Acadêmicos de Niterói é campeã do carnaval
Apesar do rebaixamento técnico, a escola triunfa com desfile político que satirizou traumas recentes e a polarização nacional.
Por Aguinaldo Rodrigues*
Publicado em: 18/02/2026 às 19:07 | Atualizado em: 19/02/2026 às 04:48
No rigor das notas dos jurados, a Acadêmicos de Niterói pode ter amargado o rebaixamento no carnaval do Rio de Janeiro, mas no tribunal da irreverência e da memória histórica, a escola sagrou-se campeã absoluta.
Ao levar para a Sapucaí a trajetória do presidente Lula da Silva e confrontar as feridas abertas pelo governo Bolsonaro, a agremiação cumpriu a missão primordial do carnaval: ser o espelho crítico de uma nação que ainda processa seus traumas recentes.
O desfile foi uma peça teatral a céu aberto.
A imagem do palhaço preso e as alas que rememoraram o cemitério da covid-19 não foram apenas alegorias; foram catarses coletivas.
Enquanto a arquibancada entoava o samba-enredo que virou “chiclete”, a escola lavava a alma de quem viu a democracia ser ameaçada por planos de golpe e investigações sobre tentativas de assassinato de autoridades.
A irreverência, alma da folia, serviu de antídoto contra os anos de lacração e notícias falsas que engessaram a política brasileira.
O choro e as cinzas
O incômodo causado nos setores bolsonaristas apenas atesta a eficácia da mensagem.
Quem tentou humilhar o atual presidente durante seus dias de cárcere, agora assiste ao revés estético e popular em rede nacional.>
O carnaval existe para o extravasamento e para que o cidadão possa, por meio do riso e do deboche, exorcizar seus demônios políticos.
Nesta quarta-feira de cinzas (18 de fevereiro), o resultado oficial pode apontar o descenso da escola para a série ouro, mas a marca deixada na avenida é indelével.
Ninguém tem o direito de tirar a graça da festa que escolheu não ser neutra.
Contudo, para o bem do país em pleno ano eleitoral, é preciso que a acidez e o deboche virem pó hoje.
Que as cinzas levem o extravasamento e permitam que o debate sério retorne.>
A Acadêmicos de Niterói desceu de divisão, mas subiu ao panteão dos desfiles que souberam ler o espírito de seu tempo.
*O autor é jornalista.
Foto: BNC Amazonas
