Bolsonaro escala ‘estrangeiro’ para disputar o Senado em Roraima

Apostando na fidelidade do eleitorado de Roraima, o bolsonarismo lança Hélio Lopes do Rio de Janeiro para o Senado.

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados em 09/07/2025 - Plenário - Sessão Deliberativa

Neuton Corrêa, da Redação do BNC AMAZONAS

Publicado em: 23/03/2026 às 20:54 | Atualizado em: 24/03/2026 às 04:28

Apostando na obediência roraimense, Bolsonaro enviou um deputado do Rio de Janeiro para disputar as eleições no estado vizinho. O ex-presidente Jair Bolsonaro dobrou as apostas para testar a fidelidade do estado mais bolsonarista do país: Roraima. Ele escalou para concorrer ao Senado um “estrangeiro” aos roraimenses: Hélio Lopes (PL), político do Rio de Janeiro e figura umbilicalmente ligada ao ex-presidente.

A missão de Hélio

Hélio talvez ainda não saiba onde fica Caracaraí, a cidade-porto de Roraima. Mas conhecer o estado é o que menos importa nesse caso. A missão de Hélio Lopes é derrotar forças políticas históricas da região, entre elas Romero Jucá, Teresa Surita e o atual senador Chico Rodrigues.

O problema é que ele pode atropelar aliados da direita. Por exemplo, o prefeito de Boa Vista, Arthur Henrique, e seu vice, Marcelo Zeitoune, que são filiados ao PL. Por exemplo, em outubro de 2025, Arthur Henrique chegou a trocar o MDB pelo PL e costurava candidatura fácil a senador.

Com essa eleição, a direita — sobretudo a bolsonarista — pretende ampliar sua representação no Senado. Dessa forma, busca governar o país dominando o Congresso.

Com tal força, poderia, por exemplo, levar adiante o impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, considerado pelo grupo o “carrasco do 8 de janeiro”.

A missão dos eleitores

Por sua vez, a missão dos eleitores de Roraima será votar no deputado carioca e elegê-lo. É simples assim? A resposta é “sim”. A direita resolve, num estalar de dedos, suas vontades eleitorais em Roraima.

Para entender a movimentação de Hélio Lopes, é preciso olhar para os números que transformaram o estado no maior “porto seguro” da direita bolsonarista no Brasil.

Em 2022, Roraima entregou a Jair Bolsonaro sua maior vitória proporcional no país, com impressionantes 76,08% dos votos válidos no segundo turno.

O crescimento é constante. Em 2018, Bolsonaro já havia conquistado 71,55% do eleitorado local. Enquanto o ex-presidente perdia terreno em outras capitais do Norte, em Roraima ele consolidou uma hegemonia que parece imune às oscilações nacionais. É sobre esse solo fértil que o PL planta agora a candidatura de um político que fez toda a sua carreira a 4.000 km de distância.

Identidade vs. Lealdade

Hélio Lopes nasceu em Queimados (RJ) e construiu sua vida pública como o aliado mais próximo da família Bolsonaro.

Ele não conhece a realidade das vicinais de Roraima, os gargalos logísticos da BR-174 ou as nuances da crise migratória venezuelana da mesma forma que os políticos locais. No entanto, sua estratégia ignora o bairrismo tradicional.

A aposta é que o eleitor de Roraima não busca um “conhecedor do estado”, mas sim um “fiel escudeiro do capitão”.

Se essa tese se confirmar nas urnas, a direita bolsonarista provará que Roraima se tornou um território onde a ideologia e o alinhamento nacional atropelam, definitivamente, as questões regionais.

Foto: Vinicius Loures/Câmara