Manaus, uma cidade indígena
No aniversário de 356 anos, esta reflexão mostra que a capital amazonense foi erguida sobre territórios e memórias dos povos manaós, barés e tarumãs.
Por Dassuem Nogueira*
Publicado em: 25/10/2025 às 12:31 | Atualizado em: 25/10/2025 às 12:41
No dia 24 de outubro, Manaus completou 356 anos, contando-se desde a fundação do forte de São José da Barra pelos portugueses, em 1669.
A capital amazonense é a única com um nome indígena, homônima do povo manaós ou manaú, da família linguistica aruak.
No rio Negro, viviam outros povos, mas na região onde hoje é a cidade, viviam os manaós, os barés e os tarumãs.
Ironicamente, foi dado a essa terra, em 1856, o nome de uma nação dizimada.
Seria essa uma homenagem ou um cinismo colonial?
Os tarumãs
O povo indígena que habitava a região onde hoje é a cidade, na realidade, eram os tarumãs.
Os colonizadores empreenderam guerra para escravizá-los.
Parte deles foi dizimada. A outra foi obrigada a trabalhar na construção do forte de São José da Barra.
A partir disso, os sobreviventes seguiram em êxodo para o interior do vale do rio Negro. O último registro dos tarumãs na região de Manaus foi em 1808. Logo foram dados como extintos.
Hoje, sabe-se que fizeram um longo caminho de fuga.
Atualmente, vivem próximo a Lethen, na Guiana, cidade fronteiriça a Bonfim, em Roraima.
Abrigaram-se com o povo wapichana, de língua carib. Vivem também no sul do Suriname.
Mãe dos deuses
O significado do nome indígena seria “mãe dos deuses”. Causa estranhamento apenas que a ideia de deuses não é compatível com a cosmologia dos povos indígenas das terras baixas (que não são andinos). Provavelmente, esta é mais uma mentira que nos foi contada pelos colonizadores.
Tomando como exemplo outros termos de autodeterminação étnica, é provável que Manaus significasse algo como “avó do mundo”, alguma entidade primordial da qual descenderiam os manaós. Mas, essa é uma especulação vã.
Manauara
Manauara é expressão que junta o nome aruak “manaós” com o sufixo “ara”, de origem tupi-guarani, corresponde a “tem origem em” ou “vem de” Manaus.
Vingamos a dizimação dos manaós sendo, atualmente, a cidade com maior população indígena do Brasil.
Em 24 de outubro, no aniversário de Manaus, foi divulgado o resultado final do censo indígena 2022.
De presente, oficializou-se que a capital possui população indígena estimada em 71,7 mil pessoas, de 186 etnias, falantes de 97 línguas nativas.
Cidades indígenas
Há um imaginário mundial que associa povos indígenas à natureza. E cidade e à civilização. De modo tal que a presença de indígenas nas cidades soa incompatível.
Essa é outra mentira colonial.
Achados arqueológicos recentes informam que povos indígenas, na realidade, construíram estruturas para sustentar grandes contingentes populacionais sem conflitar com a natureza, como aquedutos e lagos artificiais cujos rastros estão sendo descobertos.
Não é porque não possuíam uma arquitetura duradoura que não havia cidades indígenas.
Maior que Roma
Mesmo se o critério para ser considerada uma cidade seja a opulência arquitetônica, as cidades dos incas, maias e astecas estão aí para provar que as cidades indígenas existiram.
Tenochtitlán, cidade asteca fundada em 1325, localizada onde hoje é a Cidade do México, possuía cerca de 200 mil habitantes. Desse modo, seria mais populosa que Roma no mesmo período, no auge do império.
Assim, não é correto afirmar que os indígenas estiveram alheios às cidades em tempos pré-coloniais.
Pertencimento
Essa falsa ideia produz o preconceito de que os indígenas que nelas vivem são ilegítimos ou aculturados, pois crê-se que, uma vez urbanizados, não são mais indígenas.
Sobre esse preconceito, é importante informar que, embora a relação com os territórios de origem como lugar de pertencimento seja fundamental, a identidade indígena não é mecanicamente atrelada a isso.
É mais importante para os indígenas em contexto urbano a autoidentificação, o reconhecimento pelos demais membros da mesma etnia e a manutenção da vida em coletividade.
Segregação
Outra mentira colonial sobre povos indígenas é a sua suposta fixidez nos territórios.
Como aponta Ailton Krenak, nós naturalizamos o fato de os indígenas serem segregados em reservas territoriais. Porém, fato é que eles sempre se moveram em um mundo sem fronteiras.
A cidadania indígena é diferenciada. Contudo, são brasileiros como qualquer outro. A eles também vale o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição.
Cidades com indígenas
O censo de 2022 mostra que cerca de 900 mil indígenas vivem em áreas urbanas. Isso corresponde a 53,97% dos quase 1,7 milhões de indígenas.
Manaus é a capital mais indígena do país. Mas aqui, há muito tempo, não vivem mais os descendentes dos manaós ou tarumãs, ocupantes originários dessas terras.
A população indígena da capital, atualmente, é composta por famílias que vêm em busca de serviços básicos, não encontrados nas terras indígenas e territórios tradicionais do interior do estado.
Cidades para indígenas
Contudo, estar mais próximos desses serviços não resulta que irão acessá-los sem enfrentar o racismo e o preconceito que vivenciam cotidianamente no espaço urbano.
Um dos grandes desafios para que os indígenas caminhem em direção à cidadania nas cidades é o acesso a serviços públicos culturalmente orientados.
Por mais que existam orientações oficiais na forma de cartilhas e documentos para essa população em serviços básicos, como saúde, educação, assistência social, na prática, muitos funcionários sequer conhecem tais instrumentos.
E, mesmo os que conhecem, seguem suas práticas de modo não qualificado e permeados por preconceito e racismo, salvo raras exceções.
Os indígenas que vivem em cidades como Manaus precisam cotidianamente lidar com preconceitos que os acusam de não estar em seu lugar, a floresta. E de não serem mais indígenas, portanto, não serem mais habilitados a atendimento diferenciado nos serviços públicos.
Ao lembrar que aqui é o lugar ancestral dos tarumãs, dos baré e dos manaós, antes de 1669, afirmamos que Manaus, antes e depois de tudo, é uma cidade indígena.
*A autora é doutora em antropologia.
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Foto: Marcelo Cmargo/Agência Brasil
