Lideranças indígenas de Tabatinga (a 1.106 km de Manaus) ouviram dos procuradores da República do Ministério Público Federal (MPF) na cidade, que haviam provas concretas para a prisão preventiva de um servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai)  que também é liderança indígena ticuna, na última semana.

No encontro, os procuradores da República Bruno Silva Domingos e Valdir Monteiro Oliveira Júnior falaram da possibilidade real de novas práticas do mesmo crime denunciado na ação e porque, em mais de uma ocasião, o acusado dificultou o acesso a provas e a outra pessoa também denunciada no processo.

O homem, que não teve a identidade revelada, é alvo de diversas investigações e ações judiciais em andamento pela prática de estelionato e falsidade ideológica.

 

Sem retaliação

De acordo com o MPF, a medida não tem relação direta com a ocupação realizada por indígenas na unidade da Funai em São Paulo de Olivença, motivada pela insatisfação dos indígenas com a nomeação de um novo coordenador para o órgão na cidade.

Um dos vários fundamentos da prisão foi, conforme explicaram os procuradores, a impossibilidade de acesso a documentos arquivados naquela unidade, mas não foi emitido qualquer juízo de valor quanto ao acerto ou desacerto na nomeação do novo coordenador.

A Coordenadora Regional do Alto Solimões da Funai, Mislene Metchacuna Martins Mendes, esclareceu que a nomeação do novo coordenador local teria se tratado de uma escolha técnica. Antes da mudança, o cargo era ocupado pelo servidor processado pelo MPF por diversas fraudes em documentos públicos e que foi preso preventivamente na semana passada.

 

Acordo

Diante da repercussão negativa da paralisação do atendimento pela Funai em razão da ocupação e considerando a complexidade da situação – por exemplo, há discussão quanto à necessidade de ser realizar consulta prévia nos moldes da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a realização da mudança – os membros do MPF propuseram às lideranças indígenas um esforço coletivo, pelo período de seis meses, para garantir a normalidade das atividades na unidade da Funai em São Paulo de Olivença, sem que esse acordo desobrigue a Funai de prestar informações sobre a mudança na coordenação nem impeça a rediscussão do tema, caso não houvesse uma melhora na prestação do serviço.

Participaram da reunião representantes indígenas da Associação de Caciques Indígenas de São Paulo de Olivença (Acispo), Ismael Adércio Custódio; da Associação das Comunidades Indígenas Kokama (Acik), Cristóvam Del Miro; da Organização dos Kambeba do Alto Solimões (Okas), Jesus Seabra; Associação das Comunidades Indígenas Caixana (Aica), Walter Penaforte; Federação das Organizações, Cacique e Comunidades Indígenas da Tribo Ticuna (Foccitt), Francisco Antônio Guedes; da Federação Indígena do Povo Kukami-Kukamiria do Brasil-Peru-Colômbia, Gladis Ramires; e da Organização Geral dos Caciques e Comunidades Indígenas do Povo Cocama (OGCCIPC), Eládio Rodrigues Curico.

Ao fim da reunião, os participantes receberam, para acompanhamento, um sumário de todos os procedimentos não sigilosos em trâmite no MPF em Tabatinga envolvendo causas indígenas e o município de São Paulo de Olivença.

 

*Com foto e informações da assessoria de imprensa.