Por Antônio Barbosa*

“Solto a voz na estrada, já não posso parar” 

“Travessia”, de Fernado Brant e Milton Nascimento

 

Nenhuma liberdade poderá ser ameaçada. Não sei onde estava que não percebi a chuva molhar o varal, exatamente eu que gosto tanto de viver os dias chuvosos. A beleza não poderá ser tão restrita e nada será belo se não alcançar a paisagem silenciosa do rio Negro e a agressividade poética do Solimões…

Viver nos trópicos é se expressar. Não quero ser moderno se tiver que usar uma arma, nem tão pouco livre se obrigado for matar levianamente meu semelhante; a guerra que declaro não mata inocentes, nem satisfaz meu ego de poder por meio de um disparo à queima-roupa. Não é esse o meu papel!

Também não me sinto derrotado a ponto de achar que a beleza morreu por meio de um decreto.  O Brasil não deixará de ser belo porque alguém decretou “se matem!”.  A mãe-pátria lava as mãos dos seus deveres, porém, seus filhos não abdicam dos seus direitos.

Que deus é esse que permite a barbárie?! Que mostra o seu poder por meio de um revólver? Será essa a nossa única forma de alcançar a igualdade entre os homens? No auge de minhas contradições retóricas, creio que derramar sangue não seria ruim se este fosse o dos algozes das nossas virtudes, dos charlatões, daqueles que insistem em submeter sem convencer e oprimir para governar.

Eu não sei onde estava quando deixei que aqueles que vieram depois se perdessem em suas desesperanças e entrassem cegamente no “Sobral Santos” no afã de uma vida nova, de uma tão proclamada prosperidade. Rapidamente a esperança parda se transforma e o Brasil do sorriso estampado no rosto sai às ruas histericamente embalado pelo desejo de matar.

Fomos descuidados quando não percebemos essa nuvem se formando sobre as nossas cabeças; foram imbecis quando se deixaram levar pela tirania do culto ao onipotente que emergia do chão da fábrica como se fora a Boa Nova. Um crápula ensandecido pela tirania de ser o donatário do novo mundo. Que fim levaram os acadêmicos, por onde se me meteram esse tempo todo?

Justifica-se no passado recente o ímpeto de sangue que jorra no tempo presente, todavia, não se traduz no que temos deixado nos muros da história.  Os descendentes de Luzia sabem sorrir, caminhar. Entretanto, a sutileza da “mão que afaga” também é a aspereza de “a mesma que bate” e a delicadeza da “boca que beija” certamente é o amargo de “a mesma que cospe”.

Não, a mudança não nos satisfaz, embora embaixo de um discurso de patriotismo e de divindade.  Eu não seria ingênuo, nem covarde, nem canalha em aceitar que a pátria e Deus fossem maculados por uma besta que não emerge dos oceanos, porém, brota dos cafezais, dos arrozais, dos pastos e das casernas, da mais absoluta tirania e do profundo autoritarismo embrionado no Planalto central, disseminado pelas mentes frágeis do imenso rebanho de desorientados país a fora.

Um dia de sol não poderá ser perfeito sem que haja um olhar que passeia em um plano infinito, curioso e atento; sem um cabelo molhado brotando das águas e o aroma de uma selva úmida e morna decididamente no cio. Nada é tão sólido que não se desmanche no ar e a beleza em hipótese alguma poderá ser destruída. É a chuva que me alimenta de esperança, que me nutre desse desejo enorme de liberdade.

… Deixamos de sorrir, deixamos de sonhar, mas é por pouco tempo!

 

Foto: Reprodução/site grandefm.com.br

 

*O autor é contador, formado em ciências contábeis pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), MBA em marketing pela Universidade Gama Filho e mestrando em ciências empresariais na UFP/Porto, em Portugal.