo combater a opressão quando ela se apresenta com um sorriso acolhedor, tom de voz sereno e uma Bíblia em mãos.

A captura conservadora

A atuação de Michelle à frente de movimentos políticos femininos de extrema-direita, como o PL Mulher, joga luz sobre uma tese histórica defendida por pensadoras como a feminista negra Gloria Jean Watkins (nome de batismo de bell hooks): para controlar e policiar os oprimidos, as estruturas de poder recrutam indivíduos de dentro do próprio grupo subordinado.

Sob o pretexto de “estimular a participação feminina na política”, o que se promove na realidade é uma captura ideológica. Incentiva-se a entrada da mulher no espaço público desde que sua voz seja utilizada para defender o seu próprio confinamento ao ambiente doméstico, para atacar os direitos reprodutivos e para criminalizar as lutas de emancipação de gênero.

Essa estratégia cria uma divisão perversa e intencional. De um lado, estabelece-se a “mulher de bem”, virtuosa, obediente e recompensada com privilégios marginais pelo status quo; de outro, as “subversivas”, aquelas que lutam por autonomia institucional e que, por isso, passam a merecer o julgamento moral da sociedade e o desamparo das políticas de Estado.

Michelle Bolsonaro transita habilmente por essa fronteira, servindo como uma ponte afetiva para que milhares de mulheres aceitem a perda gradual de sua autonomia jurídica e social em troca de uma ilusão de segurança familiar e espiritual.

O rosto do machismo

Olhar para essa dinâmica nos dias de hoje é um exercício doloroso, mas fundamental. Na ficção de Atwood, o regime teocrático e totalitário de Gilead não começou com execuções sumárias nos muros da cidade; começou de forma sutil, com discursos inflamados sobre a salvação da moralidade nacional e com mulheres aplaudindo aquelas que prometiam protegê-las do mundo moderno.

Quando a liderança de gênero se torna o principal veículo de propagação do machismo estrutural, a opressão atinge o seu nível mais refinado e perigoso.

O alerta urgente que a análise sociológica e histórica nos deixa diante do espelho da nossa realidade política é claro: precisamos desconfiar profundamente das mãos femininas que nos oferecem flores, se a condição inegociável para recebê-las for aceitar, silenciosamente, o peso das nossas próprias correntes.

A autora é Cientista Social graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Câmpus de Naviraí, especialista em Antropologia, Historiadora e Pedagoga.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.