Marciele, a cunhã azul viveu o BBB26 como uma perreché

Eliminação da cunhã do Caprichoso reacende debate sobre representatividade indígena, expectativas públicas e o peso de ocupar espaços de visibilidade

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 12/04/2026 às 20:08 | Atualizado em: 12/04/2026 às 20:08

Marciele Albuquerque, 32 anos, cunhã poranga do Boi bumbá Caprichoso foi eliminada no 14º paredão do Big Brother Brasil 26.

Com 59,34% dos votos, a cunhã azul competia pela continuação da casa com Leandro Boneco, que teve 37,62% dos votos e Gabriela, a Gabi Panquequinha, que obteve 3,04%.

A dez dias da grande final de uma edição aclamada pelo público, Marciele saiu direto para o palco no Domingão com o Hulk, onde reencontrou sua família.

Expectativa

Embora não tenha sido a primeira indígena a participar do BBB, feito de Arleane Marques, do povo Mura, que teve breve participação no BBB25, a entrada de Marciele Albuquerque, do povo Munduruku, foi marcada por grande expectativa.

A própria ministra dos Povos Indígenas do Brasil, na época, Sônia Guajajara (PSOL), chegou a pedir votos para que a cunhã ganhasse a competição da Casa de Vidro, em janeiro.

Frustração

Porém, a sua participação não correspondeu às expectativas de visibilização de pautas do movimento indígena.

Antes de entrar no reality, Marciele já tinha destaque como ativista, especialmente, pela promoção do artesanato e da moda indígenas, apoiando-se no posto de cunhã poranga no festival folclórico de Parintins, uma das mais importantes manifestações da cultura popular brasileira.

Mas Marciele foi econômica ao rebater comentários preconceituosos e na abertura das pautas. Célia Xacriabá (PSOL), deputada federal por Minas Gerais, foi uma das que expressou abertamente, e por diversas vezes, sua frustração.

Silenciada?

A divulgação do festival folclórico de Parintins também deixou a desejar. Marcielle falou tão pouco dos bois de Garantido e Caprichoso que chegou a levantar suspeita de que tenha sido proibida em contrato de falar nos bois de Parintins ou que tenha sido prejudicada pela edição.

Diferentemente disso, Neinha, a mãe de Marcielle, durante sua participação no Domingão, na oportunidade que teve, promoveu em uma só oração o Festival folclórico de Parintins, o Festribal de Juruti e o Sairé de Alter do Chão.

Descanso da guerreira

Uma reflexão do movimento negro é a de que a presença de pessoas negras em espaços de protagonismo é cercada pela expectativa da luta incansável. Há quem diga que é preciso desaprender a ser negro, a desempenhar outros papéis diferentes ao da luta antiracista e viver para além do lugar imposto pela colonização.

Talvez essa reflexão sirva para compreendermos o papel de Marciele, que demonstrou não estar disposta a manter em riste seu arco e flecha no BBB26. A cunhã preferiu se manter longe dos embates, aproveitou a experiência, se divertiu e beijou quem quis.

Efeito Isabelle

Ocorre que muitos esperavam que Marciele se comportasse semelhante a Isabelle Nogueira, cunhã vermelha, apelidada no BBB24 de ministra da cultura do Amazonas, por ter aproveitado o tempo de tela na rede globo para falar, e muito, do festival folclórico de Parintins.

Além disso, Isabelle bebe muito pouco álcool; aparentemente, é evangélica; teve um comportamento polido em relação aos homens, mesmo se envolvendo no fim com Matheus.

Mas, convenhamos, na vida é muito mais fácil encontrar (e ser) Marciele do que Isabelle. A comparação é descabida e a frustração, nesse caso, é de quem da expectativa se alimentou.

Skin perreché

Diz-se dos perrechés (corruptela de “pés rachados”), designação dada aos torcedores do boi Garantido, que eles são cachaceiros, bagunceiros, brigões, grosseiros, entre outros adjetivos, comumente, atribuídos ao povão.

Marciele aproveitou as festas, muitas vezes, bebeu até cair; deu vexame; amenizou a ansiedade com comida e foi criticada pelos próprios aliados; comia com a mão e foi julgada como grosseira na internet; beijou o homem que sua parceira na casa havia beijado, sendo julgada como “talarica”. Por fim, Marciele foi povão! Ironicamente, ela foi perreché!

Planta

Marciele saiu como “planta” da edição, nome dado a quem está no programa sem se mover como se estivesse plantada no chão. O que foi exposto pelo discurso de eliminação de Tadeu e no Baile do Gil, quadro do programa Bate papo com o eliminado, nos quais foi revelado à cunhã que esperava-se que ela fosse mais combativa.

Marciele não conseguiu desenvolver um enredo próprio, especialmente, em meio a uma edição movimentada desde o início.

Contudo, chegou ao top 7 do programa e não saiu com a imagem arranhada, o que, possivelmente, lhe abrirá muitas portas.

E, mesmo que tenha sido planta, cumpriu o papel de fomentar o vocabulário do festival folclórico de Parintins em nível nacional. Ela é a “cunhã” do BBB26!

*A autora é antropóloga.

Foto: divulgação