Bloco musical deu base do título do boi Caprichoso

Planilha da apuração revela que a vantagem decisiva do campeão nasceu justamente no conjunto de itens que sempre foi caro ao contrário.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 30/06/2026 às 14:51 | Atualizado em: 30/06/2026 às 14:51

Passada a tensão da apuração e a euforia e consequente ressaca da galera pelo 27º título do boi-bumbá Caprichoso no 59º Festival Folclórico de Parintins, o BNC Amazonas mergulha na planilha dos jurados para dar ao leitor detalhes que definiram o vencedor da disputa na arena do bumbódromo.

Uma das primeiras constatações sobre os números é que o boi azul começou a construir a conquista muito antes das grandes alegorias ocuparem a arena.

A leitura da planilha oficial da apuração mostra que a principal vantagem do campeão surgiu justamente no bloco A (comum/musical), considerado por muitos artistas e torcedores como o coração do espetáculo.

Foi nesse conjunto de itens, formado por apresentador, levantador de toadas, Marujada de Guerra ou Batucada, amo do boi, toada (letra e música), galera e organização do conjunto folclórico, que o boi da Francesa e dos Palmares apresentou uma regularidade impressionante, transformando pequenos décimos na base matemática do campeonato.

À frente dessa orquestra de boi o maestro Neil Armstrong, que regeu os músicos e os backing-vocals para uma afinada interação com a Marujada de Guerra. 

Mais do que um detalhe da planilha, os números ajudam a explicar como o Caprichoso construiu a vantagem que sustentou sua conquista até a última noite.

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O campeonato começou pela música

O dado mais revelador da planilha está justamente na repetição das notas.

Durante as três noites do festival, o Caprichoso marcou rigorosamente 139,9 pontos no bloco musical A nos dias 26, 27 e 28.

A sequência evidencia uma estabilidade rara em uma competição de altíssimo nível técnico e mostra que a espinha dorsal do espetáculo manteve praticamente o mesmo padrão de excelência do início ao fim.

O Garantido, por sua vez, oscilou e registrou 139,8; 139,5 e 139,6.

A principal diferença apareceu justamente na segunda noite, de 4 décimos, quando o boi vermelho alcançou sua menor pontuação nesse bloco, abrindo espaço para que o Caprichoso construísse a vantagem que mais tarde seria confirmada na classificação geral, com diferença de 7 décimos.

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A alma do boi

Não por acaso, o bloco A concentra os itens que mais mobilizam a paixão das duas torcidas.

Foi nele que se enfrentaram o apresentador Edmundo Oran e Israel Paulain; os levantadores de toadas Patrick Araújo e David Assayag; os amos do boi Caetano Medeiros e João Paulo Faria; além da tradicional disputa entre Marujada e Batucada, das toadas, da galera e da organização do conjunto folclórico.

Enquanto o bloco artístico impressiona pela grandiosidade visual, é o conjunto musical que conduz a narrativa, estabelece a comunicação entre arena e arquibancada e sustenta a identidade de cada boi.

Em outras palavras, é ali que o espetáculo ganha voz, ritmo e emoção.

A segunda noite mudou o campeonato

A primeira noite de apresentação terminou exatamente como começou: em absoluto equilíbrio.

Caprichoso e Garantido fecharam a sexta-feira com 419,6 pontos cada.

A mudança aconteceu na segunda noite.

O Caprichoso repetiu sua consistência e alcançou 419,7 pontos. O Garantido terminou com 419,3, permitindo ao rival abrir 4 décimos de vantagem.

No domingo, o boi vermelho reagiu e chegou a 419,4 pontos, mas o Caprichoso voltou a repetir 419,7, administrando a diferença construída anteriormente.

A planilha mostra que a vitória não nasceu de uma arrancada final, mas da capacidade de manter praticamente o mesmo padrão de desempenho durante todo o festival.

O empate que reconheceu as duas torcidas

Outro dado curioso envolve um dos itens que mais mobilizam as paixões em Parintins.

Apesar da rivalidade nas arquibancadas, o item galera terminou rigorosamente empatado.

Caprichoso e Garantido receberam pontuação máxima nas três noites, encerrando o festival com 60 pontos cada.

O resultado reconhece oficialmente o empenho das duas torcidas, que enfrentaram horas de fila, sol e chuva para incentivar seus bois durante as duas horas e meia de apresentação em cada noite.

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Debate dos torcedores

A divulgação da planilha abriu uma nova discussão entre torcedores e analistas do festival, especialmente entre integrantes da nação vermelha.

Nas redes sociais, muitos reconheceram a evolução artística do Garantido em relação às últimas temporadas, mas passaram a concentrar suas análises justamente sobre o desempenho do bloco musical, historicamente considerado um dos maiores patrimônios do boi da baixa do São José.

Entre as observações mais frequentes aparecem reflexões sobre a atuação do apresentador Israel Paulain, do levantador de toadas David Assayag, do amo do boi João Paulo Faria, da Batucada e até mesmo sobre a identidade artística escolhida para o espetáculo de 2026.

Também surgiram avaliações de que o Garantido teria se aproximado de uma linguagem artística semelhante à desenvolvida recentemente pelo Caprichoso, enquanto o campeão buscou justamente elementos tradicionalmente associados ao rival, como a valorização da emoção popular, da cultura cabocla, da religiosidade e do sentimento de pertencimento.

A planilha oficial não permite estabelecer relação direta entre essas interpretações e as notas atribuídas pelos jurados. Mas, os números mostram que foi exatamente no bloco mais debatido pelas torcidas que o Caprichoso construiu sua principal vantagem.

Quando os números contam a história

Mais do que registrar quem venceu, a planilha ajuda a compreender como o campeonato foi construído.

O bloco artístico continuou oferecendo alguns dos momentos mais grandiosos do festival. Entretanto, foi a consistência do conjunto musical que sustentou a campanha do Caprichoso.

Se a emoção foi a linguagem escolhida pelo boi azul para contar sua história na arena, a regularidade foi a tradução dessa emoção na matemática da apuração.

Em um campeonato decidido por apenas 0,7 ponto, os números mostram que o 27º título começou a nascer justamente onde o coração de cada boi bate mais forte: na música, na poesia, na cadência da Marujada, na voz do levantador, nos versos do amo do boi e na comunhão entre artistas e galera.

A planilha confirmou aquilo que a arena apenas sugeria: antes de vencer pelas alegorias, o Caprichoso venceu pela alma musical do seu espetáculo.

Foto: Divulgação