Gigantes chinesas miram oportunidades no polo industrial da ZFM

Encontro promovido por Fieam, Cieam e Sinaees aproximou montadoras e fornecedores chineses da ZFM.

Gigantes chinesas miram oportunidades no polo industrial da ZFM

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 28/07/2026 às 13:18 | Atualizado em: 28/07/2026 às 13:37

Representantes de empresas chinesas ligadas à indústria automotiva conheceram, na manhã desta terça-feira (28 de julho), as vantagens e a capacidade produtiva da Zona Franca de Manaus (ZFM) para participar da expansão das montadoras asiáticas no Brasil.

Realizado na sede da Federação das Indústrias do do Amazonas (Fieam), o encontro teve como tema “Ampliação do relacionamento – indústria chinesa e Zona Franca de Manaus”.

A programação começou às 9h e foi aberta pelo presidente da Fieam, Antônio Silva.

Promovido pela Fieam, pelo Centro da Indústria do Amazonas (Cieam) e pelo Sindicato Nacional das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares (Sinaees), o evento reuniu empresários, executivos brasileiros que atuam na China e representantes de montadoras chinesas para discutir oportunidades de negócios e ampliar a integração entre a indústria chinesa e o polo industrial da ZFM.

A principal aposta apresentada durante o encontro foi posicionar Manaus como fornecedora de componentes de alto valor agregado — como baterias, displays, painéis eletrônicos e sistemas embarcados — para a nova geração de veículos elétricos produzidos pelas montadoras chinesas.

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Um dos palestrantes do encontro foi o secretário de de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Gustavo Igrejas, que explicou que a aproximação nasceu a partir da atuação da multinacional americana Visteon, fabricante de painéis automotivos instalada no polo industrial de Manaus e com operações ainda maiores na China.

Segundo ele, um executivo da empresa que trabalhou em Manaus e hoje atua na China articulou a visita da delegação ao Amazonas.

“A Visteon na China é muito maior. Ela tem outras divisões. A ideia é mostrar as nossas vantagens e verificar se conseguimos trazer para Manaus outras divisões da Visteon e outros produtos”, afirmou.

Antes da programação na Fieam, a delegação havia visitado a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Durante sua apresentação, Igrejas destacou a dimensão econômica da ZFM e procurou demonstrar aos empresários chineses a segurança do modelo industrial amazonense.

“Não é uma coisa pequena. Vamos alcançar um faturamento de aproximadamente US$ 45 bilhões”, disse.

O secretário também sustentou que a reforma tributária tende a fortalecer ainda mais o modelo ZFM.

“A partir de 2032, nós vamos ser o lugar mais seguro para fazer investimento no Brasil com incentivo fiscal. O único, por sinal”, afirmou.

Na avaliação do titular da Sedecti, a intenção é aproveitar a expansão internacional das empresas chinesas para atrair novos investimentos ao polo industrial.

“Vamos ver se uma boa parte dos investimentos que eles fizeram na China também pode ser feita aqui na ZFM”.

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Ponte entre Manaus e China

Um dos principais articuladores da missão empresarial foi Sérgio Capela, executivo da Visteon que vive em Xangai e atualmente responde por quatro fábricas da companhia na China.

Capela conhece profundamente o polo industrial de Manaus. Chegou à capital amazonense em 1996, trabalhou em empresas como Gradiente, Philips e Nokia, foi gerente da fábrica da Visteon em Manaus e posteriormente comandou uma unidade da empresa em Portugal.

Hoje, atua na aproximação entre as montadoras chinesas e a indústria instalada na ZFM.

“Nós criamos essa oportunidade de comunicação e de conexão entre as empresas chinesas e o polo industrial de Manaus”, afirmou.

Segundo ele, o objetivo da missão é apresentar aos empresários chineses os incentivos fiscais da zona franca e a capacidade industrial existente em Manaus.

“Temos essa missão de trazer as empresas chinesas para cá, para realizar conversas de negócios e rodadas de discussão sobre os incentivos fiscais, as montadoras automotivas chinesas, o polo industrial de Manaus e a Suframa”.

Capela afirmou que a transformação da indústria automobilística mundial cria uma oportunidade inédita para Manaus.

“O polo industrial de Manaus tem uma grande oportunidade, porque está havendo uma transição cada vez mais acelerada dos veículos a combustão para os veículos elétricos”, disse.

Segundo ele, justamente por possuir um parque especializado em eletroeletrônicos, o polo industrial reúne condições de integrar essa nova cadeia global.

“As baterias, os displays e uma gama de produtos eletroeletrônicos feitos no Polo Industrial de Manaus casam muito bem com as necessidades dos veículos elétricos chineses”, afirmou.

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Brasil entra na estratégia das montadoras chinesas

O executivo Zhang Fenghan, conhecido como Vincent, apresentou um panorama da expansão mundial da indústria automobilística chinesa.

Segundo ele, as montadoras estão abandonando o modelo baseado exclusivamente na exportação de veículos e passando a instalar fábricas, centros de engenharia e cadeias locais de fornecedores em mercados estratégicos.

“A globalização das montadoras chinesas já não se resume à venda de veículos para o mundo. Trata-se, cada vez mais, de estabelecer fábricas locais, cadeias de fornecimento, capacidades de engenharia e parcerias industriais de longo prazo”, afirmou.

Vincent apresentou os planos internacionais de fabricantes como BYD, Chery, Great Wall Motors, Geely, Saic e Changan e destacou que o Brasil ocupa posição estratégica nesse processo.

“O Brasil não é apenas mais um destino de exportação, mas um mercado estratégico com significativo potencial de longo prazo”, disse.

Segundo ele, os anos entre 2026 e 2029 serão decisivos para definir onde essas empresas instalarão fábricas, fornecedores e centros tecnológicos.

“O Brasil tem uma oportunidade única de se tornar não apenas um grande mercado para veículos chineses, mas também um importante polo de produção automotiva e de tecnologia para a América do Sul”, afirmou.

Great Wall quer fornecedores locais

Representando a Great Wall Motors (GWM), o diretor de cadeia de suprimentos Wang Hui, conhecido como Mark, afirmou que a estratégia da empresa no Brasil passa pelo aumento do conteúdo nacional dos veículos.

“Queremos aprofundar a localização, o que significa desenvolver uma cadeia de fornecimento local”.

Segundo ele, a empresa procura parceiros capazes de integrar uma cadeia permanente de produção.

“Não estamos aqui apenas para encontrar um fornecedor. Queremos construir um ecossistema nos mercados emergentes”, afirmou.

Entre os primeiros componentes que poderão ser nacionalizados estão peças de injeção plástica, estampados metálicos e, posteriormente, componentes eletrônicos mais sofisticados.

Fazer negócios com a China exige confiança

Ao encerrar sua participação, Capela chamou a atenção para uma diferença cultural que, segundo ele, será decisiva para o sucesso das empresas brasileiras interessadas em negociar com a China.

“Fazer negócios com a China não é igual a fazer negócios da maneira como estamos acostumados com europeus ou americanos. É completamente diferente”, observou.

Ele disse que as relações comerciais chinesas são construídas com base na confiança e citou o conceito de guanxi, expressão que representa a construção de relacionamentos duradouros.

“Quando cultivamos essa relação, estabelecemos uma conexão e construímos confiança. A partir desse momento, podemos começar a desenvolver negócios”.

Embora o encontro não tenha resultado no anúncio imediato de novos investimentos para o Polo Industrial de Manaus, a iniciativa abriu um canal direto entre a indústria amazonense e um dos setores que mais crescem no mundo, colocando a ZFM no radar da estratégia internacional das montadoras chinesas para a produção de veículos elétricos.

Fotos: BNC Amqazonas