O banco vazio do 446

Entre moedas, catracas e memórias, o desaparecimento dos cobradores revela uma Manaus mais automática e menos humana.

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 14/05/2026 às 13:12 | Atualizado em: 14/05/2026 às 13:36

O ônibus passou no núcleo 2 da Cidade Nova como quem já conhece o cansaço da cidade. O motor roncava pesado, as barras amarelas tremiam a cada buraco e o ar quente de Manaus entrava pelas frestas como uma lembrança insistente de que o tempo passou. Mas nem tudo acompanhou esse movimento.

Foi aquela sensação filosófica de voltar ao rio e não encontrá-lo mais. Pois nem você nem o rio serão mais os mesmos.

Entrei no 446 carregando uma memória antiga. Dessas que o corpo guarda sozinho. Sem pensar, meus olhos procuraram o cobrador. E meus pés também. Caminhei naturalmente em direção à cadeira onde, durante tantos anos, alguém viveu parte da própria vida. Um homem com troco nos dedos, moeda tilintando, rosto cansado de jornada dupla e uma habilidade quase matemática de encontrar cinquenta centavos no meio do caos da hora do rush.

Mas a cadeira estava vazia.

Vazia não como um assento qualquer. Vazia como ficam certos lugares quando deixam de existir sem cerimônia. Sem despedida. Sem homenagem. Sem que a cidade perceba exatamente o que perdeu.

Por alguns segundos fiquei parado, olhando aquele espaço oco no ônibus da linha 446, tentando entender se a ausência era do cobrador ou do próprio tempo em que Manaus ainda parecia conversar dentro dos ônibus.

Perguntei ao motorista se era ele quem recebia as passagens. Ele respondeu com a naturalidade resignada de quem já repetiu aquilo centenas de vezes naquele mesmo dia. Sim, cinco reais. Cinco reais a passagem.

O motorista dirige, recebe dinheiro, observa retrovisor, abre porta, fecha porta, responde passageiro e tenta sobreviver ao trânsito.

O cobrador desapareceu discretamente. Silenciosamente! Lamentavelmente.

Talvez tenha sido vendido como modernização. Talvez como necessidade econômica. Talvez como inevitabilidade. Essas palavras grandes que costumam justificar pequenas perdas humanas.

Lembrei imediatamente de 2012, quando deixei de usar o transporte coletivo diariamente. Naquela época, o ônibus ainda era um espaço de convivência involuntária. O cobrador conhecia passageiros frequentes, segurava a catraca para a senhora subir devagar, avisava o motorista que tinha estudante correndo atrás do ônibus. Às vezes brigava. Às vezes ria alto. Às vezes dormia sentado no ponto final.

Era uma profissão inteira vivendo ali, entre o barulho das moedas e o cheiro de diesel.

Agora restou apenas a cadeira.

E o curioso é que ela continua ali, como um fantasma de plástico e ferro atravessando Manaus de ponta a ponta. Da Zona Norte à Zona Sul, passando pelo Terminal 3 da Cidade Nova e pelo Terminal 2 da Cachoeirinha, o assento vazio segue testemunhando uma mudança silenciosa no trabalho urbano.

Porque não foi apenas o cobrador que saiu do ônibus.

Saiu também uma certa ideia de cidade.

O passageiro de hoje embarca olhando para o celular. O motorista já não consegue olhar para ninguém. O dinheiro continua circulando, mas as relações parecem mais curtas, mais mecânicas. A tecnologia prometeu eficiência, mas o ônibus continua sacolejando nas mesmas ruas esburacadas, sob o mesmo calor, carregando a mesma pressa cansada de sempre.

O custo diminuiu para alguém. Isso é evidente.

Mas não para quem paga cinco reais espremido entre ferro quente e janelas que mal respiram.

A cadeira vazia do cobrador talvez seja uma das fotografias mais honestas da cidade moderna: ela elimina pessoas, mas preserva estruturas. O espaço continua lá, intacto, como se esperasse alguém voltar para ocupá-lo.

E talvez seja isso que mais incomoda.

Porque o vazio daquela cadeira não fala apenas da ausência de um trabalhador. Fala da facilidade com que certas profissões desaparecem sem virar notícia, sem protesto duradouro, sem memória coletiva. Some o cobrador, some o jornaleiro, some o telefonista, some o bilheteiro. A cidade vai apagando funções humanas enquanto chama isso de avanço.

Dentro do 446, olhando aquele assento abandonado, percebi que não era apenas eu quem havia deixado o transporte coletivo em 2012.

Uma parte da própria Manaus também ficou naquele tempo.

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Foto: Neuton Corrêa/especial para o BNC Amazonas