O desfile dos adestrados: quando o asfalto vira palco de gravação

O texto apresenta uma crítica ácida à postura do deputado Nikolas Ferreira e à "política-espetáculo" brasileira.

Publicado em: 25/01/2026 às 12:01 | Atualizado em: 25/01/2026 às 12:01

Por Plínio César Coelho*

O Brasil assistiu, em mais uma dessas “marchas pela liberdade”, ao ápice da política-espetáculo. Ver o deputado Nikolas Ferreira liderando uma multidão é como assistir a um filme de baixo orçamento onde o protagonista não tem falas inteligentes, mas o diretor compensa com muito barulho e efeitos especiais.

O triunfo do vazio

É impressionante como o deputado mineiro conseguiu a proeza de ser um dos mais votados do país sem, no entanto, ter entregado uma única solução real para os problemas de Minas Gerais.

O que ele entregou na marcha? O de sempre: fake news gourmetizadas e o carisma de um animador de festa infantil para adultos que se recusam a ler um livro.

A “imbecilização” que vemos nas ruas não é por acaso; é um projeto. Para que alguém siga um sujeito que vive de criar pânicos morais imaginários — enquanto ignora o preço da cesta básica e o sucateamento da infraestrutura — é preciso que o senso crítico tenha sido jogado no lixo há muito tempo.

A marcha para lugar nenhum

Enquanto a “manada digital” caminhava sob o sol, o roteiro era seguido à risca:

* O “mártir” de condomínio : Nikolas posa de perseguido enquanto usa a máquina pública para se autopromover.

* O gado do algoritmo : pessoas que acreditam estar salvando a nação, quando na verdade estão apenas garantindo que o vídeo do deputado tenha um bom alcance orgânico.

 O que esse rapaz trouxe de bom para o povo?

 Absolutamente nada. Nem um hospital, nem uma escola, nem um projeto de lei que não seja focado em proibir algo que já não acontece ou perseguir minorias.

Ele é o Rei do Nada, o monarca de um reino feito de pixels e indignação coreografada.

 O despertar que não vem

A maior tragédia não é o deputado em si — bufões sempre existiram na política. A tragédia é o povo que, em vez de exigir contas, exige fotos. É a massa que prefere o entretenimento do “lacre” à seriedade do trabalho parlamentar.

No fim das contas, a marcha não foi pelo Brasil, nem por Minas. Foi pelo engajamento.

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O povo mais uma vez serviu de figurante gratuito para que o deputado possa continuar sua carreira de influencer em Brasília, pago com o nosso dinheiro, enquanto a realidade — aquela que não cabe num vídeo de 15 segundos — continua batendo à porta de quem marchou.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: reprodução