Especial BNC | Nem todos os jurados viram o mesmo festival de Parintins
Planilha revela que diferentes leituras dos jurados ajudaram a construir o resultado final, mas o regulamento reduziu o peso das avaliações isoladas e privilegiou o consenso técnico.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 01/07/2026 às 16:34 | Atualizado em: 01/07/2026 às 16:34
A planilha também conta histórias | Uma série especial do BNC Amazonas que mergulha nas notas oficiais do 59º Festival Folclórico de Parintins para mostrar como os números ajudam a explicar a emoção vivida na arena.
A apuração que consagrou o boi-bumbá Caprichoso campeão do 59º Festival Folclórico de Parintins oferece uma leitura que vai muito além da classificação final.
A análise detalhada da planilha oficial mostra que, embora todos os jurados tenham acompanhado exatamente os mesmos espetáculos, cada um destacou aspectos diferentes das apresentações, imprimindo sua própria percepção artística dentro dos critérios estabelecidos pelo regulamento.
Longe de representar uma fragilidade do sistema, portanto, essa diversidade de olhares é justamente um dos pilares da avaliação.
O regulamento foi concebido para transformar interpretações individuais em um resultado coletivo, reduzindo dessa forma o impacto de avaliações isoladas.
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O consenso superou as divergências
A primeira constatação da planilha talvez seja também a mais surpreendente.
Muito mais do que divergiram, os jurados concordaram.
Grande parte dos 21 itens recebeu notas máximas para Caprichoso e Garantido durante as três noites de apresentações, refletindo dessa maneira o elevado nível técnico alcançado pelos dois bois em 2026.
As diferenças apareceram quase sempre em décimos de ponto, aplicados a detalhes de interpretação, execução ou composição artística.
Essa convergência, pois, ajuda a explicar por que o campeonato terminou decidido por apenas 0,7 ponto, diferença mínima diante de um universo de 1.259 pontos possíveis.

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Ancestralidade e diversidade marcam segunda noite em Parintins
A segunda noite concentrou os maiores contrastes
Se houve um momento em que os diferentes olhares ficaram mais evidentes, ele ocorreu na segunda apresentação.
Foi justamente nessa noite que alguns jurados passaram a diferenciar com maior frequência itens do bloco A (Comum/Musical), responsável por reunir apresentador, levantador de toadas, Marujada ou Batucada, amo do boi, toada, galera e organização do conjunto folclórico.
Essa leitura igualmente coincide com a análise apresentada pelo BNC Amazonas no primeiro capítulo da série, que demonstrou ter sido exatamente nesse bloco que o Caprichoso construiu a vantagem decisiva para o campeonato.
Curiosamente, a interpretação também passou a ser debatida por parte da própria torcida do Garantido, que concentrou suas reflexões justamente sobre o desempenho dos itens musicais após a divulgação da planilha.
O descarte protege o resultado
Um dos mecanismos menos conhecidos pelo público aparece claramente na planilha.
Em cada conjunto de três jurados, a menor nota atribuída a um item é automaticamente descartada antes da soma final.
Na prática, isso significa que avaliações mais rigorosas nem sempre influenciam o placar definitivo.
Em diversos momentos da apuração, notas inferiores desapareceram da contagem exatamente por força desse dispositivo do regulamento.
O objetivo, portanto, é impedir que uma única percepção individual tenha peso excessivo sobre o resultado coletivo.
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Um festival visto por diferentes lentes
A leitura da planilha igualmente desmonta uma ideia recorrente após toda apuração: a de que um único jurado poderia definir sozinho o campeão.
Os documentos oficiais mostram exatamente o contrário.
Mesmo quando determinado avaliador aplicou diferenças entre Caprichoso e Garantido, sua decisão foi diluída pelo conjunto das demais notas e, em alguns casos, neutralizada pelo descartem de acordo com o regulamento.
O sistema privilegia a convergência.
É a soma dos diferentes olhares, e não uma avaliação isolada, que determina o vencedor de cada item e, consequentemente, o campeão do festival.
Os números também revelam percepções
Ao observar atentamente a planilha, percebe-se que alguns avaliadores adotaram perfil mais conservador, aproximando frequentemente as notas dos dois bois.
Outros exerceram um olhar mais criterioso sobre determinados aspectos do espetáculo, utilizando com maior frequência diferenças de um ou dois décimos.
Nenhuma dessas posturas representa, por si só, acerto ou erro.
Elas refletem interpretações distintas diante de uma manifestação artística extremamente complexa, que reúne música, teatro, dança, artes visuais, tradição popular e identidade amazônica.
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Muito além da planilha
No fim da apuração, o documento oficial deixa uma lição importante.
Os jurados não assistiram a festivais diferentes.
Assistiram ao mesmo espetáculo por perspectivas diferentes.
Foi justamente da convergência desses múltiplos olhares, portanto, protegida pelo mecanismo do descarte e consolidada pela soma das avaliações, que nasceu o 27º título do Caprichoso.
Assim sendo, mais do que explicar um resultado, a planilha revela que, em Parintins, até mesmo os números carregam emoção.
Próximo capítulo
Quando um décimo muda a história
No terceiro capítulo da série “A planilha também conta histórias”, o BNC Amazonas mostrará como diferenças aparentemente insignificantes de 0,1 ponto decidiram alguns dos confrontos mais emblemáticos do Festival Folclórico de Parintins e ajudaram a construir o campeonato do Caprichoso.
Fotomontagem BNC Amazonas
