Cordel desafia quântica e inteligência artificial

Folhetos rimados fortalecem ensino, teatro e filosofia, mantendo vivos mitos e vozes populares na Amazônia.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 25/10/2025 às 13:31 | Atualizado em: 25/10/2025 às 13:33

Nos tempos das mídias digitais – quase quânticas – os impressos literários resistem bravamente.

É o caso do cordel, gênero literário que trata de temas do imaginário popular e do cotidiano por meio de versos rimados e impressos no formato folheto.

Nos mostruários das “bancas de jornais”, livrarias e sebos, que fazem a vez do cordel, destacam-se com seus títulos engraçados, jocosos e, também, de mérito educativo e reflexivo. A variedade de títulos representa pluralidade de temas.

Trata-se do meio mais acessível para circular histórias de vida, mitos, causos e acontecimentos, principalmente tragédias, que marcam a sociedade.

O gênero literário é pujante nas cidades do Nordeste, onde se sobressaem os heróis do cangaço, dos povos escravizados, das religiões e das tentadas revoluções das classes populares, entre quais, a Guerra de Canudos, a revolta dos Males etc.

Cordel na Amazônia

É possível dizer que a literatura cordelista se espalhou no Amazonas a partir do final do século passado, com a migração nordestina para seringais.

Tantos os cordelistas ampliaram o repertório da sua arte com temas amazônicos quanto os artistas locais aprenderam a tecê-lo e a incluir-se como leitores e autores.

Os primeiros migrantes chegaram à Amazônia a partir da segunda metade do século 19 e na bagagem cultural trouxeram, entre outros bens, a arte do cordel, que ressoa na camada popular, principalmente, porque agrada a oralidade.

Imaginário amazônicas

Se antes os temas eram os heróis e heroínas do sertão nordestina, hoje se abriu um espaço no cordel para o imaginário amazônico: Juripari, Matinta Pereira, Filho do Guaraná, Curupira, Boi Tatá, Mapinguari, Iara, Vitória Regia, Macunaima, Cainamé etc.

Esses e outros seres da floresta são avatares conhecidos e respeitados no meio amazônico. Eles vivem, convivem, pensam e interagem com os povos da floresta. O cordel é mais uma brisa que os espalham no mundo.

Camelô dos cordéis

José de Medeiros Lacerda faz hoje a vez dos navios a vapor e dos regatões dos seringais.

Ele mora em Santa Luzia (PB), mas percorre as cidades amazônicas para vender suas obras com focos mitos populares da cultura oral da região.

“[…] Com muita sagacidade / Padre Anchieta escreveu / Na carta de São Vicente / Sobre um fogo que correu / Num rio contra a corrente / Deixando a água fervente / E no campo se estendeu!”, acentua uma sextilha do título "Lenda do Boi Tatá".

Ou: “[…] Pode ser sol a pino / À tardinha, madrugada / Se notar que a floresta / Está sendo ameaçada / Entra em cena assobiando/ fazendo muita zuada […]”, diz outra, em "A lenda do Curupira".

Em “Matinta Pereira”, o autor destaca as duas personas dessa “assombração” ou “visagem”, uma na forma de pássaro e outra na de mulher:

“[…] E só parar de gritar / Se alguém ali prometer / Que lhe oferecerá fumo / E pinga para beber / Assim ela bate asas / Vai ousar em outras casas / Com o mesmo proceder […] Também já ouvi dizer que Matinta é uma mulher / Uma bruxa malassombrada / Que caminha sempre a pé / Durante a noite inteira / Com sua ave agoureira / E vai para onde quer […]”.

Festas populares

As festas populares ribeirinhas também bebem na literatura cordelista, principalmente nas mais tradicionais, com origem afro-indígenas, que revigoram a resistência das culturas ancestrais em suas relações com o mundo contemporâneo.

A influência desse gênero literário pode ser observada no boi-bumbá e nos pássaros, entre outras folguedos populares que são os guardiões do encontro e desencontro de culturas na Amazônia.

As toadas antigas dos bumbás de Parintins Caprichoso e Garantido, por exemplo, dizem muito à esse respeito, uma vez que seus poetas da velha guarda, senão todos, ao menos a maioria, eram leitores de cordéis.

Baú do Lindolfo

Lindolfo Monteverde, cancioneiro popular fundador do boi-bumbá Garantido, era contumaz leitor de cordéis, que chegavam a Parintins em navios vindos de Belém para os altos rios da bacia amazônica.

Ele morreu em 1979 e deixou um baú onde guardava as suas papeladas, entre elas livrinhos de cordel, suas canções e toadas em homenagem à sua criatura. O baú está conservado, mas conteúdo literário se dissipou “nos empréstimos” a terceiros.

“Meu avô era fã de cordel. Ele compunha desafios como se faz cordel”, diz Dé Monteverde, neto de Lindolfo.

Dé Monteverde, por sinal, herdou do avô a verve cordelista, que pode ser contatada no livro Povão do boi (edição do autor), no qual apresenta inúmeros artistas populares que ajudaram Lindolfo a tanger o Garantido paro espetáculo midiático parintinense.

Esses, certamente, não ganhariam uma linha na biografia dos intelectuais das elites econômicas.

Raimundinho Dutra

Raimundo Nonato de Jesus Dutra, o Raimundinho Dutra (1930-2025), brincante do boi Caprichoso, é outro craque do cordel e da toada.

Ele é autor do livro “Revelação histórica do folclore parintinense” (2005), editado pela Prefeitura de Parintins.

Os versos de Dutra dão conta das primeiras agitações culturais de Parintins, no final do século 19, das quais nasceram pássaros, pastorinhas e bois-bumbás, que persistem até hoje.

O poeta é filho de Marçal Mendes de Assumpção, dono de fazenda agrícola de Cametá (PA), e dona Filomena, filha de pais sequestrados na África e escravizados no Brasil, em 1858.

Os versos de Dutra contam que Marçal foi deserdado por ter casado com uma escrava e na busca de um lugar para morar encontrou Parintins.

Não demorou para dona Filó agregar pessoas em torno do seu terreiro de danças ancestrais. Não é forçoso dizer, então, que ela está para a cultura do boi-bumbá parintinense, assim como tia Ciata está para o samba carioca.

Garantido e Caprichoso, inclusive, têm os pés no terreiro de dona Filó, pois são heranças da sua alma que resiste na alegria de “brincar de boi” até hoje.

Cordel na sala de aula

O cordel é reconhecido como material pedagógico por professores que o valorizam como gênero literário tão importante e necessário quando os demais.

“O meu encantamento pela literatura de cordel surge pela minha paixão pela poética dos versos populares, pela musicalidade e, principalmente, pela linguagem simples e acessível”, disse a professora de língua portuguesa da escola estadual São José Operário, em Parintins (AM), France Bentes da Silva, há 18 anos no magistério.

O cordel, atesta France, envolve e leva os estudantes interagirem em sala de aula, porque seus versos “não são palavras vazias, são palavras cheias de sentimentos”.

E ensina:

“Acho que tudo começa por aí: pela sensibilidade e pelo prazer da leitura”.

A professor explica que é possível trabalhar outros objetos da língua portuguesa a partir da literatura de cordel. “Gosto de explorar as figuras de linguagem e a variação linguística, para mostrar que o jeito popular de falar também é cheio de beleza e identidade”.

Ela assegura que, por meio do cordel, o aluno aprende gramática, linguística e a valorizar a sua própria sala.

Como suporte físico, France usa as obras de Leandro Monte Barros, Patativa do Assaré, Zé da Luz, seus principais autores de introdução à literatura de cordel no espaço escolar.

Em nível local, France destaca o cordelista Pedro Xisto, com a obra “Os filhos da vaca”.

Batalha naval de Itacoatiara

Por intermédio do cordel, o professor Jailson Souza ilustra as suas aulas na escola municipal do Remanso do Boto, no município de Itacoatiara, com versos da sua própria autoria.

Com o livro “A batalha naval de Itacoatiara: 1930”, ele conta a história do confronto entre armadas improvisadas de legalistas e revolucionários, no rio Amazonas, em frente a cidade de Itacoatiara. Um navio dos revolucionários foi a pique e o outro ficou avariado.

Souza adaptou o cordel para uma peça de teatro e a iniciativa agradou os alunos e vem se repetindo ano a ano.

“A literatura de cordel facilita a comunicação com os alunos, principalmente em temas complexos”, disse o professor.

Cordel na filosofia

Professor de filosofia do Instituto Federal de Educação e Tecnologia do Amazonas (Ifam), em Lábrea, Ronilson Lopes compõe cordéis para despertar o prazer de filosofar em seus alunos e leitores.
Ele criou a coleção “Diálogos entre amigos” para desenvolver a sua ideia, que começa com o cordel “Diálogos filosóficos em literatura de cordel”, com ilustração de João Wilson.

“Responda-me caro amigo / Em sua ampla sabedoria / Tu és um filósofo e falas com maestria / Porque te formaste / No curso de Filosofia?
Noutros termos dize-me / Que vem a ser Filosofia? / Visto nuns causar espanto, / E, em outros, nostalgia? / Noutros, ainda, preconceito / Ou mesmo antipatia!”.

Em outro título, ele homenageia Paulo Freire, reconhecido mundialmente como educador popular.

“[…] Por outro lado, o educador / Não pode ser bancário / Agindo como possuidor do saber / E o aluno como depositário / Pondo em sua cabeça / Uma educação livresca / Como se ele fosse um otário.
Desconsiderando assim / O saber que o aluno traz / Como se ele não soubesse / Fosse simplesmente incapaz / De um saber intuir / E com o mundo interagir / Pra Paulo, isso não se faz […]”.

Ronilson é, também, autor de vários livros de ficção, entre eles “Onça para sempre” e “Olhos de Zuri”.

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Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas