Bolsonaro escala ‘estrangeiro’ para disputar o Senado em Roraima
Apostando na fidelidade do eleitorado de Roraima, o bolsonarismo lança Hélio Lopes do Rio de Janeiro para o Senado.
Neuton Corrêa, da Redação do BNC AMAZONAS
Publicado em: 23/03/2026 às 20:54 | Atualizado em: 24/03/2026 às 04:28
Apostando na obediência roraimense, Bolsonaro enviou um deputado do Rio de Janeiro para disputar as eleições no estado vizinho. O ex-presidente Jair Bolsonaro dobrou as apostas para testar a fidelidade do estado mais bolsonarista do país: Roraima. Ele escalou para concorrer ao Senado um “estrangeiro” aos roraimenses: Hélio Lopes (PL), político do Rio de Janeiro e figura umbilicalmente ligada ao ex-presidente.
A missão de Hélio
Hélio talvez ainda não saiba onde fica Caracaraí, a cidade-porto de Roraima. Mas conhecer o estado é o que menos importa nesse caso. A missão de Hélio Lopes é derrotar forças políticas históricas da região, entre elas Romero Jucá, Teresa Surita e o atual senador Chico Rodrigues.
O problema é que ele pode atropelar aliados da direita. Por exemplo, o prefeito de Boa Vista, Arthur Henrique, e seu vice, Marcelo Zeitoune, que são filiados ao PL. Por exemplo, em outubro de 2025, Arthur Henrique chegou a trocar o MDB pelo PL e costurava candidatura fácil a senador.
Com essa eleição, a direita — sobretudo a bolsonarista — pretende ampliar sua representação no Senado. Dessa forma, busca governar o país dominando o Congresso.
Com tal força, poderia, por exemplo, levar adiante o impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, considerado pelo grupo o “carrasco do 8 de janeiro”.
A missão dos eleitores
Por sua vez, a missão dos eleitores de Roraima será votar no deputado carioca e elegê-lo. É simples assim? A resposta é “sim”. A direita resolve, num estalar de dedos, suas vontades eleitorais em Roraima.
Para entender a movimentação de Hélio Lopes, é preciso olhar para os números que transformaram o estado no maior “porto seguro” da direita bolsonarista no Brasil.
Em 2022, Roraima entregou a Jair Bolsonaro sua maior vitória proporcional no país, com impressionantes 76,08% dos votos válidos no segundo turno.
O crescimento é constante. Em 2018, Bolsonaro já havia conquistado 71,55% do eleitorado local. Enquanto o ex-presidente perdia terreno em outras capitais do Norte, em Roraima ele consolidou uma hegemonia que parece imune às oscilações nacionais. É sobre esse solo fértil que o PL planta agora a candidatura de um político que fez toda a sua carreira a 4.000 km de distância.
Identidade vs. Lealdade
Hélio Lopes nasceu em Queimados (RJ) e construiu sua vida pública como o aliado mais próximo da família Bolsonaro.
Ele não conhece a realidade das vicinais de Roraima, os gargalos logísticos da BR-174 ou as nuances da crise migratória venezuelana da mesma forma que os políticos locais. No entanto, sua estratégia ignora o bairrismo tradicional.
A aposta é que o eleitor de Roraima não busca um “conhecedor do estado”, mas sim um “fiel escudeiro do capitão”.
Se essa tese se confirmar nas urnas, a direita bolsonarista provará que Roraima se tornou um território onde a ideologia e o alinhamento nacional atropelam, definitivamente, as questões regionais.
Foto: Vinicius Loures/Câmara
