A Zona Franca de Manaus e a estética do preconceito

Texto analisa como ataques à Zona Franca de Manaus expõem preconceitos contra a Amazônia e a transformação da agressividade em estratégia de engajamento digital

Amazonas e ZFM passam longe do ataque de Trump ao Brasil

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 13/05/2026 às 17:46 | Atualizado em: 13/05/2026 às 17:46

A performance da ignorância digital se tornou uma das marcas mais visíveis da cultura algorítmica contemporânea. Nesta semana, um influenciador ganhou repercussão nacional após publicar um vídeo atacando a Zona Franca de Manaus (ZFM).

Em tom agressivo, debochado e recheado de palavrões, ele questionava a existência do modelo econômico amazonense, classificava Manaus como “o c* do mundo” e ainda utilizava referências ofensivas aos povos indígenas e à população local. Além disso, chamava os defensores da ZFM de pessoas de “QI baixo”, incapazes de compreender economia.

O episódio, entretanto, vai muito além de uma simples opinião equivocada sobre logística ou política econômica. Na verdade, o vídeo revela algo mais profundo: a consolidação de uma estética da brutalidade nas redes sociais. Hoje, quanto mais agressivo, provocador e vulgar o conteúdo, maiores são as chances de engajamento.

Nesse contexto, a performance da ignorância digital opera como uma forma específica de poder simbólico. O influenciador não tenta demonstrar conhecimento técnico sobre a Amazônia, desenvolvimento regional ou política industrial. Ao contrário, ele constrói autoridade justamente pela recusa ao conhecimento formal.

Essa talvez seja a parte mais interessante – e mais perigosa – do fenômeno. Durante décadas, concluir os estudos, possuir formação acadêmica ou demonstrar domínio sobre determinado tema funcionava como fonte de legitimidade pública.

A ignorância como capital simbólico

Agora, porém, parte da cultura digital transformou a recusa da escola em símbolo de autenticidade. O fenômeno dialoga diretamente com aquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de disputa por capital simbólico. Mesmo sem possuir capital cultural legítimo, muitos influenciadores digitais conseguem converter visibilidade, audiência e engajamento em formas alternativas de reconhecimento social. Não por acaso, o próprio vídeo fazia questão de destacar que o influenciador abandonou os estudos para “focar na internet”.

A mensagem implícita é clara: estudar seria perda de tempo; o verdadeiro conhecimento viria da “vida real”, da “coragem de falar verdades” e da capacidade de gerar audiência.
Nesse sentido, a performance da ignorância digital cria uma inversão curiosa. A ausência de conhecimento deixa de ser um problema e passa a funcionar como prova de sinceridade. Afinal, na lógica das redes, parecer espontâneo vale mais do que ser consistente.

A brutalidade vendida como autenticidade

Além disso, existe outro elemento importante nessa discussão: a transformação da agressividade em autenticidade. Os palavrões, os filtros caricatos, o deboche e a linguagem ofensiva não aparecem por acaso. Como demonstrou o sociólogo Erving Goffman em seus estudos sobre performance social, os indivíduos organizam cuidadosamente suas interações públicas para produzir determinadas impressões.

Nas redes sociais, essa lógica ganha escala algorítmica. A espontaneidade, muitas vezes, é cuidadosamente encenada. Tudo isso compõe uma encenação cuidadosamente construída para transmitir a ideia de alguém “sem filtro”, “verdadeiro” e “politicamente incorreto”. Em outras palavras, a brutalidade passa a ser vendida como honestidade.

O preconceito geográfico como espetáculo

O problema é que esse modelo de comunicação produz consequências sociais concretas.
Quando Manaus é apresentada como um lugar atrasado, inútil ou economicamente dispensável, o discurso não está apenas criticando uma política pública. Ele reforça uma velha lógica histórica de invisibilização da Amazônia. Ao longo do tempo, muitos setores do país aprenderam a enxergar a região apenas como floresta, reserva mineral, obstáculo logístico ou espaço exótico distante do chamado “Brasil produtivo”.

Por isso, não surpreende que referências ofensivas aos povos indígenas apareçam nesse tipo de narrativa. O preconceito geográfico frequentemente caminha ao lado da desumanização racial e cultural.

Ao mesmo tempo, a simplificação econômica apresentada no vídeo ignora deliberadamente questões fundamentais. A Zona Franca de Manaus não pode ser compreendida apenas a partir do custo logístico. O modelo também envolve soberania territorial, ocupação econômica da Amazônia, preservação florestal, integração nacional e geração de empregos em uma região historicamente negligenciada pelo Estado brasileiro.

A economia da atenção e o lucro da polêmica

Entretanto, o objetivo principal do vídeo nunca foi produzir debate qualificado. Na prática, o conteúdo foi construído para gerar indignação, compartilhamento e conflito. Esse é o verdadeiro combustível da economia da atenção.

Nas redes sociais, a polêmica virou modelo de negócio. O filósofo Guy Debord, ainda nos anos 1960, já alertava para uma sociedade na qual o espetáculo se tornaria elemento central da vida social. Hoje, porém, o espetáculo deixou de ser apenas televisivo e passou a operar em tempo real, orientado por algoritmos e métricas de engajamento.

Nesse contexto, quanto maior o choque, maior o alcance. Quanto maior a humilhação pública, maior o engajamento. Quanto mais simplista a explicação, maior a capacidade de viralização. A performance da ignorância digital depende exatamente disso: transformar complexidade em meme, reflexão em ataque pessoal e debate público em espetáculo emocional.

Existe ainda um detalhe particularmente simbólico nesse caso. O influenciador utiliza filtros infantis e caricatos enquanto profere ataques agressivos e preconceituosos. Essa combinação aparentemente contraditória revela muito sobre a comunicação digital contemporânea.

A estética da brincadeira funciona como mecanismo de suavização da violência simbólica. O discurso ofensivo aparece embalado em humor, ironia e meme. Assim, a agressão circula socialmente como entretenimento. Esse talvez seja um dos traços mais preocupantes do nosso tempo: a naturalização da crueldade performática.

Quando viralizar importa mais do que compreender

Hoje, muitas figuras públicas digitais não precisam demonstrar preparo intelectual, responsabilidade pública ou compromisso com os fatos. O filósofo Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea transformou desempenho, visibilidade e exposição permanente em valores centrais da vida social.

Nesse ambiente, viralizar frequentemente importa mais do que compreender. Basta dominar a lógica algorítmica da atenção. E essa lógica premia justamente aquilo que provoca reação emocional imediata.

Por isso, a performance da ignorância digital não deve ser tratada como simples excentricidade de internet. Ela expressa uma transformação mais ampla da esfera pública contemporânea. A autoridade passa a ser medida por alcance, não por conhecimento. A visibilidade substitui a credibilidade.

No fundo, o que está em disputa não é apenas a imagem da Amazônia ou da Zona Franca de Manaus. O que está em disputa é a própria capacidade da sociedade de sustentar debates minimamente complexos em um ambiente dominado por algoritmos, provocação permanente e espetáculo.

E talvez resida exatamente aí o maior desafio do nosso tempo: impedir que a ignorância performada continue sendo confundida com coragem, autenticidade ou liberdade de expressão. Porque, quando a brutalidade vira entretenimento, o preconceito encontra palco. E quando o preconceito viraliza, a democracia empobrece.

*O autor é sociólogo.

Foto: divulgação