EUA: o dólar como arma de dominação econômica e política

Para o economista, a moeda norte-americana sustenta a influência global do país, permitindo sanções e controle sobre fluxos financeiros internacionais

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Por Plínio César Coelho

Publicado em: 14/09/2025 às 16:52 | Atualizado em: 14/09/2025 às 16:52

​A hegemonia do dólar norte-americano na economia global é um dos pilares da arquitetura financeira moderna. Sua importância vai muito além do papel econômico: o dólar se tornou um instrumento de poder geopolítico e de dominação, permitindo a imposição de agendas políticas e ideológicas em escala global.

Compreender seu papel é fundamental para analisar as dinâmicas de poder e as crises que moldam nossa era.

​O legado de Bretton Woods e o início da hegemonia

​A ascensão do dólar à sua posição dominante não foi um acaso, mas o resultado de um redesenho deliberado da ordem mundial pós-guerra.

Na Conferência de Bretton Woods, em 1944, as potências aliadas, lideradas por uma nação americana economicamente fortalecida, estabeleceram um novo sistema monetário.

A proposta, de Harry Dexter White, vinculou o dólar ao ouro a uma taxa fixa, enquanto outras moedas se vinculavam ao dólar.

Essa arquitetura, que deu origem ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial, cimentou a hegemonia da moeda americana, estabelecendo-a como a âncora do sistema financeiro internacional.

​A era pós-conversibilidade e o sistema de petrodólares

​A confiança no sistema, no entanto, começou a erodir na década dos anos 60. Em 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, encerrando o acordo de Bretton Woods.

Surpreendentemente, em vez de colapsar, o dólar encontrou uma nova base para sua hegemonia: o sistema de petrodólares.

Por meio de um acordo com a Arábia Saudita, o dólar se tornou a moeda obrigatória para a negociação de petróleo no mercado internacional, garantindo uma demanda global contínua e inabalável.

​O dólar como instrumento de coerção

​A dominância do dólar hoje se baseia na capacidade de Washington de usá-lo como uma arma.

O ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing chamou de “privilégio exorbitante” essa capacidade de imprimir a moeda de reserva mundial. No entanto, o aspecto mais perigoso desse privilégio é a coerção financeira e política.

​O governo americano pode impor sanções e usar o sistema financeiro como ferramenta de política externa.

A capacidade de excluir nações do sistema de pagamentos global Swift e de congelar ativos financeiros de governos e empresas inimigas confere aos EUA uma ferramenta de controle que vai muito além das transações comerciais.

É essa capacidade de coação, que o Brics agora busca superar, que faz do dólar a principal arma de dominação econômica e política na geopolítica moderna.

​Desafios e o futuro

​Apesar de sua posição robusta, o dólar enfrenta desafios crescentes.

A ascensão de potências como a China e o fortalecimento de blocos como o Brics buscam ativamente uma ordem financeira multipolar.

A instrumentalização do dólar para sanções, como no caso da Rússia, acelera essa busca por alternativas.

Embora o declínio do dólar como moeda dominante seja um processo lento e complexo, a busca por desdolarização é uma realidade inegável.

O futuro da ordem monetária global dependerá da capacidade dos EUA de manter a confiança em sua moeda e da capacidade de outros países de construir alternativas viáveis e seguras, livres da dominação política e ideológica do status quo.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil