Comer é cultura

Caso envolvendo Marciele Albuquerque reacende discussão sobre diversidade cultural, hábitos alimentares e racismo estrutural

Por Dassuem Nogueira

Publicado em: 21/03/2026 às 17:04 | Atualizado em: 21/03/2026 às 17:11

Tem circulado nas redes sociais o vídeo de uma produtora de conteúdo apontado Marciele Albuquerque, cunhã poranga do Caprichoso, como mal exemplo de postura à mesa. A cunhã poranga azul faz parte do elenco do reality show mais popular do país, o Big Brother Brasil 2026.

O BBB é um programa cuja atração é permitir ao público acompanhar o dia a dia dos participantes em uma casa. Por esse motivo, ela, e os demais participantes, são vistos em momentos de intimidade domiciliar.

No vídeo, Marciele aparece segurando uma coxa de frango com as mãos, juntando porções de comida com os dedos sobre o garfo e lambendo as pontas dos mesmos. A produtora de conteúdo afirma que esse é um comportamento condenável, sem etiqueta, e mal educado. Ela cita como exemplo a própria filha, criança, a quem teria ensinado a não mexer com o alimento.

Etiqueta

O apontamento da produtora de conteúdo é preconceituoso e classista. A etiqueta à qual ela se refere é uma ética de pequenos atos compartilhada por um grupo de uma classe social de alto poder econômico.

Na história, tais modos à mesa, dentre outros fora dela, foram criados em meio a realeza e o clero franceses nos séculos XVII e XVII. E foram popularizados por Luís XIV, sendo chamados de “modo francês”.

Após a revolução francesa, que aboliu a monarquia, a etiqueta à mesa foi uma das maneiras utilizadas para validar a burguesia comerciante que ascendeu ao poder. Assim, a etiqueta passou a ser um distintivo de classe social e higiene.

Comer é cultural

Todo ato humano é mediado pela cultura, mesmo aqueles atrelados às necessidades biológicas, como comer, defecar, urinar, dormir, fazer sexo, parir, morrer.

Na cultura nortista, é comum comermos com as mãos. Especialmente porque temos predileção pelo peixe como proteína, o que requer catar as espinhas. Aos pequenos, faz-se montes de farofa de peixe, chamado no Baixo Amazonas de “capitão”, para certificar que não contém espinha.

Mas não somos os únicos no mundo. A cultura japonesa, árabe, indiana, africanas, certos povos europeus, como os armênios, e tantos outros, não usam talheres à mesa.

Comer com talheres é uma consequência direta da colonização, que replicou nas américas a etiqueta francesa como um distintivo de civilização.

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Primitivo

Chama atenção no vídeo o termo que a produtora de conteúdo utiliza para se referir à Marciele. Ela afirma que se ela tivesse consciência de seus comportamentos, não gostaria de passar uma imagem “primitiva” de si própria.

Por si só, o termo é preconceituoso, pois atribui incivilidade a todos os povos que comem utilizando as mãos.

Contudo, o termo atribuído a uma mulher indígena cai ainda pior.

Selvagens

Os povos indígenas, povos nativos africanos e aborígenes, por muito tempo foram classificados como pertencentes ao primeiro estágio de evolução humana, o primitivo. Obviamente, quem criou essa classificação foram os europeus.

Essa teoria foi produzida nos primórdios da antropologia, fortemente influenciada pelo evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882). A diferença entre as culturas foi explicada como expressão de uma única cultura humana, porém dividida em diferentes estágios de evolução.

Essa teoria foi chamada de evolucionismo cultural ou darwinismo social e foi disseminada na passagem do século XIX para o XX.

Os diferentes estágios de evolução cultural eram: selvageria, barbárie e civilização. Para a religião, por exemplo, determinou-se que o animismo era uma característica de selvageria; o politeísmo, de barbárie; e o monoteísmo, religião dos cristãos europeus, de civilização. E assim se dava para aspectos como parentesco, política, língua, arte, etc.

Ultrapassada

Não por acaso, os povos nativos que estavam em subjugo dos colonizadores europeus, foram categorizados como primitivos e bárbaros e, portanto, deveriam ser conduzidos para a civilização por meio da catequização e da colonização pelos europeus.

Um desdobramento dessa teoria afirmava que a cultura era fruto direto das diferenças biológicas entre os povos, tal como o comportamento instintivo é para os animais não humanos. E mais ainda, desdobrou-se em fundamento de teorias eugênicas e supremacistas raciais.

Raça x cultura

O evolucionismo cultural caiu por terra logo na primeira metade do século XX. Franz Boas (1858-1942) – não à toa, um judeu alemão – considerado o fundador da antropologia moderna, foi o primeiro a apontar o viés ideológico dessas teorias. E a apontar a sua fragilidade metodológica e científica.

Ainda no final do século XIX, Franz Boas começou a demonstrar, a partir de evidências empíricas, que não existia uma única cultura humana, mas diferentes culturas, no plural.

Cada cultura deveria ser estudada em seus próprios parâmetros, e não comparadas a outras por meio de aspectos isolados como religião ou língua.

Além disso, as diferenças fenotípicas, naquele momento, compreendidas como raça, não determinavam a cultura.

Racismo

A teoria do evolucionismo cultural foi superada há um século, mas teve consequências diretas para os povos indígenas das américas e povos nativos africanos. E reverbera até hoje na forma de preconceito contra eles, especialmente, sobre sua cognição. Ou como diz a produtora de conteúdo, “falta de consciência de si”.

O termo é fortemente combatido pelos povos indígenas que não aceitam que se refiram a eles como primitivos ou selvagens.

O termo “primitivo” utilizado pela produtora de conteúdo para referir-se ao modo de comer de Marciele é por si só ultrapassado e classista. Mas sendo a cunhã azul, uma mulher Munduruku, o termo é, além de tudo, racista.

Arte: Gilmal