Colapso do xeque-mate no Amazonas: quando máquinas não vencem rejeição
"Se no início David Almeida era o estrategista que cercava os rivais, em dezembro de 2025 ele é o líder cercado pelos próprios números negativos".
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 29/12/2025 às 14:29 | Atualizado em: 29/12/2025 às 14:29
Em nossa análise anterior, desenhamos um cenário onde David Almeida parecia ter o controle absoluto do tabuleiro. A estratégia era cirúrgica: com a decisão pessoal do governador Wilson Lima de buscar o Senado, o governo estadual ficaria sob o comando de Tadeu de Souza e a prefeitura com Renato Magalhães Júnior — ambos aliados “puro-sangue” de Almeida.
Na teoria, o prefeito teria as maiores fortalezas do Amazonas para conquistar o Palácio Rio Negro em 2026.
Entretanto, as pesquisas de dezembro de 2025 trouxeram um choque de realidade que Nicolau Maquiavel descreveria como a ruína de qualquer estratégia baseada apenas na força institucional.
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1. A fortaleza de papel: o peso da rejeição
Os dados atuais mostram que David Almeida carrega uma rejeição recorde, que beira os 63% em Manaus (conforme dados da Census e Perspectiva).
É aqui que a sabedoria de Maquiavel em “O Príncipe” torna-se implacável:
“A melhor fortaleza que existe é não ser odiado pelo povo; pois, embora possuas fortalezas, elas não te salvarão se o povo te odiar”.
No cenário teórico, Almeida tinha as fortalezas (estado e prefeitura). No cenário real de dezembro, os números mostram que essas muralhas de concreto e asfalto estão sendo corroídas pelo sentimento de desaprovação.
Enquanto Almeida tenta manter a coesão das máquinas, o senador Omar Aziz disparou nas pesquisas, atingindo 40% das intenções de voto, consolidando-se como o favorito do eleitor que busca experiência em meio ao desgaste da gestão municipal.
2. O risco de sobrar na curva: David Almeida ou Maria do Carmo?
A nova realidade estatística aponta para um perigo que o grupo de Almeida não previa: ele pode ser o “terceiro excluído” do segundo turno.
Com Maria do Carmo Seffair tecnicamente empatada com o prefeito e capturando o voto ideológico de direita na capital, a vaga na fase final tornou-se uma loteria de alto risco.
Se a tendência atual se mantiver, o segundo turno poderá ser decidido entre a tradição de Aziz e a novidade de Do Carmo.
Nesse contexto, o “xeque-mate” que Almeida planejou contra os rivais acaba sendo aplicado contra ele mesmo.
Ele descobriria, da pior forma, que na política amazonense a caneta de um aliado (Tadeu) e o orçamento de outro (Renato) não calam a insatisfação de um povo que já decidiu pela mudança.
3. A lealdade sob pressão
Maquiavel também alertava que “os homens esquecem mais rápido a morte do pai do que a perda do patrimônio”.
Se Tadeu de Souza e Renato Júnior perceberem que a candidatura de Almeida está naufragando na rejeição, o instinto de sobrevivência política (o “patrimônio” deles) falará mais alto que a gratidão.
Aliados com a máquina na mão tendem a buscar novos portos seguros quando sentem que o líder principal tornou-se um peso eleitoral.
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O isolado do palácio
O cenário mudou drasticamente.
Se no início David Almeida era o estrategista que cercava os rivais, em dezembro de 2025 ele é o líder cercado pelos próprios números negativos.
Mesmo com o controle indireto do estado e da capital, a “fórmula mágica” das máquinas falhou ao ignorar o humor das ruas.
Em 2026, o Amazonas pode assistir ao isolamento não do “gigante” Omar Aziz, mas de quem acreditou que bastava ter a chave do cofre para ter o voto do povo.
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Antônio Pereira/Semcom
